O governo do Egito declarou, nesta quarta-feira (14), que poderá adotar medidas para preservar a unidade e a integridade territorial do Sudão, país vizinho afetado por uma guerra civil iniciada em 2023. A posição foi apresentada pelo ministro das Relações Exteriores egípcio, Badr Abdelatty, durante entrevista coletiva no Cairo, ao lado do enviado especial da Organização das Nações Unidas (ONU) para o Sudão, Ramtane Lamamra.
Segundo o chanceler, o Egito “não ficará de braços cruzados e não hesitará em tomar as medidas necessárias de modo a preservar o Sudão, sua unidade e integridade territorial“.
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Abdelaty estabeleceu limites claros para a posição do Cairo. Ele disse que o Egito “não aceita e não permite, em nenhuma circunstância, o colapso do Sudão, o colapso das instituições nacionais sudanesas ou danos à unidade do Sudão”. Ele classificou esses pontos como “linhas vermelhas” e afirmou que “uma violação da segurança nacional do Sudão é uma violação da segurança nacional do Egito”.
As declarações do ministro refletem o posicionamento do presidente egípcio, Abdel Fattah al-Sisi. Em um encontro no mês passado com o comandante do exército sudanês e líder de facto do país, Abdel Fattah al-Burhan, Sisi também descreveu qualquer ameaça às instituições estatais sudanesas como uma “linha vermelha para o Egito”.
O Egito mantém uma longa fronteira ao sul com o Sudão e é um dos aliados mais próximos do exército sudanesa. Além disso, os dois países possuem um histórico extenso de cooperação militar.
Ambos assinaram um acordo em março de 2021 que cobre treinamento, segurança fronteiriça e esforços conjuntos contra ameaças comuns. Esse pacto se baseia em um acordo de defesa de 1976, concebido para conter perigos externos.
Relação histórica entre Egito e Sudão
A relação entre Egito e Sudão antecede a formação dos Estados nacionais modernos. O território do atual Sudão integrou, na Antiguidade, a região conhecida como Núbia, onde se desenvolveram reinos como Kerma e Kush. O Reino de Kush conquistou autonomia em relação ao Egito no século XI a.C. e manteve diferentes formas de organização até o século IV d.C.
Após o declínio de Kush, formaram-se no território sudanês os reinos cristãos de Nobátia, Makúria e Alódia, que perduraram até aproximadamente o século XV. Entre os séculos XIV e XV, populações árabes se estabeleceram na região, processo que levou à islamização progressiva do Sudão entre os séculos XVI e XIX.
No início do século XIX, o Egito ocupou o território sudanês. Em 1899, foi estabelecido um regime de coadministração entre Egito e Reino Unido, que na prática funcionou como domínio colonial britânico. O Sudão conquistou a independência em 1956, encerrando o chamado condomínio anglo-egípcio.
Desde a independência, o país passou por sucessivos governos militares e longos períodos de conflito interno. Entre 1955 e 2005, o Sudão viveu duas guerras civis relacionadas à dominação política do norte sobre o sul, que resultaram na independência do Sudão do Sul em 2011. O país também enfrenta conflitos armados em regiões como Darfur, Cordofão do Sul e Nilo Azul.
Em 2019, protestos populares levaram à queda do presidente Omar al-Bashir, que governou por 30 anos. Um governo de transição civil-militar foi instaurado, mas em 2021 os militares dissolveram o arranjo e reassumiram o controle do poder. Desde então, o país permanece sob administração militar, em meio à atual guerra civil.