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Literatura negra na infância: qual a importância para as crianças?

Com a articulação do movimento negro e transformações históricas, escritores negros têm feito um movimento para posicionar as crianças negras em lugar de protagonismo na literatura
Ilustração mostra um menino negro que usa um óculos azul e segura um caderno laranja.

Foto: Nathi de Souza/Alma Preta

9 de outubro de 2023

Se no início do século 20 a imagem de pessoas negras na literatura brasileira era invisibilizada, foi a partir do ano de 1920 que esse cenário começou a se transformar. Com o processo de modernização no Brasil naquele período, as pessoas negras passam a ser incluídas na literatura, no entanto, ainda em um lugar pejorativo, marcadas por termos de cunho racista e remetidas à escravidão.

Nesse cenário, a criança negra ou o jovem negro foram totalmente invisibilizados, pois no período de pós-abolição era visto como “perigoso”, segundo cita o artigo “A representação do negro na literatura infantil brasileira”, da professora Jéssica Oliveira Farias, mestra em Práticas de Educação Básica.

“Enquanto os negros ou negras velhas das zonas rurais eram caracterizados como trabalhadores, afetuosos, contadores de histórias populares, últimos representantes do folclore nacional, a representação do negro da cidade era bem diferente. De modo contrário à imagem do velho, o negro jovem quase não aparece nas obras de literatura infantil. Isso porque este era visto como perigoso, ladrão, mendigo, um reflexo do jovem negro na sociedade urbana pós abolicionismo”, cita um trecho do texto.

Nos últimos anos, com a articulação do movimento negro, projetos e leis que incentivam o ensino da história afro-brasileira nas escolas, escritores negros têm feito um movimento para posicionar as crianças negras em lugar de protagonismo ao abordar temas como ancestralidade, combate ao racismo, diversidade e outros.

Autor do livro “O Pequeno Príncipe Preto”, o escritor, professor e dramaturgo Rodrigo França conta que produziu a obra como uma forma de provocação ao livro “O Pequeno Príncipe”, do escritor e ilustrador francês Antoine de Saint-Exupéry, lançada em 1943.

À Alma Preta, o autor explica que o motivo de ter adicionado a palavra “preto” no título da obra se deu por uma escolha de destacar a questão racial do protagonista, um menino preto.

“Muito mais do que ter uma sonoridade no Pequeno Príncipe, é reafirmar esse menino como retinto porque os poucos livros que colocam meninos negros como protagonista, esse menino ainda é um negro de pele clara e o meu desejo enquanto artista é permear pelas nossas subjetividades e pelas nossas diferentes formas de negritude, principalmente de coloração de pele”, explica.

A história do livro “O Pequeno Príncipe Preto”, que conta com ilustração de Juliana Borges Pereira, surgiu antes do seu lançamento, em 2020. Foi nos palcos do teatro que Rodrigo França e o ator Junior Dantas resolveram produzir uma nova narrativa sobre a obra.

Na história original, o baobá, árvore originária da África, é vista como uma erva daninha que tem o poder de destruir o planeta. Já em “O Pequeno Príncipe Preto”, França resgata a representatividade do baobá na cultura africana em que o protagonista tem a árvore ancestral como a sua única companheira.

“Eu leio e escuto de crianças que ‘O Pequeno Príncipe Preto’ é um grande amigo, ou seja, possivelmente, para algumas crianças é o lugar da solidão quando você pensa, principalmente, em escolas de classe média e escolas privadas. A estrutura perversa do negro único ainda está na infância e ter esse livro faz com que esse personagem seja um grande companheiro”, ressalta.

Rodrigo França é autor do livro “O Pequeno Príncipe Preto” | Foto: Marcio Farias

Após o sucesso da obra, França atualmente trabalha em um novo projeto. Com exclusividade à esta reportagem, o escritor adiantou que produz no momento um novo livro infanto-juvenil, ainda sem revelar o nome, sobre a morte a partir da filosofia iorubá. A nova obra terá como ilustradora uma mulher negra, a Preta Ilustra.

A escolha pelo tema, segundo o escritor, tem como objetivo romper com a visão ocidental sobre a morte como algo perverso. “Há uma necessidade, desde já, de discutir sobre elementos que são fundamentais para a nossa existência como a morte, como a perda, e trago um menino que encara a morte a partir da poesia e da beleza”, detalha.

A importância da diversidade

Atuante no mercado financeiro e formada em engenharia de produção, Aline Carvalho nunca havia tido contato com a produção literária até ouvir o relato da filha Laura, uma criança negra de seis anos, que foi vítima de racismo no ambiente escolar.

Ao chegar da escola, a pequena comentou com a mãe que a professora havia dito que todas as crianças tinham cor “natural”, menos ela. Na época, ela só tinha quatro anos e foi a partir disso que Aline resolveu produzir o livro “Menina bonita, que cor você tem?”, que conta com ilustração de Xande Pimenta.

Através de temas como negritude e respeito às diferenças, a obra aborda a história de Giovana, que por meio da mãe aprende a importância da diversidade e do resgate da autoestima ao conhecer a trajetória de seus ancestrais africanos, compostos por reis, rainhas e guerreiros pretos.

“Embora seja um tema que muitos pais não conversam com os filhos, eu percebi que é comum, infelizmente, ainda nos dias de hoje que as crianças passem por esse tipo de situação na escola. Quando eu escrevi esse livro, eu escrevi para a Laura, mas eu quis também ajudar outros pais”, diz a escritora.

Aline Carvalho é autora do livro “Menina bonita, que cor você tem?” | Foto: Divulgação

Com uma linguagem acessível para o público da primeira infância, a autora destaca a necessidade das escolas em ampliar a discussão racial para além da escravidão. “Eu acho importante que seja trabalhado com as crianças que nós negros somos muito mais do que isso. Acho importante a escola trazer essa questão da negritude de outra forma, não só no dia 13 de maio, e isso é importante para as famílias”, completa Aline.

Existe assunto tabu para as crianças?

Para quem acha que existem assuntos que não devem ser discutidos na infância, a escritora e jornalista Bianca Santana enxerga a necessidade de romper com um silenciamento que pode ser prejudicial para as crianças. Por isso, ela resolveu transformar as conversas que tinha com os filhos no livro “Diálogos feministas e antirracistas (e nada fáceis) com as crianças”.

Publicado em julho deste ano, a obra conta com ilustração de Tainan Rocha e reflete as observações e questionamentos que as crianças têm e que por muitas vezes não são respondidos ou são ignorados pelos adultos, conforme reflete a autora.

“A ideia de colocar diálogos difíceis — que também não tem resposta nem muita explicação, mas que convida a conversar sobre temas difíceis — é esse convite mesmo a uma abertura, a uma possibilidade de conversas profundas com as crianças e às vezes quem tem medo do profundo é a gente”, comenta Bianca.

Esse é o primeiro livro infantil escrito pela autora, que possui uma série de obras como “Quando me descobri negra”, “Continuo preta: A vida de Sueli Carneiro” e “Arruda e guiné: resistência negra no Brasil contemporâneo”.

Bianca Santana é autora do livro “Diálogos feministas e antirracistas (e nada fáceis) com as crianças” | Foto: Renato Prada

Para a ativista feminista e de movimento negro, é possível falar com as crianças sobre assuntos considerados delicados a partir das perguntas que elas fazem.

“Tem muito mais a ver com uma possibilidade delas olharem para si e cuidarem delas, estarem mais protegidas, do que ensinar alguma coisa para a criança. Quando a gente fala em educação sexual nas escolas, a gente fala muito mais da criança conhecer o próprio corpo e ter condições de se proteger e não tem nada a ver com hiperssexualizar a criança, muito pelo contrário, tem a ver com proteger a criança”, pontua.

Defasagem da temática racial nas escolas

Neste ano, a Lei 10.639, de 2003, que estabelece a obrigatoriedade do ensino da História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nas escolas públicas e privadas, completou 20 anos. A legislação é um importante instrumento para atender a demanda do público infantil nas escolas.

Segundo Bianca Santana, a produção literária feita por pessoas negras vem desde o século 19, no entanto, o racismo produziu o apagamento desse público na história, reconstruída pela luta do movimento negro.

A escritora analisa que na atualidade as editoras comerciais perceberam a relevância dessa literatura, o que impulsionou o crescimento das publicações para a população negra.

“Essa lei, quando diz que as escolas são obrigadas a ensinar histórias e cultura africana e afro-brasileira, aumenta a demanda nas escolas por ter conteúdo didático, literário, para trabalhar a temática racial em cima da negritude nas escolas, então também abre a possibilidade de ter mais publicação e mais acesso a novas autoras e autores negros e a gente tem visto esse movimento crescente”, explica.

“Não começa com a lei nem com as editoras, começa em um caminho muito antes com a produção literária de pessoas negras e ações de movimento negro”, completa.

Apesar dos avanços, dados revelam que ainda há negligência quando se trata da temática nos espaços de educação.

Um levantamento realizado por Geledés Instituto da Mulher Negra e pelo Instituto Alana mostram que sete de cada dez Secretarias Municipais de Educação da região Sudeste do Brasil realizam pouca ou nenhuma ação para cumprir a Lei.

São Paulo é o estado da região que mais negligencia a lei federal, com 74% de suas secretarias tendo pouca ou nenhuma atuação na garantia da sua efetividade. Minas Gerais teve adesão de apenas 49 secretarias (6% do total de municípios do estado). Dessas, 67% não implementam a lei e 10% afirmam existir uma regulamentação específica.

O escritor Rodrigo França avalia que apesar dos avanços, frutos de luta histórica do movimento negro, o poder público precisa criar mecanismos de cobrança para o cumprimento da lei.

“Ainda existem escolas e alguns docentes que não aplicam [a lei 10.639] ou que aplicam de forma muito equivocada. Trabalhar a negritude é trabalhar 24 horas. Trabalhar negritude é pensar a matemática a partir de quem inventou a matemática. Trabalhar biologia é trabalhar a partir do olhar indígena, africano […] A gente ainda tem muito o que caminhar”.

  • Dindara Paz

    Baiana, jornalista e graduanda no bacharelado em Estudos de Gênero e Diversidade (UFBA). Me interesso por temáticas raciais, de gênero, justiça, comportamento e curiosidades. Curto séries documentais, livros de 'true crime' e música.

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