Bets: como os prejuízos do vício recaem sobre crianças negras

Avanço das apostas on-line pressiona o orçamento de famílias em situação de vulnerabilidade e acende alerta para impactos sobre alimentação, vínculos familiares e direitos de crianças negras na primeira infância
Ilustração de um pai e um filho usando o celular enquanto estão sentados no sofá. Ao fundo há bolas de futebol e um Tigre, em alusão às apostas on-line.

Vicío em apostas on-line, conhecidas como bets, impactam famílias em vulberabilidade, sobretudo as negras.

— Daniel Pereira/Alma Preta

24 de julho de 2026

Quando o dinheiro acaba antes do fim do mês, a perda nem sempre aparece primeiro na conta bancária. Ela pode surgir na mesa com menos alimentos, na consulta médica adiada, no material escolar que fica para depois e no tempo de qualidade que deixa de existir dentro de casa.

Em famílias que vivem com renda limitada, qualquer redução do orçamento pode comprometer direitos básicos de crianças que dependem integralmente dos adultos para crescer e se desenvolver.

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Esse cenário ganhou novos contornos com a expansão das apostas esportivas on-line, conhecidas como bets. Durante a Copa do Mundo de 2026, quando milhões de pessoas pararam para acompanhar os jogos, as plataformas de apostas ocuparam praticamente todos os espaços da transmissão.

As odds (cotações que indicam a probabilidade de um resultado e o valor do possível retorno) apareceram antes mesmo de a bola rolar.

O debate costuma se concentrar no endividamento dos apostadores e na expansão desse mercado. Especialistas ouvidos pela Alma Pretinha, no entanto, chamam atenção para outro aspecto — os impactos indiretos das bets sobre a primeira infância, sobretudo entre crianças negras.

Dados do Banco Central mostram que, em agosto de 2024, cerca de 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família transferiram aproximadamente R$ 3 bilhões para empresas de apostas por meio do Pix.

Esse valor corresponde a cerca de 21% dos R$ 14,12 bilhões pagos pelo programa naquele mês. No mesmo período, as plataformas receberam aproximadamente R$ 20,8 bilhões em transferências.

Os dados, porém, não indicam que os recursos tenham saído diretamente do benefício nem representam a perda líquida dos apostadores, já que parte dos valores retornou na forma de prêmios.

Mais do que colocar em dúvida uma política pública essencial para 19,34 milhões de famílias, segundo dados recentes do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social (MDS), referentes a junho de 2026, os números revelam o alcance das apostas entre famílias que já convivem com restrições orçamentárias.

Para os especialistas, o desafio é compreender esse fenômeno sem criminalizar a pobreza nem responsabilizar exclusivamente quem aposta diante de um mercado impulsionado por publicidade intensa e acesso permanente pelo celular.

Quando falta dinheiro, faltam direitos

Antes de discutir os efeitos das apostas, é preciso compreender o que está em jogo nos primeiros anos de vida. Segundo a gerente de Políticas Públicas da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Karina Fasson, é nesse período que se estabelecem as bases do desenvolvimento humano.

“A primeira infância é a fase da vida que vai até os 6 anos de idade e é o período de maior desenvolvimento humano. Chegam a se formar, nessa etapa, mais de 1 milhão de conexões cerebrais por segundo. É nessa fase da vida, portanto, que se formam as bases do desenvolvimento físico, cognitivo e socioemocional de um indivíduo”, detalha. 

Fasson explica que estudos da economia e da neurociência mostram que investir na primeira infância gera retornos sociais duradouros. Crianças que têm acesso a políticas públicas de qualidade tendem a apresentar melhores indicadores de escolaridade, saúde e renda ao longo da vida, além de menor envolvimento com situações de violência e criminalidade. 

Para que isso aconteça, de acordo com a gerente, é preciso garantir alimentação adequada, acesso à saúde, educação, lazer e proteção contra negligência e violência. Quando parte da renda familiar passa a ser destinada às apostas, esses direitos podem ficar comprometidos.

Fasson afirma que, em famílias que já enfrentam dificuldades para garantir o básico, o impacto das bets não se restringe à quantidade de alimentos disponíveis, mas também à qualidade da alimentação, elemento essencial para o desenvolvimento infantil.

Esse cenário afeta de forma mais intensa crianças negras, já que essa população está sobre-representada entre os grupos de menor renda em razão do racismo estrutural.

Segundo a especialista, com menor margem para absorver perdas financeiras, essas famílias podem ter mais dificuldade para assegurar direitos fundamentais e acessar políticas públicas capazes de interromper a pobreza entre gerações.

Quando o dinheiro some, as consequências permanecem

Os efeitos das apostas não terminam quando uma transferência é concluída. Em famílias que vivem com orçamento apertado, o dinheiro destinado às plataformas pode significar menos recursos para alimentação, transporte, medicamentos e outras despesas essenciais. 

Mas, segundo os especialistas, as perdas vão além do aspecto financeiro e atingem diretamente a dinâmica familiar. Para o pesquisador do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Educação e Economia Social (LEPES/USP) Luiz Guilherme Scorzafave, reduzir o problema ao endividamento significa ignorar impactos que afetam a convivência dentro de casa.

“A destinação de recursos da renda familiar para as apostas on-line tem impactos enormes e que superam apenas a questão econômica envolvida. Elas, muitas vezes, envolvem o rompimento dos laços de confiança dentro da família”, defende.  

Scorzafave, que também é  membro do Núcleo Ciência pela Infância (NCPI), cita como exemplo quem aposta escondido da família e compromete recursos destinados às despesas da casa. 

Segundo o pesquisador, além das perdas econômicas, isso pode desencadear violência física e psicológica no ambiente familiar. “Isso gera perdas econômicas, mas pode gerar também violência física e psicológica dentro do ambiente familiar.”

Para o especialista, quando parte da renda deixa de cumprir sua função original, famílias precisam reorganizar prioridades. E ainda destaca que as crianças negras são particularmente mais afetadas, por serem a maioria nos contextos de maior vulnerabilidade socioeconômica.

“Quando pensamos nos impactos da redução de recursos para alimentação e cuidados básicos de crianças pequenas, ele é extremamente danoso para o desenvolvimento infantil. Pode ser que a criança passe a receber alimentação de pior qualidade (e mais barata), como os ultraprocessados em resposta à queda da renda provocada pelas apostas”, pontua.

Leia mais: Ultraprocessados avançam sobre infância negra e aprofundam desigualdades alimentares

O pesquisador lembra ainda que a maior parte das famílias brasileiras não possui reserva financeira. Por isso, qualquer perda inesperada tende a provocar um efeito em cadeia sobre o orçamento doméstico.

“As bets são um exemplo de como um ‘episódio inesperado’, na verdade, vira uma espiral de dívida: a pessoa aposta (e, em geral, perde), deixa de adquirir o que era preciso para o sustento da casa, muitas vezes pega dinheiro emprestado com agiotas e acaba entrando em uma dívida cada vez maior”, argumenta. 

Esse ciclo afeta principalmente as crianças pequenas, que vivem uma fase decisiva para o desenvolvimento do cérebro e das habilidades cognitivas, sociais e emocionais. Nessa etapa, a redução da renda pode significar menos oportunidades justamente quando os estímulos têm maior impacto ao longo da vida.

Ainda segundo o especialista, a  vulnerabilidade econômica também ajuda a explicar por que as apostas encontram terreno fértil entre parte da população negra. Em um país onde a mobilidade social permanece desigual, a promessa de enriquecimento rápido pode parecer uma possibilidade concreta de romper barreiras históricas.

“Como a mobilidade intergeracional (…) é menor para os negros do que para os brancos, a população negra é tentada a apostar nas bets como um atalho para romper essa imobilidade na sua posição socioeconômica e conseguir ascender socialmente”, reforça. 

Um mercado impulsionado pela publicidade

Ilustração: Daniel Pereira/Alma Preta

O crescimento das bets também está ligado à forma como elas passaram a ocupar espaços do cotidiano. Em transmissões esportivas, redes sociais e campanhas publicitárias, as apostas são frequentemente apresentadas como entretenimento ou oportunidade de renda, muitas vezes com o apoio de atletas, influenciadores digitais e narradores esportivos.

Em 7 de julho de 2026, durante audiência conjunta da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa e da Comissão de Assuntos Sociais do Senado, defensores públicos defenderam regras mais rígidas para a publicidade das plataformas. 

Segundo reportagem publicada pela Agência Brasil na mesma data, representantes da Defensoria Pública da União alertaram que a comunicação das empresas reforça a falsa ideia de enriquecimento rápido e alcança, de forma intensa, públicos socialmente vulneráveis.

Para Scorzafave, a publicidade das plataformas de apostas desempenha um papel central na expansão desse mercado. 

“Os eventos recentes de propaganda de bets durante a transmissão dos jogos da Copa do Mundo exemplificam como as estratégias de marketing são direcionadas a públicos vulneráveis e tentam vender a ideia de que é normal apostar no ambiente digital”, afirma.

Na avaliação do pesquisador, o problema não pode ser tratado apenas como uma decisão individual de quem aposta. Para ele, discutir o avanço das plataformas exige enfrentar também o ambiente criado para estimular esse consumo, especialmente entre grupos mais vulneráveis.

“A solução não é tirar o Bolsa Família destas pessoas, mas regulamentar de modo mais firme as bets.”

 Segundo Scorzafave, esse debate passa por limites à publicidade, proteção ao consumidor e mecanismos capazes de reduzir a exposição de populações historicamente vulnerabilizadas.

Leia mais: MPF apura impactos de apostas online nas populações mais vulneráveis

Quando o estresse dos adultos atravessa a infância

Os impactos das apostas também aparecem em um aspecto menos visível, isto é, na relação entre adultos e crianças. Karina Fasson explica que mães, pais e outros responsáveis precisam estar bem para oferecer um ambiente seguro e estímulos necessários ao desenvolvimento das crianças. 

De acordo com a gerente, conversar, brincar, contar histórias e estabelecer vínculos afetivos fazem parte desse processo e podem ser prejudicados quando o endividamento e a insegurança financeira passam a dominar a rotina familiar.

“Na medida em que esse adulto está endividado, isso pode gerar situações de estresse familiar, o que pode prejudicar o bom vínculo, a boa relação desse cuidador com a criança e, consequentemente, a promoção do seu desenvolvimento”, observa. 

Karina Fasson explica que, em situações mais extremas, o endividamento e a redução dos cuidados podem expor crianças a episódios recorrentes de negligência, aumentando o risco de desenvolvimento do chamado estresse tóxico.

“Quando uma criança é exposta de maneira recorrente, sem apoio, a situações de negligência, isso pode levar a uma condição descrita como estresse tóxico, que prejudica o desenvolvimento neurológico e cerebral dessa criança”, pontua. 

A gerente da FMCSV ressalta que isso não significa que toda família endividada irá negligenciar uma criança. O que as evidências mostram, segundo ela, é que a combinação de perda de renda, ansiedade, conflitos familiares e falta de apoio aumenta os riscos para quem vive a primeira infância.

Na avaliação de Scorzafave, enfrentar esse cenário exige mais do que conter o avanço das apostas. Também é necessário fortalecer as redes de proteção à infância, ampliar o acesso à saúde mental e capacitar profissionais para identificar situações de violência e vulnerabilidade.

Bolsa Família fortalece a proteção da infância

Embora os dados do Banco Central tenham colocado em evidência a relação entre beneficiários do Bolsa Família e as plataformas de apostas, os especialistas são unânimes em afirmar que o programa não deve ser responsabilizado pelo problema.

Fasson destaca que as políticas de transferência de renda têm resultados amplamente documentados na redução da pobreza e na melhoria das condições de vida das famílias. Além da renda, elas ampliam o acesso a serviços públicos essenciais e reforçam a proteção na primeira infância.

Segundo a gestora, o Bolsa Família está associado a condicionalidades como frequência na educação infantil, vacinação e acompanhamento das crianças. Ela lembra que a rede de assistência social também acompanha essas famílias e pode encaminhá-las para outros serviços quando necessário.

Para Scorzafave, a resposta passa por uma combinação de medidas voltadas tanto à regulação das apostas quanto ao fortalecimento das políticas públicas de proteção às famílias e às crianças.

“Entre as medidas que podem ser tomadas estão uma regulação mais forte do mercado de apostas, a ampliação dos serviços de apoio à saúde mental e ações de parentalidade positiva para evitar que crianças sejam vítimas da violência doméstica causada pela perda de renda devido às bets“.

Este conteúdo faz parte de uma parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.

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  • Formado em Jornalismo e licenciado em Letras-Português, morador da periferia de Maceió (AL) e pós-graduado em jornalismo investigativo pelo IDP. Com experiência em revisão, edição, reportagem, primeira infância e jornalismo independente. Tem trabalhos publicados no UOL (TAB, VivaBem, ECOA e UOL Notícias), Agência Pública, Ponte Jornalismo, Estadão e Yahoo.

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