Família Sankofa compartilha educação afrocêntrica, afeto e inclusão nas redes 

Com mais de 200 mil seguidores, perfil transforma vivências cotidianas em conteúdo que fortalece a infância negra
O casal Rafael Sankofa e Mariana Sankofa junto com as filhas Areta e Amara.

O casal Rafael Sankofa e Mariana Sankofa junto com as filhas Areta e Amara.

— Acervo Pessoal

28 de junho de 2025

“Eu buscava referências sobre como cuidar das minhas filhas e só encontrava homens brancos. Foi então que a Mari disse: ‘Você precisa ser a referência que você não encontrou’.” A partir desse chamado, Rafael Sankofa entendeu que suas vivências, ao lado da companheira Mariana Sankofa, poderiam inspirar outras famílias pretas a educar com afeto, identidade e consciência.

Nascia ali a Família Sankofa, em 2020, projeto que transforma o cotidiano de uma família preta de Santo André, município localizado na Zona Sudeste da Grande São Paulo, em conteúdo educativo, político e afetivo nas redes sociais. Criado por Rafael, educador e pesquisador da psicologia do desenvolvimento infantil, e por Mariana, administradora, o perfil compartilha o dia a dia do casal com as filhas Areta, de sete anos, e Amara, de cinco.

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Com mais de 200 mil seguidores no Instagram, a página se destaca por abordar temas como cultura preta, ancestralidade, inclusão de pessoas com deficiência, educação afrocêntrica e paternidade presente com uma linguagem acessível, sensível e profundamente comprometida com a construção de uma infância negra.

Além de vídeos e reflexões, também produz um podcast, intitulado Sankofa Family, que reforça a missão de espalhar saberes que valorizem a infância preta. As crianças aparecem dançando, lendo, questionando e criando — sempre com autonomia, escuta e respeito.

A iniciativa foi concebida a partir de uma reviravolta na vida do casal. À espera da segunda filha, Rafael deixou o trabalho em uma loja de shopping para assumir o cuidado integral das crianças. 

“No começo foi desesperador. Eu não sabia o que fazer. Não tinha referências. Fui estudar, buscar conteúdos, mas não encontrava ninguém como eu”, conta ele. As primeiras postagens mostravam a rotina familiar e a vivência do cuidado em uma família preta. 

Com o tempo, o conteúdo foi ganhando profundidade, atravessado pelos estudos de Rafael sobre psicologia do desenvolvimento infantil, educação e identidade negra.

Afrocentricidade como prática cotidiana

Durante os estudos, Rafael encontrou as teorias do psicólogo afro-americano Amos Wilson, que o fizeram repensar completamente a forma como estavam educando as filhas. 

“Ele mostra como a primeira infância é decisiva para a formação da identidade. Se a gente não oferece uma educação com referências africanas, estamos só reproduzindo um sistema que nos apagou e continua nos violentando”, defende. 

A partir daí, o casal passou a aplicar no cotidiano princípios da educação afrocêntrica, que coloca os valores civilizatórios africanos no centro da formação moral, afetiva e intelectual da criança. “É sobre educar nossas meninas para que elas saibam quem são, de onde vêm e que podem ter orgulho da sua história”, afirma Rafael.

“A gente não romantiza, mas também não quer repetir narrativas de dor. A gente quer mostrar que criar crianças pretas com dignidade, com alegria e com afeto é possível. E que isso também é resistência”, diz Mariana.

Para Mariana Sankofa, não é possível pensar uma educação verdadeiramente transformadora sem incluir a família no processo formativo. “A gente entendeu que a família é uma parte essencial da educação infantil”, afirma.

Reconhecendo as dificuldades enfrentadas por famílias negras — como a sobrecarga de mães solo e as jornadas exaustivas de trabalho — Mariana acredita que uma educação transformadora se constrói em rede: com pais, cuidadores, vizinhos, aliados e toda a comunidade.

Reconectar com a infância é resgatar saberes ancestrais 

Rafael Sankofa destaca ainda a importância das famílias estarem abertas para aprender com as próprias crianças, rompendo a tradicional hierarquia verticalizada entre adulto e criança. Segundo ele, “o maior conselho que damos para as famílias é que estejam abertas a aprender com essas crianças também, rompendo essa cadeia de hierarquia verticalizada”. 

Para Rafael, é fundamental que os adultos se coloquem numa posição de escuta ativa para se reconectarem com o poder da infância — uma força criativa e desbravadora capaz de abrir novas perspectivas e formas de interação com o mundo.

Ele acredita ainda que, ao longo do desenvolvimento, muitos perdem essa conexão essencial com a infância, e que somente as crianças conseguem trazer essa reconexão “numa perspectiva africana”. 

Para Rafael, a infância na tradição africana representa poder — um poder vitalício que engloba sorriso, alegria, força, disposição e perseverança. Por isso, ele defende a necessidade de resgatar esse poder da infância e superar a visão pejorativa atribuída ao “adulto infantil”. 

Na sua visão, é preciso “ser adultos infantis na perspectiva da infância africana, que é feita de responsabilidade, agência, criatividade e comunidade”. Para finalizar, Rafael reafirma seu conselho: “Olhemos para as nossas crianças e nos potencializemos a partir da infância africana delas.”

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  • Formado em Jornalismo e licenciado em Letras-Português, morador da periferia de Maceió (AL) e pós-graduado em jornalismo investigativo pelo IDP. Com experiência em revisão, edição, reportagem, primeira infância e jornalismo independente. Tem trabalhos publicados no UOL (TAB, VivaBem, ECOA e UOL Notícias), Agência Pública, Ponte Jornalismo, Estadão e Yahoo.

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