Um país, muitas infâncias: documentário expõe o impacto do racismo nas crianças

Documentário "Mosaico de Infâncias" mostra como o racismo atravessa a primeira infância no Brasil e propõe um novo olhar para o cuidado infantil a partir de uma perspectiva antirracista
Imagem mostra um menino negro de costas e sentado em um barco.

Imagem mostra um menino negro de costas e sentado em um barco.

— Fábio Barros/Reprodução/Mosaico de Infâncias/Alma Preta

15 de agosto de 2025

No Brasil, a infância nunca foi singular. Ainda que as narrativas predominantes insistam na universalidade, na prática vemos múltiplas experiências de ser criança e muitas delas são transpassadas pelo racismo.

É a partir dessa premissa que nasce o documentário “Mosaico de Infâncias”, um produto audiovisual que atravessa, com delicadeza e contundência, as camadas raciais e sociais que moldam a primeira infância no país.

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O filme, lançado nesta sexta-feira (15) pela iniciativa Mosaico de Primeira Infância e Equidade Racial e produzido pela Alma Preta, é resultado de uma ampla articulação construída desde 2022 por organizações de defesa dos direitos humanos e da população negra.

Sob direção e coordenação editorial de Vinicius Martins, e com roteiro de Aline Oliveira, o documentário reúne depoimentos de especialistas, lideranças comunitárias, pesquisadoras e ativistas que atuam na interseção entre educação, direitos das crianças e justiça racial.

O primeiro contato com o racismo 

Ao longo da obra, o documentário rompe com o mito da “pureza infantil” e destaca que o racismo é experienciado desde os primeiros anos de vida, desconstruindo a ideia de que a primeira infância seria um território isento das violências estruturais que acometem pessoas negras, indígenas, quilombolas e periféricas.

“O trabalho do Mosaico é afirmar que não existe primeira infância no singular, existem primeiras infâncias no plural. Precisamos considerar essa diversidade de experiências quando falamos da primeira infância. Ao desconsiderar isso, o campo da primeira infância reforça o racismo, pois não vê a especificidade e o contexto desses múltiplos grupos de crianças, de múltiplas comunidades. E isso implica no não reconhecimento dessa diversidade e em práticas discriminatórias”, diz Jaqueline Lima Santos, antropóloga e pesquisadora, em trecho do filme.

Novos caminhos

Para além da denúncia, o documentário atua como proposição. Ao reunir pesquisadoras, lideranças, ativistas e instituições comprometidas com a justiça racial, o “Mosaico de Infâncias” desenvolve uma nova forma de pensar a infância, que parte do território, da ancestralidade e da oralidade. 

“Território, se considerarmos as cosmogonias dos povos nativos do Brasil e africanos, é uma palavra que remete ao nosso lugar, nossos espaços e nossas referências. O corpo é território. É o conjunto de significados aos quais nos sentimos pertencentes. Pensando em uma criança, qual é o território de onde ela vem ou onde vive? Ignorar isso é olhar para esse corpo tentando compreendê-lo a partir de referências de outro território, outro lugar, outros significados”, aponta Clélia Prestes, coordenadora no AMMA Psique e Negritude, no filme. 

Como apontam especialistas ouvidos no documentário, a produção de conhecimento sobre o desenvolvimento infantil no Brasil ainda é, majoritariamente, pautada por paradigmas europeus e pelo olhar sobre a criança branca de classe média. No campo da ciência, essa hegemonia se traduz em invisibilidade. No campo da prática, em exclusão.

Defesa da infância

Produzido com o apoio da Porticus, o documentário é uma das ações que integram o projeto Mosaico, que reúne movimentos em defesa da infância.

Entre proposições e ações, o Mosaico atua também na produção de conhecimento, formação de lideranças, participação em audiências públicas, proposições legislativas e no fortalecimento da presença negra em debates institucionais sobre o tema.

Participaram da construção do documentário as seguintes organizações: Able Digital, Ação Educativa, AFRO – Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial, AMMA Psique e Negritude, CDINN – Coletivo de Intelectuais Negras e Negros, CECIP – Centro de Criação de Imagem Popular, CEERT -Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades ,  Geledés – Instituto da Mulher Negra, Plan International, Porticus, Promundo e Redes da Maré.

FICHA TÉCNICA:

REALIZAÇÃO

Alma Preta

DIREÇÃO

Direção e Coordenação Editorial: Vinicius Martins

Roteiro e Pesquisa: Aline Oliveira

Coordenação Geral: Carol Moreno

Direção de Fotografia: Patrick Silva (SP, RJ), Fabio Barros (MA)

Apoio Jornalístico: Camila Viana

PRODUÇÃO EXECUTIVA

Produção Executiva: Elaine Silva e Victor Oliveira

Coordenação de Produção: Carol Moreno

Produção de campo (MA): Camila Viana 

EQUIPE ADMINISTRATIVA E FINANCEIRA

Coordenação Financeira – Contas a pagar: Grazielle Silva

Coordenação Financeira – Contas a receber: Carla Pacheco

Assistente Administrativo: Regina Marta

Assistente administrativo e departamento pessoal: Bianca Silva

EQUIPE DE IMAGEM

São Paulo e Rio de Janeiro

Operador de Câmera 1: Patrick Silva

Operador de Câmera 2: Vinicius Martins

Assistente de Câmera e estúdio: Nicollas Duarte

Maranhão

Operador de Câmera 1 e 2: Fábio Barros

Assistente de Câmera: Vitoria Avelino Muniz

EDIÇÃO E FINALIZAÇÃO

Montagem e finalização: Richner Allan

Legendas: Aline Oliveira

IDENTIDADE VISUAL E COMUNICAÇÃO

Design Gráfico: Leonardo Gouveia

ENTREVISTADOS 

Ednéia Gonçalves, Matheus Gato, Clélia Prestes, Carolina Telles, Valter Silverio, Jaqueline Lima Santos, Suelaine Carneiro, Tatiane Cosentino Rodrigues, Luis Felipe Serrao, Douglas Calixto, Ana Paula Maia, Raimundo Torres, Carlos Marra, Tábata Lugão.

AGRADECIMENTOS

Museu das Favelas
Centro de Artes da Maré
Areninha Cultural Hebert Vianna
Redes da Maré
Ação Educativa

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  • Verônica Serpa

    Formada em Jornalismo pela UNESP e caiçara do litoral norte de SP. Acredito na comunicação como forma de emancipação para populações tradicionais e marginalizadas. Apaixonada por fotografia, gastronomia e hip-hop.

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