Equipes da Cruz Vermelha se preparam para cumprir uma missão delicada: sepultar um jovem morto pelo ebola, na segunda-feira, 1º de junho. O funeral seria em Bunia, cidade localizada a 1.785 quilômetros de Kinshasa, capital da República Democrática do Congo.
Vestindo luvas, óculos de proteção e macacões especiais para evitar qualquer contaminação, os socorristas trabalham sob o olhar de uma multidão que acompanha o procedimento. De repente, um murmúrio começa a se espalhar: “O caixão está vazio. Precisamos abri-lo para verificar se o corpo realmente está lá dentro.”
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Os agentes da Cruz Vermelha responsáveis pelo enterro se opõem. A multidão se enfurece e decide abrir o caixão mesmo assim. A tensão aumenta rapidamente, e algumas pessoas começam a agredir os integrantes da organização. Feridas, as equipes são obrigadas a deixar o local, abandonando o caixão para trás.
A cena ilustra o aumento das tensões entre os profissionais de saúde e parte da população no leste da República Democrática do Congo. Desde que a epidemia de ebola foi declarada nessa região do país, em maio deste ano, os atos de desconfiança em relação aos profissionais da saúde vêm se multiplicando. Moradores revoltados não hesitam em atacar fisicamente aqueles que estão na linha de frente do combate à doença.
Apesar das tensões, o Ministério da Saúde da República Democrática do Congo anunciou, nos últimos dias, novos casos de recuperação. Em boletim divulgado em 15 de julho, o governo contabilizava 2.011 casos confirmados desde o início da epidemia, com 754mortes e 366 pessoas curadas. Até o momento, não existe nenhuma vacina nem tratamento aprovado contra a variante Bundibugyo do ebola.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o vírus pode ser transmitido pelo contato direto com sangue ou fluidos corporais (como sangue, fezes e vômito) de um animal ou de uma pessoa infectada.
Os corpos das vítimas da doença são especialmente contagiosos e precisam ser sepultados seguindo um protocolo rigoroso, para evitar novos casos de contaminação.

‘Nossa cultura foi profundamente abalada’
Algumas pessoas choram enquanto observam à distância integrantes da Cruz Vermelha carregando um saco branco com mais uma vítima do ebola, no dia 12 de junho, também em Bunia. Angel N’simire, estudante de Medicina, morreu da doença aos 24 anos. Kethia Kint, amiga de longa data da jovem, fala entre lágrimas: “É muito cruel. Tudo acontece tão rápido que a gente nem tem tempo de assimilar. Em menos de 24 horas, a pessoa já está sendo enterrada.”
Visivelmente abalada, ela explica como é difícil viver o luto nessas condições: “O corpo é colocado dentro de um saco mortuário, e nós nem sequer temos a oportunidade de ver a pessoa pela última vez.”
Uma realidade que contrasta com os costumes locais. Na região, os funerais são acontecimentos de grande importância, reunindo frequentemente centenas de pessoas.
“O enterro ocupa um lugar central em nossa cultura. É preciso tratar os mortos com respeito, porque acreditamos que eles vão se juntar aos ancestrais, que continuam agindo em nosso favor”, explica calmamente Franck Makumbi, de 81 anos, ancião da etnia Lega, um importante grupo na parte leste da RDC.
Segundo ele, reunir a família e a comunidade para acompanhar o sepultamento é um dever ancestral. “O enterro de uma pessoa deve sempre acontecer na presença da família ampliada. Dependendo da posição social do falecido, as cerimônias podem durar até 40 dias, período durante o qual os familiares permanecem reunidos para prestar homenagens e confortar uns aos outros.”
Privados desses rituais, alguns moradores acabam expressando sua revolta atacando as equipes responsáveis pelos sepultamentos.
“As pessoas estão acostumadas a prestar uma última homenagem ao falecido. Elas o beijam, tocam seu corpo. Quando tudo isso passa a ser proibido, a mudança é muito brusca e isso inevitavelmente provoca reações dentro da comunidade”, explica, emocionado, Serge Lemi, integrante da Cruz Vermelha em Bunia.
Desinformação desafia equipes de saúde

Um dos maiores desafios para as equipes responsáveis por realizar sepultamentos dignos e seguros das vítimas é a comunicação com os familiares.
“Em matéria de cultura de enterros, as pessoas podem chegar em horários diferentes. Podemos sensibilizar um grupo e, quando ele sai, outro chega para o mesmo enterro. E como eles não têm a informação, isso complica a situação”, explica Serge Lemi.
Enquanto isso, as redes sociais servem como um terreno fértil para a desinformação. No início da epidemia, em maio, Konde Nande, um influenciador seguido por mais de 180 mil pessoas no TikTok, afirmava que o ebola era uma obra dos Illuminati e fazia apelos públicos ao assassinato de médicos envolvidos no combate à doença. O vídeo rapidamente se tornou viral antes de ser removido da plataforma.
Desde então, boatos continuam a circular na internet, alimentando em parte da população um ressentimento contra as equipes de resposta. “Nós somos demonizados nas redes sociais, as pessoas nos acusam de espalhar o ebola de forma intencional”, explica Dieu Merci Uzele, membro da Cruz Vermelha.
Enquanto a resposta à epidemia se intensifica, a Organização Mundial da Saúde (OMS) anunciou o início de um ensaio clínico com dois tratamentos antivirais contra a variante Bundibugyo. Um avanço que traz esperança na luta contra o ebola.
Edição: Camila Rodrigues da Silva.