O Museu Nacional do Sudão, em Cartum, foi destruído e saqueado nos primeiros meses da guerra do país. Das 100 mil peças que abrigava desde a década de 1950, quase nada restou no local. Apenas artefatos grandes demais para os saqueadores carregarem, como uma estátua de granito do Faraó Taharqa e afrescos realocados durante a construção da Represa de Aswan, permanecem no museu.
Imagens de satélite mostraram caminhões carregados com relíquias que saíam do museu em direção a Darfur, região que agora está sob controle total das Forças de Apoio Rápido (RSF). As buscas pelas peças desaparecidas, com ajuda da Interpol, tiveram resultados reduzidos.
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Uma unidade arqueológica francesa, com apoio do Museu do Louvre e da Universidade de Durham, do Reino Unido, liderou a criação de um museu virtual. “O museu virtual é a única opção viável para garantir a continuidade”, disse Ikhlass Abdel Latif, funcionária do governo para antiguidades. A plataforma já está disponível para consulta on-line.
A pesquisadora Faiza Drici, que trabalhou mais de um ano no projeto, afirmou que o museu de Cartum era a pedra angular da preservação cultural sudanesa e que o dano foi “astronômico”, mas que a versão virtual permite recriar as coleções perdidas e manter um registro.
Reconstrução digital usou fotos e planos originais
A reconstrução do acervo partiu de fragmentos de listas oficiais, estudos publicados por pesquisadores e fotos de missões de escavação. O designer gráfico Marcel Perrin criou um modelo de computador que reproduz a arquitetura, a iluminação e o arranjo das exposições do museu físico.
A plataforma, no ar desde 1º de janeiro, oferece aos visitantes uma experiência que simula um passeio pelas galerias da instituição. O acervo virtual já exibe mais de mil peças do antigo Reino de Kush, reconstruídas a partir de fotografias e dos planos originais do edifício.
A recriação da famosa “Sala do Ouro”, que abrigava jóias reais, figuras e objetos cerimoniais de ouro maciço, deve ficar pronta apenas no fim de 2026.
Além do valor documental, o catálogo reconstruído pela equipe francesa deve fortalecer os esforços da Interpol para impedir o tráfico do patrimônio saqueado do Sudão. A guerra no país já causou dezenas de milhares de mortes e forçou mais de 11 milhões de pessoas a fugir de suas casas.