A África passou a concentrar, pela primeira vez, o maior número de pessoas em situação de fome no mundo. Segundo o relatório anual sobre segurança alimentar e nutrição das Nações Unidas, divulgado nesta terça-feira (21), cerca de 309 milhões de africanos enfrentaram a fome em 2025, ultrapassando a Ásia, que registrou 292 milhões de pessoas subalimentadas.
O estudo, elaborado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) em parceria com outras quatro agências da ONU, aponta que a fome atingiu 20% da população africana no último ano. Na Ásia, o índice foi de 6%.
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Apesar da mudança no cenário global, o relatório mostra que a fome diminuiu no mundo nos últimos anos. A proporção da população mundial em situação de subalimentação caiu de 8,6% em 2022 para 7,8% em 2025. Em números absolutos, o total passou de 688 milhões para 645 milhões de pessoas, redução de 43 milhões. Ainda assim, o contingente permanece acima dos níveis registrados antes da pandemia de Covid-19.
Durante a apresentação do relatório, o diretor da Divisão de Economia Agroalimentar da FAO, David Laborde, afirmou que o “centro de gravidade da fome” deixou a Ásia e passou para a África.
Segundo ele, essa mudança reflete trajetórias distintas entre as regiões nas últimas décadas.
“Há 25 anos, a China ainda enfrentava um problema de fome, mas conseguiu superá-lo. A Índia também enfrenta esse desafio, mas tem feito muitos esforços para resolvê-lo”, afirmou Laborde à agência de notícias Agence France-Presse (AFP).
Embora a prevalência da subalimentação venha aumentando no continente africano desde 2017, as estimativas mais recentes indicam sinais de melhora em 2025.
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Alimentação saudável segue fora do alcance
Além do avanço da fome, o relatório destaca que o acesso à alimentação saudável continua limitado para grande parte da população africana.
Segundo a ONU, 66,6% dos habitantes do continente não conseguem arcar com o custo de uma dieta considerada saudável. O percentual é mais que o dobro do registrado na Ásia e segue em alta desde 2021, enquanto outras regiões apresentaram redução nesse indicador.
Diante desse cenário, o relatório recomenda que os países africanos ampliem investimentos na transformação da cadeia de alimentos de origem animal, considerada a categoria alimentar de maior custo no continente.
O estudo aponta que a combinação entre conflitos armados e eventos climáticos extremos tem ampliado a insegurança alimentar em diferentes países africanos.
David Laborde citou os conflitos no Sudão e na República Democrática do Congo como exemplos de situações que impedem milhares de pessoas de acessar suas terras e garantir meios de subsistência.
Em maio, a ONU alertou que cerca de 20 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar aguda em razão da guerra no Sudão. No mês seguinte, a organização também advertiu que uma ampliação do conflito no Oriente Médio pode empurrar milhões de pessoas para a fome.
O relatório ainda observa que o aumento dos custos de energia e fertilizantes provocado pelos conflitos internacionais ainda produz impactos limitados sobre a segurança alimentar global, mas ressalta que a crise permanece em curso e exige acompanhamento contínuo.
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