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Agricultura e soberania alimentar são temas que aproximam Brasil e RD Congo, afirma embaixador

Roberto Parente, embaixador do Brasil na República Democrática do Congo, afirma que busca uma relação diferente dos países europeus e do Norte global, sem intenções “colonialistas”.
Roberto Parente, embaixador do Brasil na República Democrática do Congo.

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado.

— Roberto Parente, embaixador do Brasil na República Democrática do Congo.

21 de setembro de 2025

“O Brasil não pode fazer nada pelo Congo, mas pode fazer tudo com o Congo”. A frase sintetiza o que pensa Roberto Parente, embaixador brasileiro desde 2022 em Kinshasa, capital da República Democrática do Congo.

Parente reforça a ideia de que o Brasil precisa de uma postura diferente no continente africano das nações europeias e norte-americanas e reafirma a importância da soberania congolesa. 

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“‘Com’ eles, eu acho que a gente pode fazer tudo, porque são eles que vão mudar a realidade local. O Brasil não vem aqui jogar dinheiro ou doar coisas. Não queremos simplesmente vender nossos tratores ou vender máquinas. Não é isso”, explica. 

Um dos principais problemas enfrentados pelo congoleses é a soberania alimentar. Segundo dados das Nações Unidas, em 2025, 27 milhões de pessoas (um quarto da população congolesa) enfrentarão severa insegurança alimentar. 

A situação do país piorou com a guerra vivida na parte leste, seja por conta da interrupção do trabalho agrícola, seja por conta do aumento dos preços. Desde 27 de janeiro, a cidade de Goma, capital do Kivu do Norte, está tomada pelos rebeldes do M23, grupo armado apoiado por Ruanda.

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“O nosso foco principal hoje, eu acho que é em termos de agricultura”, é o que diz o embaixador brasileiro em Kinshasa.

No dia 23 de maio, o governo brasileiro recebeu ministros e secretários da agricultura de diversos países africanos no “II Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, Combate à Fome e Desenvolvimento Rural”. No evento, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) apresentou “possibilidades e estratégias para garantir soberania alimentar” para as nações convidadas. 

Participantes do “II Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, Combate à Fome e Desenvolvimento Rural”, em maio de 2025, em Brasília. Foto: José Cruz/Agência Brasil.

O encontro reuniu representantes de 44 países, inclusive da República Democrática do Congo.  O governo de Kinshasa ficou empolgado com as possibilidades de fortalecer relações com o Brasil e admirado com a infraestrutura brasileira para a produção de alimentos.

Relações comerciais entre os dois países

Na prática, ainda não houve nenhuma aproximação comercial adicional após o evento de maio. Mas Parente afirma que o comércio entre o Brasil e a RDC já é intenso. “Ele é muito maior do que qualquer país da parte oriental da África”, comparou o embaixador.

Em 2024, o Brasil comprou cerca de US$ 68 milhões dos congoleses, grande parte em petróleo. A cifra em 2024 foi bem acima dos valores de 2023 e 2022, quando o Brasil realizou compras no total de US$ 8,5 milhões e US$ 9,3 milhões, respectivamente. Nesses anos, as importações mais significativas foram de minérios, como o cobalto.

Os congoleses compram mais do Brasil: em 2024, o montante chegou a  US$ 191 milhões, muito próximo do valor registrado no ano anterior, de US$ 192 milhões. Em 2022, o valor foi de US$ 159 milhões. Os dados apontam que, nos últimos três anos, as principais vendas brasileiras foram de carnes e outros alimentos, como milho, açúcar e seus derivados.

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A RDC também compra uma cesta mais variada de produtos do que a que vende ao Brasil. Enquanto as exportações para o Brasil incluem de cinco a dez produtos por ano, as importações da RDC incluem quase quatrocentos itens diferentes.

“Os primeiros itens são sempre alimentos, como açúcar, todo tipo de carne, arroz, esses são os primeiros produtos. E, em alguns anos, a nossa compra, por exemplo, de minerais aqui, sobretudo cobre, produtos que vêm do cobre e os derivados”, afirmou Parente.

Agricultora em Boma, na República Democrática do Congo. Foto: Pedro Borges/Alma Preta.

Como efeito de comparação com Ruanda, país que vive o conflito com a RDC e está na parte oriental da África, o Brasil comprou US$ 165 mil em produtos de Ruanda, e vendeu para o país africano em produtos a quantia de US$ 2,8 milhões em 2024.

Para fins de comparação: a África do Sul, que é membro dos BRICS, tem uma balança comercial mais robusta com o Brasil. Em 2024, o Brasil comprou dos sul-africanos em produtos uma quantia de US$ 657 milhões, e vendeu para eles US$ 1,3 bilhão.

O histórico das relações entre Brasil e RD Congo

As relações diplomáticas entre os dois países começaram no ano de 1968 e a embaixada brasileira foi instalada em Kinshasa em 1972, ainda durante o regime militar, quando houve uma aproximação com o presidente do então Zaire, Joseph Mobutu.

Esse foi um período de uma investida dos militares para expandir a presença brasileira na África, com a venda de armamentos, produtos agrícolas e maquinários.

A embaixada foi fechada em 1997, com a Primeira Guerra do Congo e a chegada de Laurent Kabila ao poder. O Brasil vai retomar a representação no país em 2004, com o fim da Segunda Guerra do Congo — já com Lula na presidência da República.

Nos dois primeiros mandatos do petista, o Brasil fez movimentos mais agressivos para o continente africano, com a abertura de embaixadas e a investida de empresários brasileiros na região. 

Naquele momento, com o apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), empreiteiras como a Odebrecht investiram pesado em infraestrutura em diversos países africanos, principalmente os de língua portuguesa, como Angola e Moçambique. A RDC, francófona e vivendo uma instabilidade política, foi preterida. 

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante reunião bilateral com o Presidente da República Democrática do Congo, Félix Tshisekedi, em agosto de 2023. Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República.

A realidade brasileira hoje, contudo, é diferente. A Operação Lava Jato, a perda de capital das empreiteiras brasileiras e as relações de força na política nacional contemporânea dificultam ações mais contundentes.

“Nós estamos em uma situação nova. O Brasil tem problemas internos e, obviamente, tem também dificuldades de coesão para a atuação externa. E, ao mesmo tempo, muitas das nossas empresas, do nosso braço para o exterior, deixaram de existir. Empreiteiras, por exemplo, tudo isso passou por reformulação”, explica Parente.

Guerra no leste da RDC e o Brasil na Monusco

O Brasil olha com “preocupação” para o que acontece no leste da República Democrática do Congo. Desde o início dos conflitos com a tomada de Goma, 7 mil pessoas foram mortas, segundo dados divulgados em 24 de fevereiro. Nenhuma atualização foi feita desde então.

A postura adotada pelo governo brasileiro é a de atuar pelos organismos multilaterais, com a presença de militares na Missão de Paz da ONU, a Monusco.

“O Brasil participa dessa missão da ONU aqui com o comando da Força Militar. O comandante da Força Militar da missão das Nações Unidas na RDC é um brasileiro, o general Ulisses Gomes”, conta Parente.

General Ulisses de Mesquita Gomes, comandante da missão das Nações Unidas na RDC. Foto: Jardim Jotham Pituwa/Monusco.

Ulisses de Mesquita Gomes é o sexto general brasileiro a assumir essa responsabilidade. A experiência brasileira em treinamento militar na selva, por conta da floresta amazônica, é tida como uma referência para treinar soldados da Monusco e do exército congolês. 

O embaixador brasileiro em Kinshasa mantém diálogo diário com o general Ulisses Gomes e os demais militares brasileiros. Por conta da tomada dos rebeldes da cidade de Goma, a missão de paz e o general ficam atualmente na cidade de Beni, na província do Kivu do Norte.

A ausência de posicionamento de Lula

Apesar dos esforços e dos desejos da diplomacia brasileira, desde o início da guerra não houve posicionamento do presidente Lula sobre o conflito. 

O líder brasileiro tem sido um ator político com falas consistentes sobre o genocídio cometido por Israel na Faixa de Gaza. Ele também participa de discussões sobre a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, com aparições públicas ao lado do presidente russo, Vladimir Putin.

Figura conhecida no Sul global e no continente africano, Lula é assunto na conversa com os congoleses, que costumam perguntar sobre o “senhor Lula da Silva”.

“Qualquer posicionamento do presidente brasileiro é importante. Todo posicionamento. Agora, como eu mencionei antes, o Brasil atua muito aqui por meio dos mecanismos multilaterais”, pondera Parente.

Ataque à embaixada brasileira

No dia 28 de janeiro, depois da tomada da cidade de Goma, grandes manifestações tomaram a cidade de Kinshasa. 

Naquele momento, congoleses atacaram diferentes embaixadas, como uma forma de protesto. Para eles, as diversas nações do mundo não foram solidárias e não evitaram o ataque ao país e à cidade de Goma.

As embaixadas de Ruanda, Bélgica, França e Estados Unidos foram alvos dos congoleses. Durante os protestos, os manifestantes também levaram a bandeira brasileira.

A embaixada brasileira fica na principal avenida da cidade, o Boulevard 30 de Junho, e a bandeira do país fica na esquina, exposta ao lado da bandeira da Libéria, que pode ser confundida com a bandeira dos Estados Unidos.

Na época, o Itamaraty emitiu um comunicado confirmando o ataque e reiterando o compromisso dos países anfitriões de garantir a segurança das embaixadas.

Parente, contudo, estava no dia da manifestação dos congoleses e interpreta que não houve um ataque ao Brasil. Para ele, aconteceu uma “revolta completa”, que pegou tudo o que se viu no caminho.

“Nunca foi direcionado ao Brasil, e eu acho que nunca vai ser. Foi simplesmente o roubo da bandeira por ocasião. Passaram na rua, levaram e foram embora. Na verdade, seguiram pela avenida aqui até a embaixada da França. Lá houve, sim, mais problemas, mais ataques. E o ataque ali foi direcionado, porque existe um entendimento bastante distinto do que é o Brasil e da relação com outros países, como a França e os Estados Unidos, por exemplo”, conta.

Recepção de congoleses pelo Brasil

A crise política vivida pela RDC também gera impactos no número de deslocados internos e refugiados. De acordo com a ONU, os deslocados internos são 7 milhões de pessoas e, somente nos últimos três anos, 1,3 milhão de congoleses vivem como refugiados em Ruanda, Burundi e Uganda.

Esses dados se refletem no fluxo de congoleses ao Brasil. Entre 2010 e 2024, 1.117 congoleses da RD Congo foram registrados no Brasil. Os dados são oficiais do Sistema de Registro Nacional Migratório (Sismigra).

Outras nações, que vivem graves crises humanitárias, como Ucrânia, Haiti, Síria, Afeganistão e Venezuela, têm caminhos facilitados para ingressar no Brasil, o que ainda não acontece para os congoleses.

Parente acredita que o visto humanitário, contudo, não resolve de maneira isolada o problema, que é necessário pensar em políticas de acolhimento e inserção na sociedade.

“O que nós podemos oferecer no Brasil? Porque não basta apenas botar uma pessoa num voo e dar um passe livre para ela. Nós já tivemos casos no Brasil de vistos humanitários em que as pessoas, depois de um tempo, foram embora para outros lugares”, pondera.

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  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

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