A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã representa um risco para a economia africana, com a maioria dos países ainda crescendo abaixo dos níveis anteriores à pandemia de Covid-19. É o que informa o relatório “Os Impactos do Conflito no Oriente Médio na África”, divulgado na última semana.
Produzido por duas agências da Organização das Nações Unidas (ONU), a União Africana (UA) e o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), o estudo afirma que as economias africanas poderão perder 0,2 pontos percentuais de crescimento do PIB em 2026 se o conflito durar mais de seis meses.
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O documento alerta que o conflito, já responsável por um choque comercial, pode se transformar rapidamente em uma crise de custo de vida em toda a África. O aumento nos preços de combustíveis e alimentos, a elevação dos custos de frete e seguro, as pressões cambiais e o aperto nas condições fiscais compõem o quadro de riscos.
Para alguns países africanos, a interrupção no fornecimento de fertilizantes pode causar consequências ainda mais graves do que o choque do petróleo.
A desestabilização no fornecimento de gás natural liquefeito (LNG) do Golfo afetaria a produção de amônia e ureia, elevando os custos dos fertilizantes e restringindo a oferta durante a temporada de plantio de março a maio.
Esse cenário pressionará ainda mais os preços dos alimentos e atingirá com mais força as populações vulneráveis, com impactos negativos significativos sobre a segurança alimentar no continente.
O Oriente Médio responde por 15,8% das importações da África e 10,9% de suas exportações. O Estreito de Ormuz, controlado pelo Irã, por sua vez, movimenta cerca de 20% das exportações globais de petróleo e quase 90% do petróleo exportado pelo Golfo Pérsico.
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Ganhos pontuais em alguns países
Embora o conflito gere riscos econômicos generalizados para a África, alguns países podem registrar ganhos de curto prazo com o aumento dos preços de commodities, desvio de comércio e rotas logísticas alternativas.
A Nigéria pode se beneficiar da alta do petróleo e da expansão das exportações da Refinaria de Dangote. Moçambique pode ganhar com o novo impulso no GNL e com o aumento do tráfego no Porto de Maputo.
O porto de Durban, na África do Sul, a Baía de Walvis, na Namíbia, e Maurício também se beneficiam do desvio de navios pelo Cabo da Boa Esperança, o que impulsiona a atividade portuária, o abastecimento de combustível e os serviços marítimos.
Na África Oriental, o Quênia emerge como hub logístico por meio do Porto de Lamu e de Nairóbi, enquanto a Etiópia se beneficia de sua posição como ponte aérea de emergência ligando Ásia, África e Europa por meio da Ethiopian Airlines.
Os analistas ressaltam, no entanto, que esses ganhos provavelmente serão desiguais e podem não compensar as pressões inflacionárias, fiscais e de segurança alimentar mais amplas que afetam o continente.

Recomendações de políticas
O documento propõe respostas estruturadas em três horizontes: absorção imediata do choque, apoio à resiliência no médio prazo por instituições de desenvolvimento e ação estrutural de longo prazo por governos e parceiros.
No curto prazo, países africanos podem ativar mecanismos de financiamento de importação de contingência, incluindo aquisição coletiva de combustível e corredores alimentares de emergência, com apoio de instituições financeiras internacionais e regionais. Países exportadores de petróleo e gás devem direcionar receitas excedentes para fundos soberanos ou outras reservas.
No médio prazo, as recomendações incluem o fortalecimento da segurança energética com expansão da capacidade de refino, armazenamento, distribuição e interconexão, além da aceleração da implantação de energias renováveis. A implementação da Zona de Livre Comércio Continental Africana (AfCFTA) deve ser acelerada para fortalecer cadeias de suprimento regionais.
No longo prazo, a União Africana pode liderar o desenvolvimento de um Pacto Continental de Crise e Resiliência, centrado na construção da segurança energética e alimentar, no fortalecimento das redes de segurança financeira e na autonomia comercial e financeira estratégica.
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