PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

‘A periferia precisa ter prioridade nas soluções climáticas’

A assistente social e influenciadora Giovanna Pitel explica que a infraestrutura urbana e a renda moldam o impacto do calor no dia a dia
Moradores do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, se refrescam com chuveiros e piscinas improvisadas nas ruas da comunidade.

Moradores do Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, se refrescam com chuveiros e piscinas improvisadas nas ruas da comunidade.

— Tânia Rêgo/Agência Brasil

8 de fevereiro de 2026

Ondas de calor e temporais têm escancarado uma realidade que muitas pessoas sentem na pele: a crise climática e a desigualdade social. Segundo estudo do Cefavela (UFABC) divulgado pela Agência Fapesp, a superfície de favelas como Paraisópolis e Heliópolis, em São Paulo, chegou a marcar 45°C, enquanto o Morumbi, bairro vizinho, ficou em torno de 30°C — um contraste de até 15°C entre regiões muito próximas.

De acordo com a assistente social e influenciadora Giovanna Pitel, a infraestrutura urbana e a renda moldam o impacto do calor no dia a dia. “Quando a cidade esquenta, ela não esquenta igual para todos. O calor revela quem consegue se proteger e aqueles que precisam lidar com o impacto no corpo, na saúde e na rotina, sem escolha”, explica.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

Esse cenário dialoga diretamente com o recorte social e racial do território. Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatíca (IBGE) em novembro de 2024 mostram que pessoas pretas e pardas somam 72,9% da população que vive em favelas e comunidades urbanas no Brasil, evidenciando como os impactos climáticos tendem a pesar mais sobre um público historicamente empurrado para áreas com menos infraestrutura e maior exposição ao risco.

A concentração dessa população nesses territórios não é “casual”. Após a abolição da escravização, a população negra foi incorporada à vida urbana sem políticas reparatórias e sem garantia de terra, moradia e direitos, enquanto a desigualdade de renda, acesso à habitação e a segregação socioespacial se consolidaram ao longo das décadas. Na prática, isso aparece também no “conforto térmico”, onde há menos arborização, mais concreto, moradias mais adensadas e menos estrutura urbana, o calor se intensifica e a chance de proteção diminui.

“É importante pensar em justiça climática quando o governo prioriza quem está mais exposto. Isso significa garantir acesso à água potável, posto de saúde preparado para atender aumento de mal-estar e desidratação, fortalecer escola e CRAS para funcionar como apoio comunitário. A periferia precisa entrar primeiro na fila das soluções, porque é ali que o risco vira urgência”, completa Pitel.

Para ela, a solução passa por priorizar quem está mais exposto e transformar prevenção em rotina, não em resposta quando a tragédia já aconteceu. “Justiça climática deixa de ser debate distante quando vira medida prática no bairro: infraestrutura básica, cuidado e resposta rápida onde o calor e a chuva mais machucam.

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Felipe Ruffino

    Felipe Ruffino é jornalista, pós-graduado em Assessoria de Imprensa e Gestão da Comunicação, possui a agência Ruffino Assessoria e ativista racial, onde aborda pautas relacionada à comunidade negra em suas redes sociais @ruffinoficial.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano