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Guerra no Irã pode desencadear crise de custo de vida em países africanos

Estudo da ONU projeta perda de 0,2 ponto percentual no PIB africano em 2026 se a guerra de Washington e Tel-Aviv contra Teerã se prolongar; interrupção no fornecimento de fertilizantes ameaça segurança alimentar durante período de plantio
Um trabalhador pega um item de uma prateleira para um cliente em um supermercado na cidade de Soweto, próxima de Joanesburgo, na África do Sul.

Um trabalhador pega um item de uma prateleira para um cliente em um supermercado na cidade de Soweto, próxima de Joanesburgo, na África do Sul.

— Emmanuel Croset / AFP

6 de abril de 2026

A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã representa um risco para a economia africana, com a maioria dos países ainda crescendo abaixo dos níveis anteriores à pandemia de Covid-19. É o que informa o relatório “Os Impactos do Conflito no Oriente Médio na África”, divulgado na última semana.

Produzido por duas agências da Organização das Nações Unidas (ONU), a União Africana (UA) e o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), o estudo afirma que as economias africanas poderão perder 0,2 pontos percentuais de crescimento do PIB em 2026 se o conflito durar mais de seis meses. 

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O documento alerta que o conflito, já responsável por um choque comercial, pode se transformar rapidamente em uma crise de custo de vida em toda a África. O aumento nos preços de combustíveis e alimentos, a elevação dos custos de frete e seguro, as pressões cambiais e o aperto nas condições fiscais compõem o quadro de riscos.

Para alguns países africanos, a interrupção no fornecimento de fertilizantes pode causar consequências ainda mais graves do que o choque do petróleo. 

A desestabilização no fornecimento de gás natural liquefeito (LNG) do Golfo afetaria a produção de amônia e ureia, elevando os custos dos fertilizantes e restringindo a oferta durante a temporada de plantio de março a maio.

Esse cenário pressionará ainda mais os preços dos alimentos e atingirá com mais força as populações vulneráveis, com impactos negativos significativos sobre a segurança alimentar no continente. 

O Oriente Médio responde por 15,8% das importações da África e 10,9% de suas exportações. O Estreito de Ormuz, controlado pelo Irã, por sua vez, movimenta cerca de 20% das exportações globais de petróleo e quase 90% do petróleo exportado pelo Golfo Pérsico.


Leia mais: Como a guerra na Ucrânia afeta os países africanos?

Ganhos pontuais em alguns países

Embora o conflito gere riscos econômicos generalizados para a África, alguns países podem registrar ganhos de curto prazo com o aumento dos preços de commodities, desvio de comércio e rotas logísticas alternativas. 

A Nigéria pode se beneficiar da alta do petróleo e da expansão das exportações da Refinaria de Dangote. Moçambique pode ganhar com o novo impulso no GNL e com o aumento do tráfego no Porto de Maputo.

O porto de Durban, na África do Sul, a Baía de Walvis, na Namíbia, e Maurício também se beneficiam do desvio de navios pelo Cabo da Boa Esperança, o que impulsiona a atividade portuária, o abastecimento de combustível e os serviços marítimos. 

Na África Oriental, o Quênia emerge como hub logístico por meio do Porto de Lamu e de Nairóbi, enquanto a Etiópia se beneficia de sua posição como ponte aérea de emergência ligando Ásia, África e Europa por meio da Ethiopian Airlines.

Os analistas ressaltam, no entanto, que esses ganhos provavelmente serão desiguais e podem não compensar as pressões inflacionárias, fiscais e de segurança alimentar mais amplas que afetam o continente.

O impacto da guerra varia entre países conforme o grau de dependência de importações. Foto: Ibrahim Amro/AFP

Recomendações de políticas

O documento propõe respostas estruturadas em três horizontes: absorção imediata do choque, apoio à resiliência no médio prazo por instituições de desenvolvimento e ação estrutural de longo prazo por governos e parceiros.

No curto prazo, países africanos podem ativar mecanismos de financiamento de importação de contingência, incluindo aquisição coletiva de combustível e corredores alimentares de emergência, com apoio de instituições financeiras internacionais e regionais. Países exportadores de petróleo e gás devem direcionar receitas excedentes para fundos soberanos ou outras reservas.

No médio prazo, as recomendações incluem o fortalecimento da segurança energética com expansão da capacidade de refino, armazenamento, distribuição e interconexão, além da aceleração da implantação de energias renováveis. A implementação da Zona de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA) deve ser acelerada para fortalecer cadeias de suprimento regionais.

No longo prazo, a União Africana pode liderar o desenvolvimento de um Pacto Continental de Crise e Resiliência, centrado na construção da segurança energética e alimentar, no fortalecimento das redes de segurança financeira e na autonomia comercial e financeira estratégica. 


Leia mais:Gana e União Africana celebram resolução da ONU sobre a escravidão

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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