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Análise: Ruanda e EUA são os vitoriosos do acordo de paz com a RD Congo

A República Democrática do Congo não alcança seus principais objetivos, que era o compromisso compartilhado de enfrentar o M23 e a retirada imediata das tropas de Ruanda do seu território.
Mandel Ngan/AFP

Ministro de Relações Exteriores de Uganda, Olivier Nduhungirehe, fala em direção do Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio.

— Mandel Ngan/AFP

30 de junho de 2025

Ruanda e os Estados Unidos foram os grandes beneficiados pelo acordo de paz assinado com a República Democrática do Congo (RDC) na última-sexta-feira (27) em Washington. A vitória de ambos acontece nas dimensões diplomáticas e comerciais, mantém a RDC vulnerável e institucionaliza parte da extração mineral que antes era ilegal.

No âmbito das relações exteriores, Ruanda estava sendo pressionada na comunidade internacional. O país cortou relações diplomáticas com a Bélgica, e a União Europeia já discutia possíveis sanções.

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A assinatura de um acordo de paz, mesmo que cheio de falhas, limpa a imagem de Ruanda e a protege de cobranças da comunidade internacional, principalmente por parte dos europeus e dos estadunidenses.

Os congoleses, por outro lado, ficaram sem uma retomada imediata do controle das suas principais cidades no leste do país. Também não conseguiram enfraquecer o M23, a principal milícia de oposição ao governo. 

Além do reposicionamento diplomático, Ruanda conseguiu um acordo de cooperação para que os militares congoleses combatam juntos as Forças Democráticas para Libertação de Ruanda, a FDLR. 

Essa milícia tem relação com o genocídio de Ruanda de 1994 e está presente na região de fronteira leste na RDC. Contudo, ela está desmobilizada, pouco aparece no noticiário e tem uma capacidade militar questionável, sobretudo diante do exército de Ruanda.

Expectativas dos congoleses

As conversas que antecederam o acordo de paz aconteciam desde abril e geraram expectativas para os congoleses ouvidos pela Alma Preta.

Como repórter, visitei o campo de refugiados na cidade de Kalemie, na província de Tanganyika, para onde 1.627 famílias fugiram. Elas são oriundas, principalmente, de Goma e Bukavu, as duas principais cidades conquistadas. Lá, muitas pessoas aguardavam pela possibilidade de retornar às suas casas com segurança após o acordo.

Mas, infelizmente, o tratado não é uma garantia de segurança para uma volta imediata dessas pessoas. A decisão tomada em Washington dá um período de 90 dias para o exército de Ruanda retirar as suas tropas da região. 

Vale a pena recordar aqui, que até então, Ruanda negava a presença de militares no leste da RDC. O país comandado por Paul Kagame conseguiu fazer um malabarismo político: negar participação na guerra e sentar para discutir um acordo de paz.

Os congoleses ouvidos pela reportagem da Alma Preta ainda afirmaram que a paz só será estabelecida com a saída do M23, grupo armado apoiado por Ruanda na região.

Mais um acordo de paz está previsto para ser feito em breve, com a mediação do Catar. Ruanda não participará de maneira direta nessas negociações.

É importante lembrar que são esses rebeldes os responsáveis por saquear os minerais congoleses e levar para Ruanda, que faz a sua venda no mercado internacional.

Logo, o debate entre o M23 e a RDC acontecerá como os ruandeses gostariam, ou seja, como um problema de ordem nacional congolesa.

Sem o apoiador principal do M23, fica difícil acreditar na efetividade desse possível acordo de paz.

Legalização do comércio ilegal de Ruanda

O acordo de paz ainda fere a liberdade comercial da RD Congo. O processo institucionaliza aquilo que já ocorre de maneira ilegal, que é a venda de minerais congoleses para Ruanda. O país, então, os processa e os vende com valor agregado a uma preço mais alto no mercado internacional. 

E se os congoleses optarem por processar seu próprio minério e não venderem para Ruanda?

Além desse empecilho, sabe-se que Ruanda não é o único país que apoia grupos armados que pilham os recursos minerais naquela região.

As discussões ignoraram Uganda, por exemplo, que é um ator importante nesse cenário geopolítico ao leste da RDC.

A vitória colateral dos EUA

Os EUA também ganham comercialmente e diplomaticamente com o acordo. Primeiramente, porque ele prevê o acesso privilegiado dos estadunidenses aos minerais congoleses, como o cobalto e o coltran. Os dois minerais são cobiçados pelos setores de tecnologia, com destaque para as empresas desenvolvedoras de baterias elétricas de carros. Essa foi a garantia exigida para atrair indústrias de tecnologia para o território congolês. 

Essa medida foi estratégica para mitigar o atraso dos norte-americanos em relação aos chineses, que já têm o controle de muitas indústrias de mineração no leste e no sul da RDC.

Nesse contexto, é importante lembrar que, no início deste ano, a RDC chegou a apresentar uma queixa crime contra a Apple, por supostamente utilizar minérios ilegais da RDC no desenvolvimento dos seus produtos. A empresa estadunidense negou as acusações e afirmou ter suspendido as compras de minerais tanto da RDC quanto de Ruanda.

Os ganhos diplomáticos se referem ao fato de o governo de Trump não ter se mostrado efetivo em resolver o conflito entre Rússia e Ucrânia, nem em pressionar o cessar-fogo de Israel na Faixa de Gaza. Encerrar um conflito que se arrasta há 30 anos seria uma grande vitória dos estudunidenses como mediadores. Resta esperar se a paz realmente será restabelecida.

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  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

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