A lembrança da noite de 12 de outubro de 2024 ainda acompanha a rotina da servidora pública Mayara Corrêa, de 27 anos.
Segundo ela, o que começou como uma comemoração de aniversário entre amigos terminou em uma sequência de agressões físicas, humilhações e uma madrugada passada nua dentro de uma cela, menstruada e sentada sobre o próprio sangue.
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As denúncias da servidora são contra o delegado Marcello Henrique Carvalho Cunha e integrantes da equipe que atuava na Delegacia de Polícia Civil de Oeiras do Pará. As acusações foram formalizadas por Mayara, em março de 2026 à Corregedoria-Geral da Polícia Civil.
No Termo de Declaração, ao qual a reportagem teve acesso, Mayara descreve os episódios de agressão policial. O documento foi assinado pela declarante, por sua advogada e pelo delegado responsável pela oitiva na Corregedoria.
A existência do procedimento confirma que o registro oficial das denúncias a seguir, que passaram a integrar apuração administrativa no âmbito da Polícia Civil do Pará.
A reportagem buscou posicionamento oficial da instituição por meio de sua assessoria, mas não obteve retorno. O espaço continua aberto.
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Festa de aniversário interrompida por policiais
Em entrevista à Alma Preta, Mayara Corrêa relata uma operação marcada por violência, ameaças e constrangimentos que deixaram consequências físicas e psicológicas que permanecem até hoje.
De acordo com ela, tudo começou durante o aniversário de um amigo. O grupo havia passado o dia reunido, almoçando e consumindo bebidas alcoólicas.
No início da noite, os convidados estavam no quintal da residência em Oeiras, onde haviam instalado luzes decorativas para a festa. Por volta das 20 horas, policiais civis e militares chegaram ao local.
Mayara conta que a entrada foi repentina e que um dos policiais disparou um tiro logo nos primeiros momentos da abordagem. O tiro teria atingindo o joelho de uma das pessoas que estavam no espaço. Em seguida, todos teriam recebido ordem para deitar no chão.

Ela conta que teve seu celular apreendido por uma policial, a única mulher no operativo, identificada como Martha Michelle Amorim Pinheiro. A agente também teria dado uma coronhada em suas costas e a algemado.
Os policiais também algemaram outras pessoas que estavam na festa. De acordo com a servidora, os agentes afirmavam que não havia algemas suficientes para todos e que aqueles que não fossem algemados poderiam ser mortos.
Um dos homens que estavam na festa, segundo Mayara, havia passado por uma cirurgia poucos dias antes, e ainda possuía pontos na região.
Ela afirma que, durante a ação, esse mesmo homem pediu autorização para se levantar e acender uma luz a pedido dos policiais. O pedido teria sido recebido com hostilidade.
Mayara relata que o delegado o chutou e que, ao saber da existência dos pontos cirúrgicos, teria mandado que o homem fosse virado de peito para cima.
“Ele está com pontos? Deixa eu ver”, lembra ter ouvido.
Ela conta que o delegado então teria pisado sobre o local da cirurgia até arrancar os pontos, provocando gritos de dor do homem.
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Ao presenciar a cena, Mayara diz que passou a pedir que as agressões parassem.
Foi nesse momento que ela passou a ser alvo direto da agressão policial.
Ela afirma que foi chamada de “vagabunda” e recebeu spray de pimenta nos olhos. Mesmo ferida, continuou protestando contra a violência que dizia estar presenciando.
De acordo com Mayara, ela recebeu um segundo jato de spray diretamente em seu nariz. Foi quando perdeu o fôlego e não conseguia abrir os olhos. Na sequência, começou a receber socos e chutes enquanto permanecia algemada no chão.
“Eu gritava por ajuda, mas ninguém podia me ajudar porque todos estavam algemados”, conta.
A servidora afirma ainda que teve os cabelos puxados, recebeu cusparadas no rosto e ouviu ameaças de morte.
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Ela relata que ao dizer que tinha dois filhos para criar, ouviu do delegado que “pessoas como ela” não deveriam ter filhos e que sua morte seria um favor para a sociedade.
Após a abordagem, Mayara e outros presentes foram levados para a delegacia.
Ela afirma que permaneceu presa sem saber exatamente o motivo da detenção. Somente depois da prisão as autoridades explicaram que ela era suspeita de ter envolvimento com drogas.
A servidora nega que houvesse qualquer substância ilícita no local e afirma que nenhum dos detidos teve acesso ao material que supostamente justificaria a prisão.
Na delegacia, ela afirma que os depoimentos já estavam prontos no papel quando foram apresentados para assinatura.
Mayara afirma que pediu para ler o documento, mas recebeu orientação para apenas assinar caso desejasse deixar o local mais rapidamente.
Nua e menstruada dentro de uma cela
A situação, porém, se agravaria durante a noite.
Ainda sentindo os efeitos do spray de pimenta, Mayara pediu água para lavar o rosto. Ela afirma que carregava um absorvente dentro da roupa porque estava menstruada.
Segundo o relato, a policial civil Martha Michelle foi quem retirou o absorvente da vítima. Pouco depois, Mayara também recebeu ordem para retirar toda a roupa antes de entrar em uma cela.
Mayara afirma que pediu para permanecer ao menos com a calcinha e o absorvente, mas a policial não cedeu ao pedido.
Sozinha na cela, sem roupas e sem qualquer material de higiene, o sangue começou a escorrer pelo corpo e pelo chão durante a madrugada.
“Fiquei a noite toda sentada sobre o meu próprio sangue”, afirma a servidora.
Ela conta que também não recebeu autorização para tomar banho ou limpar o corpo e que o piso da cela, de areia, acabou aderindo à pele e ao sangue.
Novas humilhações ao amanhecer
Na manhã seguinte, uma advogada que compareceu à delegacia viu e questionou as condições a que submeteram Mayara.
Uma familiar levou os absorventes até a delegacia ainda durante a manhã. Mesmo assim, Mayra relata que só entregaram os itens a ela horas depois.
Ela afirma que apenas no início da tarde recebeu uma calcinha, um vestido e absorventes.
Mas a humilhação ainda não havia terminado.
Mayara relata que o delegado entrou na área das celas e passou a reclamar do sangue acumulado no chão.
Ela diz ter sido obrigada a limpar a cela com uma mangueira antes de ser solta.
“Ele dizia que eu era imunda e nojenta. Falou que eu só sairia dali depois que limpasse tudo”, afirma.
Sem escova ou qualquer equipamento de limpeza, ela conta ter esfregado o chão com as próprias mãos para retirar o sangue já seco.
Somente depois disso, por volta das quatro horas da tarde, a polícia liberou a servidora da prisão.
Meses após os acontecimentos, Mayara afirma ter voltado a ser alvo de investigações policiais.
Em 2025 seu nome apareceu em um pedido de prisão preventiva relacionado ao tráfico de drogas. A servidora sustenta que foi apontada como suposta continuadora das atividades de Rosimilck Rick Maciel Amorim, conhecido como Keko, morto durante uma operação policial em Oeiras do Pará.
Ela nega qualquer envolvimento com o tráfico e afirma que o pedido não prosperou por falta de provas.
Desde então, diz viver sob medo constante.
“Eu não dormia, não saía de casa e precisei iniciar tratamento psicológico”, relata.
Caso Rosimilck
As denúncias feitas por Mayara se direcionam à mesma equipe que atuou na operação policial que terminou na morte de Rosimilck Rick Maciel Amorim, em Oeiras do Pará, menos de um mês depois, no dia 7 de novembro de 2024.
Liderados pelo delegado Marcello Henrique Carvalho Cunha, o grupo incluía os policiais civis Alysson Viana Guedes e Martha Michelle Amorim, além do servidor administrativo Allan Souza Siqueira.
Mas a conexão entre os dois casos não param por aí. Mayara também conta que manteve um relacionamento com Rosimilck por cerca de dois anos e cinco meses. Embora estivessem afastados quando ele morreu, os dois continuavam se encontrando e mantendo contato frequente.
“Uns dias antes dele morrer, a gente brigou. Eu arrumei minhas coisas e fui para a casa de uma amiga, mas todo dia a gente se falava. Eu dormia lá, almoçava com ele, a gente continuava junto”, recorda a servidora.
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Mayara lembra que, na tarde de 7 de novembro de 2024, horas antes da operação policial que terminou com a morte de Rosimilck, ele ligou convidando-a para ir até sua casa.
Ela conta que o companheiro havia comprado um celular novo e queria ajuda para configurá-lo.
“Ele me disse para ir para lá porque meia-noite já seria aniversário dele. Falou para a gente tomar uma cerveja e no outro dia almoçar com a mãe dele”, recorda.
Mayara afirma que recusou o convite naquele momento por estar cansada. Pouco depois, saiu de casa acompanhada de uma amiga.
Quando tentou ligar para Rosimilck novamente, não conseguiu contato.
“Eu estranhei porque ele sempre atendia”, diz.
Algum tempo depois, começaram a chegar mensagens de conhecidos.
Inicialmente, imaginou que se tratasse de mais uma abordagem policial.
“Eu pensei que iam me dizer que a polícia tinha pegado droga com ele ou que tinham batido nele de novo”.
Mas a notícia era outra. “Me disseram: ‘Mayara, acabaram de matar o Keko’”.
Desesperada, ela correu para o local. Entretanto, quando chegou, afirma que o corpo já havia sido retirado da residência.
No hospital, os policiais formavam uma barreira impedindo a aproximação de familiares e amigos.
“Eu sentei na calçada e fiquei chorando. Não tinha mais nada que eu pudesse fazer”.
Pressões sobre Rosimilck antes da morte
Mayara afirma que, antes da morte, Rosimilck relatava sofrer constantes pressões e ameaças por parte de agentes de segurança.
Ela conta que, no mesmo dia da operação, ele havia comentado sobre a existência de um mandado de prisão.
“Ele me disse que estava cansado. Falou que, se fosse preso, não iria fugir. Que deixaria a chave da casa comigo para eu cuidar do cachorro e que a moto ficaria com o irmão dele”.
Na avaliação de Mayara, Rosimilck não demonstrava intenção de reagir a uma eventual prisão. “Ele falou que estava cansado daquilo tudo”.
A servidora afirma que, após a morte do companheiro, passou a viver sob constante medo.
Ela relata que o nome de Rosimilck continuou sendo mencionado em abordagens posteriores feitas pelo delegado Marcello Cunha.
“Ele dizia que eu queria ter o mesmo destino do Keko”, afirma.
Mayara relata que iniciou acompanhamento psicológico após os acontecimentos e que sua rotina mudou completamente.
“Eu não dormia. Não saía de casa. Vivia com medo”.
Ao recordar a morte de Rosimilck, ela interrompe diversas vezes o relato: “Infelizmente, nada do que a gente faça vai trazer ele de volta”, diz.
Edição: Camila Rodrigues da Silva.