A guerra no leste da República Democrática do Congo (RDC) entrou em nova fase de disputa narrativa entre Kinshasa e Kigali após a visita do presidente Félix Tshisekedi ao Capitólio dos Estados Unidos. A reunião com integrantes do Comitê de Relações Exteriores do Senado tratou de minerais estratégicos, acordos comerciais e segurança regional.
Após o encontro, parlamentares divulgaram um comunicado em que cita o grupo armado M23 e cobra retirada de forças ligadas a Ruanda do território congolês. O texto expressa “preocupação com a ocupação contínua de partes do leste do Congo pelo grupo M23, apoiado por Ruanda”.
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A nota aponta a “retirada total das forças ruandesas da região” como condição para uma “paz real e duradoura”. Os senadores também destacaram a parceria bilateral em “minerais críticos” e a importância do Corredor de Lobito, rota logística de exportação que liga áreas de mineração da RDC e da Zâmbia ao porto do Lobito, em Angola, por ferrovia e rodovias.
O comitê fez uma cobrança ao governo congolês. O comunicado diz que a RDC “deve fazer sua parte para desescalar o conflito” com “ação decisiva contra o FDLR e as milícias violentas Wazalendo que prejudicam as comunidades locais”. A declaração também cita a crise humanitária e insegurança alimentar que atinge milhões de pessoas na região.
Após a reunião, Félix Tshisekedi usou o perfil da presidência nas redes sociais para comentar o encontro. Ele escreveu que “os minerais indispensáveis para a transição energética mundial devem ser, para ela [a RDC], um fator de transformação, industrialização e estabilidade — e não uma fonte de conflitos ou de predação”.
O presidente congolês não fez acusações diretas a Ruanda na mensagem pública. Ele descreveu a RDC como um país “na encruzilhada” e defendeu que os recursos minerais levem desenvolvimento ao país.
Ce jeudi 5 février 2026, à l'occasion de la table-ronde économique organisée à Washington par la Chambre américaine de commerce internationale, le Président de la République Félix-Antoine Tshisekedi, a délivré un message clair : « La RDC est prête pour les affaires ». À condition… pic.twitter.com/NFBtrlGkoD
— Présidence RDC 🇨🇩 (@Presidence_RDC) February 6, 2026
Kagame se defende durante em fórum nacional e nas redes sociais
A resposta do presidente ruandês, Paul Kagame, veio em dois momentos. Primeiro, durante o Conselho Nacional Umushyikirano, um fórum de diálogo interno em Ruanda. Kagame questionou publicamente a diretora do conselho de minas do país sobre a origem dos minerais processados.
“Alguns países estrangeiros gostariam de ver os minerais da RDC passarem por Ruanda sem processamento”, disse Kagame no fórum. Ele argumentou que processar recursos minerais que entram no país é um direito soberano.
Em um segundo momento, Kagame usou o perfil oficial da presidência de Ruanda nas redes sociais nesta sexta-feira (6) para um posicionamento direto sobre a questão de segurança. Ele afirmou que as acusações sobre minerais servem para desviar a atenção do que chamou de “verdadeiro problema”: a presença da milícia Interahamwe (FDLR) no leste da RDC.
“They claim we are in Congo looking for minerals. That this is what causes our problems with Congo. They say our country, Rwanda is small and that we want to go into Congo to expand it.
— Presidency | Rwanda (@UrugwiroVillage) February 5, 2026
But they try to avoid the real issue, which they also know, and in which they themselves are… pic.twitter.com/ND7Y15rKVZ
Kagame vinculou o grupo ao genocídio em Ruanda, em 1994, no qual extremistas hutus massacraram cerca de 800 mil tutsis e hutus moderados. “Eles tentam evitar a questão real, que também conhecem, e na qual eles próprios estão envolvidos, sobre a milícia Interahamwe que está no Congo. Os Interahamwe foram estabelecidos lá. Os Interahamwe foram armados”, escreveu Kagame.
Para o presidente ruandês, a presença deste grupo armado na fronteira constitui uma ameaça existencial que justifica a postura de seu país. “Como o mundo espera que nos comportamos? Que apenas os ouçamos e façamos tudo o que nos pedem, mesmo que isso nos leve à destruição?”, questionou.