A maneira como a sociedade enxerga os primeiros anos de vida impacta diretamente políticas públicas, engajamento das famílias e investimentos sociais. No entanto, os seis primeiros anos de vida, etapa decisiva para o desenvolvimento humano, seguem sendo subestimados pela maioria dos brasileiros.
Segundo o estudo “Panorama da Primeira Infância: O que o Brasil sabe, vive e pensa sobre os primeiros seis anos de vida”, realizado pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal em parceria com o Datafolha, 84% da população não reconhece a primeira infância como fase fundamental para o desenvolvimento. A pesquisa, divulgada em agosto de 2025, ouviu 2.206 pessoas em todo o país.
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O levantamento mostra que 41% dos entrevistados acreditam que o maior pico de desenvolvimento humano acontece na vida adulta e 25% apontam a adolescência. Apenas 15% reconhecem que os primeiros anos são o período mais determinante — quando se formam até 90% das conexões cerebrais que a criança carregará para toda a vida.
O desconhecimento é mais acentuado entre pessoas de menor renda, escolaridade e entre moradores do interior. Para especialistas, essa falta de informação aprofunda desigualdades sociais, já que é justamente nesse período que o cérebro atinge seu ritmo mais intenso de aprendizado, formando cerca de 1 milhão de conexões por segundo.
Outro dado que preocupa é que 42% da população nunca ouviu falar em “primeira infância”, e apenas 2% souberam identificar corretamente a faixa etária de 0 a 6 anos. Entre cuidadores, o índice sobe para 4%, mas segue baixo.
Prioridades familiares e desafios
Quando questionados sobre o que consideram essencial no cuidado com crianças pequenas, amor (43%) e carinho (33%) foram as respostas mais frequentes — números que aumentam entre famílias com filhos de até três anos. Em contrapartida, somente 14% destacaram a frequência em creches e pré-escolas, etapa considerada fundamental para reduzir desigualdades.
Valores culturais também se sobressaem, 96% afirmaram que ensinar respeito aos mais velhos é prioridade, índice superior ao da valorização do brincar (63%) e da presença em creches (81%).

Violência ainda naturalizada
Apesar de avanços na compreensão sobre educação infantil, a violência continua presente no cotidiano de muitas famílias. Um em cada cinco responsáveis admite recorrer a palmadas e beliscões, mesmo entre crianças menores de três anos. Outros 58% utilizam castigos e 43% recorrem a gritos, embora apenas 10% consideram essa prática eficaz.
Para Mariana Luz, CEO da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, a persistência da violência revela um traço cultural que precisa ser superado.
“Quando ouvimos frases como ‘eu apanhei e sobrevivi’, percebemos como a agressão ainda é naturalizada. As crianças não são propriedade dos adultos, mas sujeitos de direitos e prioridade absoluta, como define a Constituição”, afirmou.
O excesso de telas
Outro ponto de atenção revelado pela pesquisa é o tempo de exposição às telas. Crianças de zero a seis anos passam em média de duas a três horas por dia diante de celulares e televisores. Entre as menores de três anos, 78% já têm contato diário com esses dispositivos; entre quatro e seis anos, o índice chega a 84%.
A maioria dos responsáveis reconhece os prejuízos, já que 56% acreditam que o excesso afeta a saúde e 42% apontam impacto negativo na socialização. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda zero telas para menores de dois anos e, a partir dessa idade, no máximo 1 hora por dia, sempre com supervisão adulta.
“É curioso perceber que boa parte dos cuidadores sabe dos riscos — como maior agressividade, sedentarismo e queda no desempenho escolar —, mas ainda assim encontra dificuldade em mudar a rotina”, destacou Mariana Luz.

Mobilização e políticas públicas
Diante do cenário, a Fundação lançou a campanha “A primeira infância é pra vida toda”, com o objetivo de mobilizar famílias, educadores e gestores sobre a importância desse período. A iniciativa reforça que a educação das crianças não é apenas responsabilidade das famílias, mas um compromisso coletivo.
“Não basta culpar os pais. É preciso discutir práticas e costumes que naturalizam a violência e a negligência. Países que reduziram a violência infantil investiram em campanhas nacionais, redes de apoio às famílias e políticas públicas integradas”, lembrou.
A CEO também destacou que investir na primeira infância gera impacto positivo em diversas áreas, como educação, saúde, segurança pública, economia e redução da desigualdade.
“Uma cidade boa para uma criança é uma cidade boa para todos. Espaços acessíveis, transporte seguro, lazer e escolas de qualidade beneficiam a sociedade inteira”, afirmou.

Convite à sociedade
Para Mariana Luz, os dados devem ser vistos como um alerta e um convite à ação. “Se alguém se assustou ao descobrir que 84% da população não entende que o início da vida é o pico do desenvolvimento, é hora de dar o próximo passo e se aprofundar no tema”, disse.
Cada setor da sociedade pode contribuir: famílias, com práticas de parentalidade positiva; gestores públicos, com ampliação de creches, fortalecimento do pré-natal e atendimento pediátrico de qualidade; e educadores, com metodologias que respeitem a singularidade das crianças e incentivem o brincar. “Cuidar da primeira infância é cuidar do Brasil. O que se vive nesse período fica para a vida inteira”, finaliza.
Edição: Nataly Simões
Este conteúdo faz parte de uma parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.
