O “tambor falante” Djidji Ayokew, saqueado por tropas francesas em 1916, retornou à Costa do Marfim nesta sexta-feira (13). A devolução marca mais um capítulo no processo de repatriação de artefatos africanos retirados durante o período colonial.
A devolução oficial do artefato foi formalizada por Paris em 20 de fevereiro. O retorno foi aprovado pelo Parlamento francês após a votação de uma lei específica que autorizou a retirada do objeto das coleções do museu nacional francês. A medida integra um processo de restituição de objetos a países africanos iniciado em 2017.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
O objeto chegou a Abidjan, principal cidade do país, a bordo de um avião fretado especialmente para a ocasião e foi transportado dentro de uma grande caixa de madeira com a inscrição “frágil”.
A ministra da Cultura da Costa do Marfim, Françoise Remarck, classificou o momento como histórico e destacou a emoção da recepção no aeroporto. No local, o objeto foi recebido por integrantes da comunidade Ébrié que celebraram o retorno com cantos e batidas de tambor.
O artefato será exibido no Museu das Civilizações, em Abidjan, recentemente renovado.
Símbolo cultural e sagrado
O tambor de madeira tem mais de três metros de comprimento e pesa cerca de 430 quilos. Tradicionalmente, era utilizado pela comunidade Ébrié para transmitir mensagens, alertar sobre perigos, mobilizar moradores para conflitos ou convocar a população para cerimônias.
O chefe da aldeia Ébrié, Aboussou Guy Georges Mobio, afirmou que o retorno representa um momento de memória para a comunidade. “Estamos felizes e aliviados em saber que esta peça sagrada da nossa cultura está de volta à sua terra natal”, disse à agência francesa AFP.
Apreendida em 1916, a peça foi enviada à França em 1929 e posteriormente exibida em Paris. Somente no final de 2018 a Costa do Marfim solicitou oficialmente a devolução do Djidji Ayokew, juntamente com outras 148 obras de arte saqueadas durante o período colonial. Senegal e Benin também pediram a repatriação de seus tesouros culturais.
Em 2020, o Parlamento francês aprovou uma lei que prevê a devolução permanente ao Benin de 26 artefatos dos tesouros reais de Daomé.
Museus, instituições e colecionadores na Europa e nos Estados Unidos têm sido pressionados a devolver esses patrimônios, em meio ao avanço dos processos de restituição de artefatos culturais retirados de antigas colônias.
O Djidji Ayokew é um dos centenas de objetos que a França prepara para enviar de volta ao continente africano. A previsão é que o processo seja acelerado com a aprovação de uma nova legislação que autoriza repatriações em maior escala.
Com informações da Agence France-Presse (AFP).