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RDC e Ruanda disputam versões sobre guerra no leste congolês após agenda de Tshisekedi nos EUA

Governo congolês aponta apoio de Kigali ao M23; Kagame rebate acusações e nega interesse mineral no conflito
O presidente de Ruanda, Paul Kagame, e o presidente da República Democrática do Congo, Félix Tshisekedi, durante a cerimônia de assinatura de um acordo de paz no Instituto da Paz dos Estados Unidos, em Washington, D.C., em 4 de dezembro de 2025.

O presidente de Ruanda, Paul Kagame, e o presidente da República Democrática do Congo, Félix Tshisekedi, durante a cerimônia de assinatura de um acordo de paz no Instituto da Paz dos Estados Unidos, em Washington, D.C., em 4 de dezembro de 2025.

— Andrew Caballero-Reynolds/AFP

6 de fevereiro de 2026

A guerra no leste da República Democrática do Congo (RDC) entrou em nova fase de disputa narrativa entre Kinshasa e Kigali após a visita do presidente Félix Tshisekedi ao Capitólio dos Estados Unidos. A reunião com integrantes do Comitê de Relações Exteriores do Senado tratou de minerais estratégicos, acordos comerciais e segurança regional. 

Após o encontro, parlamentares divulgaram um comunicado em que cita o grupo armado M23 e cobra retirada de forças ligadas a Ruanda do território congolês. O texto expressa “preocupação com a ocupação contínua de partes do leste do Congo pelo grupo M23, apoiado por Ruanda”. 

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A nota aponta a “retirada total das forças ruandesas da região” como condição para uma “paz real e duradoura”. Os senadores também destacaram a parceria bilateral em “minerais críticos” e a importância do Corredor de Lobito, rota logística de exportação que liga áreas de mineração da RDC e da Zâmbia ao porto do Lobito, em Angola, por ferrovia e rodovias. 

O comitê fez uma cobrança ao governo congolês. O comunicado diz que a RDC “deve fazer sua parte para desescalar o conflito” com “ação decisiva contra o FDLR e as milícias violentas Wazalendo que prejudicam as comunidades locais”. A declaração também cita a crise humanitária e insegurança alimentar que atinge milhões de pessoas na região.

Após a reunião, Félix Tshisekedi usou o perfil da presidência nas redes sociais para comentar o encontro. Ele escreveu que “os minerais indispensáveis para a transição energética mundial devem ser, para ela [a RDC], um fator de transformação, industrialização e estabilidade — e não uma fonte de conflitos ou de predação”.

O presidente congolês não fez acusações diretas a Ruanda na mensagem pública. Ele descreveu a RDC como um país “na encruzilhada” e defendeu que os recursos minerais levem desenvolvimento ao país.

Kagame se defende durante em fórum nacional e nas redes sociais

A resposta do presidente ruandês, Paul Kagame, veio em dois momentos. Primeiro, durante o Conselho Nacional Umushyikirano, um fórum de diálogo interno em Ruanda. Kagame questionou publicamente a diretora do conselho de minas do país sobre a origem dos minerais processados.

“Alguns países estrangeiros gostariam de ver os minerais da RDC passarem por Ruanda sem processamento”, disse Kagame no fórum. Ele argumentou que processar recursos minerais que entram no país é um direito soberano.

Em um segundo momento, Kagame usou o perfil oficial da presidência de Ruanda nas redes sociais nesta sexta-feira (6) para um posicionamento direto sobre a questão de segurança. Ele afirmou que as acusações sobre minerais servem para desviar a atenção do que chamou de “verdadeiro problema”: a presença da milícia Interahamwe (FDLR) no leste da RDC.

Kagame vinculou o grupo ao genocídio em Ruanda, em 1994, no qual extremistas hutus massacraram cerca de 800 mil tutsis e hutus moderados. “Eles tentam evitar a questão real, que também conhecem, e na qual eles próprios estão envolvidos, sobre a milícia Interahamwe que está no Congo. Os Interahamwe foram estabelecidos lá. Os Interahamwe foram armados”, escreveu Kagame. 

Para o presidente ruandês, a presença deste grupo armado na fronteira constitui uma ameaça existencial que justifica a postura de seu país. “Como o mundo espera que nos comportamos? Que apenas os ouçamos e façamos tudo o que nos pedem, mesmo que isso nos leve à destruição?”, questionou.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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