Na quinta-feira (25) autoridades somalis estabeleceram um esquema de segurança reforçada para a realização das primeiras eleições diretas na região de Mogadíscio em quase 60 anos. A votação, adiada três vezes este ano, foi boicotada por líderes da oposição.
Cerca de 10.000 agentes de forças de segurança foram mobilizados e o aeroporto da cidade foi fechado para a eleição, vista como um teste antes do pleito presidencial do próximo ano. Em alguns locais de votação foram registradas longas filas, o que diminuiu no início da tarde, segundo um correspondente da agência francesa AFP.
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Ainda segundo a agência, as autoridades somalis informaram que a votação ocorreu sem incidentes significativos e que os resultados seriam divulgados “em breve”, sem data definida.
Segundo o órgão eleitoral, há mais de 1,6 mil candidatos disputando 390 assentos nos conselhos locais na região sudeste da região administrativa de Banadir, onde fica a capital Mogadíscio. O presidente da Somália, Hassan Sheikh Mohamud, defende a reintrodução das eleições diretas e disse, na quinta-feira (25), que elas eram “o futuro do povo somali”.
O sufrágio universal na Somália foi abolido em 1969, com a chegada de Siad Barre ao poder. Desde a queda de seu governo, em 1991, o sistema político do país passou a girar em torno de uma estrutura de clãs. Desde 2006 o país também enfrenta conflitos armados com combatentes do Al-Shabaab, grupo ligado à Al-Qaeda
Mudança enfrenta resistência e gera tensões
Apesar do esforço, a votação foi boicotada pela coalizão de oposição Futuro Somali, e vários estados federais a rejeitaram, classificando-a como uma tentativa do governo central de concentrar poder em Mogadíscio e estender o mandato presidencial, que termina em 2026. A oposição ameaça realizar uma eleição presidencial paralela no ano que vem caso o governo insista com as eleições locais.
Em setembro, o International Crisis Group (Grupo de Crise Internacional, em tradução livre) publicou um comunicado afirmando que a tentativa do governo de substituir a votação indireta baseada em clãs por eleições diretas “poderia mergulhar o país de volta no caos se os líderes não conseguirem chegar a um acordo”.
“As eleições têm sido uma fonte persistente de tensão na Somália, e o país caminha para mais um episódio de instabilidade eleitoral, a menos que se chegue a um consenso sobre o sistema de votação. O risco não é apenas a recorrência da violência, mas também o agravamento da fragmentação política, assim como danos duradouros ao sistema federal somali”, diz o documento.
Para o grupo, um acordo beneficiaria todos os lados envolvidos: “Um acordo pode ajudar o governo a reparar seus laços com os estados-membros e adversários políticos, permitir que a oposição impeça o governo de estender seu mandato e conter a ameaça de violência.”