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Mulheres negras avançam nas universidades em 10 anos, mas seguem mais expostas à violência doméstica

Novo estudo analisa o que mudou e o que permaneceu igual na vida das mulheres negras brasileiras entre 2015 e 2025
Mulher segura cartaz com os dizeres "Parem de nos matar! Respeita a mulher preta!" durante a Marcha das Mulheres Negras, em Brasília, em 25 de novembro de 2025.

Mulher segura cartaz com os dizeres "Parem de nos matar! Respeita a mulher preta!" durante a Marcha das Mulheres Negras, em Brasília, em 25 de novembro de 2025.

— Isabel Looteens/Alma Preta

14 de julho de 2026

A cara das universidades públicas ficou relativamente mais feminina e negra nos últimos dez anos. As mulheres negras saltaram de 15% para 22% do corpo discente entre 2010 e 2022, o que representa um aumento de grande escala: de 1,9 milhão para 5,7 milhões de estudantes.

As informações constam no novo estudo “Da Marcha ao Bem Viver: uma década de avanços, desafios e disputas pelos direitos das mulheres negras no Brasil”.

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Realizado por Oxfam Brasil, Gênero e Número e Observatório da Branquitude, o material reúne análises inéditas construídas a partir de diferentes bases de dados e de um amplo diagnóstico sobre políticas públicas implementadas entre 2015 e 2025 para analisar o que mudou – e o que permanece igual – na vida das mulheres negras brasileiras. O grupo é o maior do país, com mais de 60 milhões de pessoas – 28% da população.

Ainda na esfera da educação, entre o período analisado pelo estudo, os dados mostram que o número de mulheres negras com ensino superior completo cresceu 194%. Esse avanço, no entanto, tem como limite conhecido a pós-graduação, em especial em seus corpos docentes, com departamentos e programas inteiramente brancos.

Mesmo mais escolarizadas, as mulheres negras seguem associadas a carreiras específicas como formação de professores, enfermagem e letras. As áreas de maior prestígio e retorno financeiro, como medicina, direito e engenharia, continuam dominadas por pessoas brancas.

“Certos avanços são inegáveis, mas nenhum deles chegou a desarticular a ideia de que o homem branco é a norma em algumas posições. Isso se nota em vários dos temas que levantamos. No caso do acesso a certas carreiras, mesmo com resultados positivos na comparação com a última década, é possível perceber a força da branquitude na reserva desses mercados”, observa Manuela Thamani, diretora executiva do Observatório da Branquitude.

No ensino básico, a Lei 10.639/03, que estabelece obrigatoriedade de conteúdos sobre história e cultura afro-brasileiras em todas as séries, segue como um avanço formal que não faz parte do dia a dia: metade (53%) das secretarias municipais tratam o tema de forma esporádica, quase sempre restrita a novembro, mês da Consciência Negra.

Exposição à violência, trabalho de cuidado e direitos reprodutivos

Em relação ao direito à vida e à segurança pública, o cenário é de piora significativa, com a violência contra as mulheres negras se aprofundando desde 2015. Os registros de violência doméstica cresceram 145% no período de 2014 a 2024. Entre as mulheres negras, essa alta foi de 185%, contra 92% entre brancas.

Em 2024, o país teve recorde de feminicídios, com 1.492 casos, 63,6% deles contra mulheres negras, a maioria morta dentro de casa por companheiros ou ex-companheiros.

A imposição social do trabalho de cuidado continua sendo um dos maiores desafios para as mulheres negras brasileiras, já que ele sobrecarrega e acaba por limitar simultaneamente o acesso delas a outros direitos, como ao trabalho digno, à educação e à renda.

Entre 2015 e 2024, cresceu 22% o número de mulheres negras que deixaram de procurar emprego por causa do cuidado com a casa e a família. Entre as brancas, houve queda de 9%.

Entre aquelas para quem o trabalho de cuidado é atividade profissional, há um paradoxo: a queda na presença de mulheres negras jovens no trabalho doméstico remunerado foi acompanhada por um crescimento das mais velhas – de 41 até mais de 60 anos – nessas posições.

Se, de um lado, mulheres negras jovens objetivamente se dissociam do trabalho doméstico remunerado – estereótipo persistente na história –, as mais velhas ampliam sua presença nessas funções de maior vulnerabilidade, exigindo atenção redobrada a eventuais questões de saúde, aposentadoria e às condições gerais de vida relacionadas ao ofício.

Marcha das Mulheres Negras, em Brasília, em 25 de novembro de 2025. (Créditos: Eline Cruz/Alma Preta)

Para a Julianne Nestlehner, gerente de programas da Oxfam Brasil , a comparação entre os anos de 2015 e 2025 mostra a atualidade da Carta da Marcha das Mulheres Negras de 2015, documento com reivindicações do movimento entregue à Presidência da República ao final da primeira marcha.

“Grande parte das reivindicações formuladas há uma década permanece necessária, revelando tanto a potência política daquele documento quanto a lentidão das instituições brasileiras em responder às demandas das mulheres negras”, ressalta Julianne.

Leia mais: 2ª Marcha das Mulheres Negras leva mais de 300 mil a Brasília e fortalece organização política por direitos

No campo dos direitos reprodutivos, os dados são particularmente duros: a proporção de mulheres negras entre os óbitos maternos não mudou, permanecendo em 64% do total, tanto em 2015 quanto em 2024. Ao mesmo tempo, as mortes maternas, em geral, tiveram queda de 21%.

No acesso ao aborto, mulheres negras seguem mais presentes nos casos de aborto espontâneo e menos no acesso ao procedimento legal, com aumento das internações por complicações entre jovens negras na década.

Representação política

Na presença em espaços de poder, houve algum avanço, mas o abismo permanece imenso. Mulheres negras são, ao mesmo tempo, o maior grupo populacional do Brasil e aquele com menor presença no Legislativo.

Entre 2018 e 2022, sua fatia entre as mulheres eleitas para o Congresso cresceu de 17% para 31%, mas a taxa de sucesso eleitoral de homens brancos (8,8%) seguiu quase seis vezes maior que a delas (1,5%).

“Os avanços que identificamos ao longo da última década não são fruto do acaso, mas da mobilização e da incidência política das mulheres negras. Da mesma forma, os retrocessos e as desigualdades que persistem também não são inevitáveis: são resultado de escolhas políticas e de estruturas que continuam distribuindo de forma desigual poder, recursos e direitos. Este estudo não olha apenas para o que passou. Ele reúne evidências para orientar os próximos passos e fortalecer uma agenda de reparação, justiça racial e bem viver”, afirma Vitória Régia da Silva, diretora-executiva da Gênero e Número. 

Além de um diagnóstico, a pesquisa reúne um conjunto de recomendações dirigidas ao poder público, à sociedade civil e a organismos internacionais.

Entre as principais estão a ampliação das cotas para mulheres negras em concursos públicos, o reconhecimento do cuidado como trabalho estruturante da economia, a obrigatoriedade do quesito raça/cor nos registros de segurança pública e de justiça, a implementação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra e a adoção do Orçamento Sensível a Gênero e Raça (OSGR) no planejamento de políticas públicas. 

Leia mais: Candidatas negras são alvo de 87% dos ataques de violência política digital nas eleições

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