Ondas de calor e temporais têm escancarado uma realidade que muitas pessoas sentem na pele: a crise climática e a desigualdade social. Segundo estudo do Cefavela (UFABC) divulgado pela Agência Fapesp, a superfície de favelas como Paraisópolis e Heliópolis, em São Paulo, chegou a marcar 45°C, enquanto o Morumbi, bairro vizinho, ficou em torno de 30°C — um contraste de até 15°C entre regiões muito próximas.
De acordo com a assistente social e influenciadora Giovanna Pitel, a infraestrutura urbana e a renda moldam o impacto do calor no dia a dia. “Quando a cidade esquenta, ela não esquenta igual para todos. O calor revela quem consegue se proteger e aqueles que precisam lidar com o impacto no corpo, na saúde e na rotina, sem escolha”, explica.
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Esse cenário dialoga diretamente com o recorte social e racial do território. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatíca (IBGE) em novembro de 2024 mostram que pessoas pretas e pardas somam 72,9% da população que vive em favelas e comunidades urbanas no Brasil, evidenciando como os impactos climáticos tendem a pesar mais sobre um público historicamente empurrado para áreas com menos infraestrutura e maior exposição ao risco.
A concentração dessa população nesses territórios não é “casual”. Após a abolição da escravização, a população negra foi incorporada à vida urbana sem políticas reparatórias e sem garantia de terra, moradia e direitos, enquanto a desigualdade de renda, acesso à habitação e a segregação socioespacial se consolidaram ao longo das décadas. Na prática, isso aparece também no “conforto térmico”, onde há menos arborização, mais concreto, moradias mais adensadas e menos estrutura urbana, o calor se intensifica e a chance de proteção diminui.
“É importante pensar em justiça climática quando o governo prioriza quem está mais exposto. Isso significa garantir acesso à água potável, posto de saúde preparado para atender aumento de mal-estar e desidratação, fortalecer escola e CRAS para funcionar como apoio comunitário. A periferia precisa entrar primeiro na fila das soluções, porque é ali que o risco vira urgência”, completa Pitel.
Para ela, a solução passa por priorizar quem está mais exposto e transformar prevenção em rotina, não em resposta quando a tragédia já aconteceu. “Justiça climática deixa de ser debate distante quando vira medida prática no bairro: infraestrutura básica, cuidado e resposta rápida onde o calor e a chuva mais machucam.