As mudanças climáticas já obrigaram mais de 4 milhões de pessoas a deixar suas casas no Brasil entre 2013 e 2023, segundo dados do painel da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), que acompanha a evolução de eventos climáticos extremos.
Entre os deslocados, milhares são crianças de até seis anos que enfrentam, além da perda do lar, a ruptura de vínculos familiares, a interrupção do acesso à saúde e à educação e a exposição a traumas psicológicos que podem marcar toda a vida.
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As enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, que desalojaram mais de 580 mil pessoas, evidencia a dimensão do problema. Em um período de sete anos, o afundamento do solo provocado pela exploração de sal-gema pela Braskem em cinco bairros de Maceió (AL) forçou cerca de 60 mil pessoas a deixarem suas casas.
Segundo o working paper “A primeira infância no centro do enfrentamento da crise climática”, publicado em junho de 2025 pelo Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI), os impactos do deslocamento vão muito além da mudança de endereço, afetando profundamente o desenvolvimento físico, emocional e social das crianças pequenas.
O estudo aponta que crianças negras e indígenas são as mais afetadas, já que eventos extremos ampliam desigualdades estruturais presentes desde a gestação até a vida adulta.
A crise climática não cria novas vulnerabilidades, mas intensifica barreiras no acesso a serviços básicos, expondo meninas e meninos negros a maiores riscos de adoecimento, insegurança e traumas duradouros.
O relatório foi produzido por pesquisadoras e especialistas em saúde e infância, incluindo Alicia Matijasevich (USP), Gabriela Dominicci de Melo Casacio, Manuella Fantauzzi Franco e Marcia Castro (Harvard/NCPI).
As autoras destacam que “a experiência traumática da migração forçada compromete o desenvolvimento integral das crianças, afetando desde a saúde física até a construção de vínculos afetivos”.
Impacto do deslocamento forçado na primeira infância negra
Segundo o mestre e doutor pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), André Machado, “o trauma de abandonar o lar traz ansiedade e insegurança, sentimentos que se intensificam em crianças negras, que enfrentam não só a incerteza do futuro, mas também o racismo em abrigos ou filas de ajuda, onde suas famílias são frequentemente ignoradas”.
O especialista explica que a vulnerabilidade física dessas crianças é agravada pela falta de acesso à comida nutritiva e água limpa. Em muitos casos, crianças de comunidades periféricas, já marcadas pela exclusão social, ficam ainda mais suscetíveis à desnutrição e a doenças que podem atrasar o crescimento.
Para Machado, essa combinação de privação física e emocional, aliada a um sistema que marginaliza, “rouba a chance de uma infância plena, minando a confiança e a saúde que deveriam florescer nessa fase”.
Para o pesquisador, compreender esses impactos é essencial para que políticas públicas e ações emergenciais protejam não somente a sobrevivência, como também o desenvolvimento integral dessas crianças, evitando que o trauma do deslocamento se transforme em desigualdade permanente.

Racismo e deslocamento afetam vínculos afetivos de crianças negras
O deslocamento forçado lança crianças pequenas em um cenário de incertezas, onde a falta de comida, abrigo e segurança se mistura ao medo do futuro. Segundo o pesquisador, “esse estresse pode sufocar a mente em formação”, dificultando que crianças construam laços afetivos sólidos.
O impacto é ainda mais intenso para crianças negras, que crescem em contextos marcados pela exclusão social. Quando sistemas de acolhimento falham em oferecer equidade, permitindo que preconceitos influenciam o acesso a recursos, essas crianças enfrentam barreiras adicionais.
Machado explica que a insegurança prolongada “dificulta a formação de vínculos afetivos, essenciais para que a criança perceba o mundo como um lugar confiável”. Sem essa base, regular emoções se torna mais desafiador, e a confiança nos cuidadores pode vacilar, afetando também a aprendizagem.
Mesmo em meio ao caos, o suporte adequado — que reconheça a identidade das crianças e combata desigualdades — pode permitir que elas desenvolvam resiliência, sonhem e cresçam, superando os impactos do racismo estrutural.
Perda da moradia e riscos à saúde infantil
A perda da moradia é outro fator crítico. Para crianças pequenas, especialmente na primeira infância, “perder a casa é como arrancar o chão sob os pés”, observa. O lar funciona como o primeiro refúgio de segurança e identidade, e sua ausência compromete a sensação de proteção e a saúde física.
Entre crianças negras, que já enfrentam exclusão social, os riscos se multiplicam. Sem um teto estável, o acesso a alimentos nutritivos e água potável fica comprometido, elevando a vulnerabilidade à desnutrição e a doenças comuns em abrigos improvisados ou superlotados, como infecções respiratórias.
Segundo Machado, quando o sistema falha em oferecer apoio rápido e equitativo, “essas crianças enfrentam um peso adicional que pode abalar sua confiança no mundo”. A interrupção das redes sociais e comunitárias também compromete o suporte emocional, tornando o ambiente ainda mais hostil ao desenvolvimento saudável.

Políticas públicas antirracistas são essenciais
De acordo com o pesquisador, proteger crianças pequenas em situações de deslocamento forçado exige políticas que vejam a infância negra como “uma força a ser nutrida” e não como um problema.
O estudioso destaca a necessidade de planos de prevenção em comunidades historicamente afetadas por enchentes ou secas, incluindo alertas antecipados e rotas de evacuação seguras, garantindo que ninguém fique para trás.
André Machado ressalta ainda a importância do apoio financeiro imediato para famílias em situação de pobreza sistêmica agravada pelo racismo, permitindo acesso à alimentação, abrigo temporário e cuidados médicos.
Ele enfatiza que a saúde mental também deve receber atenção especial, com equipes capacitadas e sensíveis à cultura afro-brasileira, capazes de ajudar crianças a reconstruir a confiança no mundo.
Para o pesquisador, as Redes de saúde e educação devem se transformar em espaços de igualdade real. Clínicas móveis em abrigos ou áreas de reassentamento podem fornecer vacinas, suplementos nutricionais e apoio psicológico imediato, evitando que crianças vulneráveis sejam excluídas.
Ainda segundo o pesquisador, na educação, mesmo espaços improvisados precisam oferecer atividades que valorizem a diversidade cultural, incluindo práticas afro-brasileiras. Professores treinados para lidar com traumas e sinais de exclusão podem transformar essas salas em verdadeiros refúgios de pertencimento.
Boas práticas de proteção à infância negra
Machado cita exemplos que demonstram como é possível minimizar os impactos do deslocamento forçado. Em São Luís, comunidades afetadas por projetos industriais criaram espaços comunitários voltados para crianças de até seis anos, oferecendo apoio emocional e atividades que resgatam a cultura afro-brasileira, como histórias e danças tradicionais.
Para mitigar os efeitos do deslocamento, o estudo do NCPI recomenda investimentos em infraestrutura resiliente, moradias adaptadas a eventos extremos, tecnologias sustentáveis e apoio psicossocial.
No campo jurídico, ainda é necessário garantir a aplicação de leis existentes, como o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Lei de Migração, diante de emergências climáticas.
“Proteger crianças em contextos de deslocamento é urgente. Sem políticas integradas, a crise climática continuará transformando a infância em uma das principais vítimas de desastres ambientais”, conclui o estudo.
Este conteúdo faz parte de uma parceria com a Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal para a produção de reportagens sobre a primeira infância.
