Em junho deste ano, mais de 500 mulheres quilombolas de 24 estados ocuparam Brasília durante o III Encontro Nacional de Mulheres Quilombolas. Durante cinco dias, lideranças discutiram justiça climática, proteção dos territórios, combate à violência e políticas públicas. A programação marcou os 30 anos da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) e consolidou um dos maiores espaços de articulação política das mulheres quilombolas no Brasil.
Mas poucos imaginam que parte dessa trajetória passou pelo fortalecimento de uma articulação que ainda dava seus primeiros passos dentro da própria CONAQ. Em 2015, a coordenação recebeu um apoio de R$ 16 mil do Fundo Casa Socioambiental para fortalecer a participação de mulheres quilombolas na primeira edição da Marcha das Mulheres Negras, realizada em Brasília.
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À primeira vista, o projeto tinha objetivo de apoiar o deslocamento de lideranças, produzir materiais de comunicação e realizar uma plenária nacional de mulheres quilombolas durante a mobilização.
Na prática, os efeitos ultrapassaram o cronograma do projeto. O apoio funcionou como um ponto de partida para o fortalecimento de uma articulação entre mulheres quilombolas, que se expandiu nos anos seguintes e ganhou capilaridade nacional. Essa construção coletiva esteve entre os elementos que contribuíram para a presença de aproximadamente 5 mil mulheres na marcha.
Segundo Maryellen Crisóstomo, quilombola do Território Baião, no sudeste do Tocantins, integrante do Coletivo de Mulheres Quilombolas da CONAQ e uma das articuladoras nacionais do movimento, aquele apoio marcou um dos principais momentos da consolidação do coletivo dentro da organização.
“O Coletivo de Mulheres Quilombolas da CONAQ tem como um dos principais marcos de sua implantação uma atividade realizada dentro de um território quilombola voltada ao fortalecimento das mulheres e meninas em contexto de violação de direitos. A partir desse primeiro apoio conseguimos realizar outras oficinas em diferentes estados, fortalecer o coletivo e ampliar nossa atuação como uma instância estratégica de articulação em defesa dos direitos das mulheres quilombolas, em espaços nacionais e internacionais”, conta.
Um dos desdobramentos ocorreu ainda em 2016, quando foi realizada a primeira Oficina Nacional de Mulheres Quilombolas no território Kalunga, em Goiás. Além de promover debates sobre racismo, violência contra mulheres, direitos e políticas públicas, a oficina reuniu lideranças comunitárias e representantes de órgãos públicos para discutir respostas às violações enfrentadas pelas comunidades quilombolas.
O relatório final do projeto registra que a iniciativa fortaleceu lideranças femininas, ampliou redes de solidariedade entre mulheres quilombolas de diferentes estados e consolidou um núcleo nacional de mulheres dentro da CONAQ, um processo que continua produzindo resultados até hoje.
Agora, mais de uma década depois, aquele processo de articulação das mulheres quilombolas dentro da CONAQ está à frente da organização do maior encontro nacional de mulheres quilombolas já realizado pela entidade.

Organizações comunitárias e recursos limitados
O caso ilustra que organizações comunitárias não nascem grandes. Na maioria das vezes, sua atuação se desenvolve a partir de iniciativas locais e coletivas com recursos limitados. Quando essas iniciativas conseguem acessar apoio no momento certo, criam condições para fortalecer lideranças, ampliar sua capacidade de mobilização e desenvolver soluções construídas pelos próprios territórios.
Mas, por trás dessa trajetória, existe uma discussão que ganhou espaço no debate internacional sobre financiamento climático. Como fazer com que os recursos cheguem, de fato, às organizações e iniciativas que atuam nos territórios? Esse processo de fortalecimento gradual ajuda a compreender como articulações internas se consolidam e ganham continuidade ao longo do tempo.
Embora o financiamento direto tenha avançado nos últimos anos, ele ainda representa uma pequena parcela dos recursos destinados às comunidades que protegem florestas e territórios.
O relatório anual mais recente do Forest Tenure Funders Group, que acompanha a implementação do compromisso global de US$ 1,7 bilhão firmado na COP26, mostra que 7,6% dos recursos destinados em 2024 chegaram diretamente às organizações indígenas e comunidades locais. Em 2022, esse percentual era de apenas 2,1%.
O documento destaca, porém, que barreiras burocráticas, exigências administrativas e modelos de financiamento pouco adaptados à realidade das organizações comunitárias continuam dificultando o acesso aos recursos.
A trajetória do coletivo de mulheres da CONAQ ajuda a mostrar por que esse debate importa.
É justamente essa lógica que inspira a nova Chamada Simplificada: apoio direto a iniciativas comunitárias do Fundo Casa Socioambiental. Criada para reduzir barreiras de acesso ao financiamento, a iniciativa busca apoiar organizações comunitárias que ainda estão em processo de estruturação ou que nunca tiveram oportunidade de acessar recursos de fundos filantrópicos.
A proposta simplifica a inscrição e reduz exigências burocráticas para que grupos locais possam fortalecer suas iniciativas e consolidar seu trabalho.
Segundo Cristina Orpheo, diretora executiva do Fundo Casa Socioambiental, apoiar organizações em seus primeiros passos significa investir na construção de soluções duradouras para os territórios.
“O maior impacto de um primeiro apoio está nas possibilidades que ele cria. Quando fortalecemos organizações comunitárias desde o início, estamos investindo em lideranças, em redes de articulação e em soluções que nascem dos próprios territórios e permanecem ao longo do tempo. Muitas vezes, esse primeiro apoio também gera confiança, reconhecimento e legitimidade para o grupo. Não é raro vermos organizações que, depois de serem apoiadas, conseguem estabelecer novas parcerias com o comércio local, prefeituras e outros atores do território, ampliando sua rede de apoio e sua capacidade de atuação”, afirma.
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Na avaliação de Maryellen Crisóstomo, esse efeito começa muito antes de uma organização alcançar reconhecimento nacional.
“O acesso ao primeiro recurso é um divisor de águas porque também proporciona confiança para a organização, cria um histórico de gestão de recursos e fortalece a dinâmica da vida no território. Os editais contribuem para a autonomia das comunidades, ampliam sua visibilidade e fortalecem sua articulação política e jurídica em defesa dos territórios.”
A trajetória da CONAQ ajuda a demonstrar esse efeito multiplicador e ajuda a materializar o que os dados do FTFG apontam em escala global. Quando recursos conseguem chegar diretamente às organizações comunitárias, elas fortalecem lideranças, ampliam sua capacidade de mobilização e constroem processos que continuam produzindo resultados muitos anos depois.
Para Maryellen, muitas organizações deixam de acessar oportunidades justamente nas etapas iniciais de sua trajetória.
“As ideias que surgem nos territórios já são grandiosas pelo contexto em que estão inseridas. O desafio é que, no início, muitas organizações ainda não têm toda a estrutura exigida por editais tradicionais. Por isso iniciativas com inscrição simplificada e acompanhamento durante a execução do projeto são fundamentais para que consigam acessar o primeiro recurso e fortalecer sua atuação”, pontua.
A expectativa é que histórias como essa possam se repetir por meio da nova chamada.
Em um cenário em que milhares de organizações comunitárias ainda enfrentam dificuldades para acessar financiamento, o desafio não é apenas apoiar projetos consolidados, mas garantir que grupos em seus primeiros passos também tenham oportunidade de crescer.
Porque, muitas vezes, é justamente um primeiro apoio que permite que uma iniciativa local se transforme, anos depois, em uma referência nacional.
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