A Turma da Mônica ganhou uma nova integrante no time de protagonistas com revista própria. Pela primeira vez em quase 40 anos, a franquia mais famosa da MSP Estúdios lança uma História em Quadrinhos (HQ) recorrente protagonizado por uma personagem feminina. Milena, menina negra de sete anos, estreia sua revista quinzenal pela Panini em maio de 2026.
O último lançamento desse tipo ocorreu em 1989, com a revista da Magali. Milena é a primeira menina negra a ocupar esse lugar na história da Turma da Mônica.
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“Eu também cresci, assim como tantos brasileiros, com a Turma da Mônica, e para mim é muito simbólico a gente ter uma personagem negra ali entre os protagonistas”, afirmou Giulia Ebohon, coordenadora de conteúdo da MSP Estúdios e uma das roteiristas da primeira edição, em entrevista à Alma Preta.
O lançamento ocorre em meio a uma reformulação das revistas clássicas da empresa fundada por Mauricio de Sousa.
Após alcançarem a edição 100, títulos como “Mônica”, “Cebolinha”, “Cascão”, “Magali”, “Chico Bento” e “Turma da Mônica” tiveram suas numerações reiniciadas. A nova fase aposta em capas reformuladas, traços mais soltos, mudanças gráficas e histórias que buscam diálogo com uma nova geração de leitores.
“A MSP entendeu que essa era uma oportunidade para fazer uma grande mobilização e um reposicionamento da revista”, afirmou.
As mudanças também buscam acompanhar transformações no comportamento infantil e nas formas de consumo das crianças. “A gente acompanha muito as mudanças que acontecem na sociedade”, disse.
Dentro desse movimento, a revista da Milena ocupa um lugar simbólico na história da franquia. A personagem surgiu oficialmente em 2019 e, desde então, consolidou presença no núcleo principal do Bairro do Limoeiro. Agora, passa a conduzir suas próprias narrativas.
Para Giulia Ebohon, o lançamento representa mais do que a chegada de um novo gibi. “Já existe toda uma geração de crianças que conhece a Milena como parte da turma. Então, poder participar ativamente dessa construção me dá muito orgulho”, afirmou.
Giulia também destacou que a personagem já ocupava espaço central antes da revista solo. “A Milena já é protagonista há alguns anos. A questão é que agora ela está protagonizando uma revista solo”, disse.

A trajetória até a HQ própria
A criação da Milena atravessou quase duas décadas de discussões dentro da MSP. Em 2007, Mauricio de Sousa revelou ao jornal O Estado de S. Paulo a ideia de introduzir uma família negra oriunda de Salvador no Bairro do Limoeiro. O projeto reapareceu em entrevistas posteriores e voltou ao debate em 2011, quando foi citado na Câmara Municipal de Salvador.
Anos depois, em 2016, Mônica Sousa conduziu reuniões sobre representação negra com nomes como Alexandra Loras, Monique Evelle, Nátaly Neri e integrantes da Faculdade Zumbi dos Palmares.
A personagem surgiu oficialmente no escopo do projeto Donas da Rua. Sua apresentação pública ocorreu em dezembro de 2017, durante a Corrida Donas da Rua, no Parque Ibirapuera, em São Paulo.
Em 2019, Milena estreou nos quadrinhos em “A Nova Amiguinha”, história escrita por Rafael Calça, um dos autores de “Jeremias – Pele”, quadrinho da linha Graphic MSP e vencedora do Prêmio Jabuti na categoria Histórias em Quadrinhos em 2019.
Antes dela, os personagens negros com maior presença dentro da Turma da Mônica eram Jeremias, Pelezinho e Ronaldinho Gaúcho.
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Da “filha da veterinária” à construção de personalidade própria
Nas primeiras aparições, parte do público identificava Milena mais pela descrição (“filha da veterinária”) do que por sua personalidade. Giulia reconheceu o processo de amadurecimento da personagem.
“A Milena foi amadurecendo à medida que foi entrando em contato com o público”, explicou. “Quando ela surgiu, a personalidade da mãe dela, como veterinária, meio que se expandia para a Milena. E a gente tinha uma preocupação de que ela tivesse uma assinatura própria, independente da profissão da mãe.”
Nesse amadurecimento, Milena deixou de ser definida apenas como apaixonada por animais. A equipe da MSP atribuiu a ela características que se conectam com a Geração Alfa.
“A Geração Alfa é mais rápida, mais acelerada, quer saber o porquê das coisas”, disse Giulia. “Precisava existir alguma característica que gerasse essa conexão imediata com qualquer criança. E a bagunça é algo muito fácil de identificar. A Milena é super bagunceira e ela não tem noção da própria bagunça. Para ela está tudo certo.”
A personagem também é curiosa, ligada no 220, ama dinossauros e adora guardar pequenas coisas.

A personagem e a diversidade negra
Ao assumir o protagonismo, Milena carrega uma expectativa do público. Giulia nega que a personagem tenha a pretensão de falar por toda a população negra.
“Não existe nem essa pretensão. E é impossível também falar em representar uma população tão diversa. A população negra não é homogênea. Então não existe essa expectativa da Milena representar toda uma população negra”, pontuou.
Segundo a roteirista, a equipe buscou criar uma identificação que não limitasse a personagem ao debate racial, mas também não ignorasse a importância da representatividade.
“Nossa expectativa é criar uma personagem que possa se conectar com mais infâncias. A gente tem essa responsabilidade e esse compromisso de retratar crianças. Era importante a gente entender a relevância que é ter personagens que se conectem com todas as crianças, inclusive com garotas negras. Mas jamais ela falaria por toda uma população.”
Giulia explicou ainda que a identificação pode ocorrer por diferentes vias. “Assim como existem garotas negras que se identificam com a Mônica, também existirão garotas negras que vão se identificar com a Milena. Vão existir meninos negros que vão se identificar com a Milena porque ela é super curiosa. A ideia é expandir e permitir que mais crianças se reconheçam nessa personagem.”
Time de autoras negras por trás da HQ
A primeira edição da HQ da Milena reúne um time de autoras negras da MSP, além da escritora Eliana Alves Cruz, autora de “Milena e o Enigma do Pássaro Antigo”, parceria da empresa de Maurício com a Editora Malê, publicada em 2025.
Giulia destacou a importância da presença de mulheres negras nos bastidores. “Não são só pessoas negras que devem falar sobre negritude ou sobre racismo”. enfatizou. “Mas falar através de uma personagem a partir do seu ponto de vista enquanto pessoa negra traz uma camada muito sensível e muito singular, uma visão de mundo muito específica. E muito real também”, prosseguiu.
Ela exemplificou com sua própria experiência. “Eu posso escrever uma história da Milena, como escrevi, que nem é sobre identidade”, comenta. “Mas, ainda assim, parte da minha visão de mundo, e eu sou uma mulher negra. Então isso está presente de alguma maneira na narrativa.”
Um dos pontos mais citados por Giulia ao longo da conversa foi a relação do público infantil com o cabelo da personagem. Segundo ela, o reconhecimento imediato de crianças negras apareceu desde as primeiras reações à Milena.
“Chegam cartas em que as crianças falam: ‘O cabelo dela é igual ao meu’. Essa era uma preocupação nossa também, fazer essa identificação acontecer, principalmente com o black e com o cabelo crespo.”
Giulia também revelou o que escreveria se pudesse produzir uma Graphic MSP da Milena.
“Se eu fosse escrever uma Graphic MSP da Milena, eu escreveria sobre cabelo. Com certeza. Eu, como mulher negra, que tenho toda uma relação com meu cabelo crespo e sei como é difícil, principalmente na infância, lidar com coisas que você nem sabe nomear em relação à própria imagem, preconceito e tudo mais… Certamente faria uma história sobre cabelo e identidade.”
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Roteirista espera que leitoras se divirtam
Questionada sobre o que espera que uma menina negra de sete anos encontre ao abrir a revista da Milena, Giulia resumiu: “Eu primeiro quero que ela se divirta”.
Dentro do campo das possibilidades, a roteirista também deseja que a criança se reconheça e fale: ‘nossa, eu adoro estudar também’, ‘eu adoro dinossauro’, ‘eu também sou meio bagunceiro’.
“Essa identificação é muito importante para ampliar esse universo de possibilidades em relação a quem a gente é e ao que a gente pode ser”, considerou a roteirista.
A coordenadora de conteúdo da MSP espera que essa revista entre na casa de muitas pessoas, e que seja acolhida por muitas crianças, sobretudo pelas crianças negras.
“Que crie novas conversas, identificação e transformação também. Acho que a gente não pode subestimar o poder da arte e da cultura na transformação da sociedade”, compartilhou.
Milena já aparece em outras frentes da MSP, como a série “Milena & Franjinha: Em Busca da Ciência“, além de produtos licenciados e atrações previstas para o Parque da Mônica.
De acordo com Giulia, esse ainda é apenas o início de uma nova fase da personagem. “Muitas coisas vão acontecer”, concluiu.
A revista da Milena chega às bancas em maio de 2026, publicada pela Panini, com periodicidade quinzenal.