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Avião com 118 imigrantes do Haiti fica retido por 10 horas em Campinas (SP)

Passageiros do voo pretendiam pedir refúgio no Brasil e foram impedidos de desembarcar; companhia aérea aponta violações de direitos humanos
Aeronave da Aviatsa com passageiros haitianos pousou no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), no dia 12 de março de 2025.

Aeronave da Aviatsa com passageiros haitianos pousou no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), no dia 12 de março de 2025.

— Reprodução/Arquivo Pessoal

13 de março de 2026

Um avião fretado ficou retido por cerca de dez horas no Aeroporto Internacional de Viracopos, em Campinas (SP), na quinta-feira (12). Segundo a companhia aérea Aviación Tecnológica S.A. (Aviatsa), responsável pelo voo, 118 dos 120 passageiros a bordo foram impedidos de desembarcar pela Polícia Federal (PF).

A aeronave partiu de Porto Príncipe, capital do país caribenho que enfrenta uma grave crise política, econômica e de segurança. Em nota, a companhia afirmou que os imigrantes pretendiam solicitar refúgio ou proteção migratória no Brasil e que todos estavam devidamente identificados e com passaportes válidos, “direito assegurado pela Lei de Migração nº 13.445/2017 e pela Lei do Refúgio nº 9.474/1997”.

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O pouso ocorreu por volta das 9h e o grupo foi liberado da aeronave somente às 19h. A previsão é de que na  manhã desta sexta-feira (13) deveria iniciar o processo de admissão no Brasil.

Segundo a Polícia Federal, a ação foi motivada por um grande fluxo migratório de haitianos. A corporação afirmou que, durante o procedimento regular de controle migratório, foi identificado que 113 dos 115 passageiros que desembarcaram apresentavam vistos humanitários falsificados, sendo aplicada a medida administrativa de inadmissão.

De acordo com a PF, conforme normas internacionais do transporte aéreo, a responsabilidade pelo retorno dos passageiros inadmitidos é da companhia aérea para o ponto de origem, que também tem o dever de verificar previamente a documentação necessária para o embarque.

Ainda no comunicado, a corporação informou que, após a comunicação da inadmissão, os passageiros foram reembarcados na aeronave por volta das 12h e que foi autorizado o retorno ao ponto de origem. No entanto, a aeronave permaneceu no local por questões operacionais relacionadas ao voo, responsabilidade que, segundo a PF, cabe à companhia aérea. 

A PF também informou que os imigrantes foram orientados a desembarcar e que “os estrangeiros receberam orientação para eventual formalização de pedidos de refúgio, caso assim desejassem”.

Caso será encaminhado a organizações de direitos humanos

Em comunicado, a companhia aérea Aviatsa afirmou que os passageiros permaneceram confinados na aeronave, sem acesso adequado a água e alimentação, e criticou a condução da operação pela PF, classificando como “incompatível com princípios básicos de dignidade humana e proteção internacional aos refugiados”. 

A empresa também alegou que foi negada assistência jurídica aos imigrantes e que a situação representa uma grave violação de direitos humanos.

“Advogados de direitos humanos encontravam-se no aeroporto para prestar assistência jurídica aos passageiros, mas foram impedidos de acessá-los”, informou a empresa.

A Aviatsa afirmou ainda que avalia medidas jurídicas cabíveis para resguardar os direitos dos passageiros e da tripulação.

A organização Advogados Sem Fronteiras (ASF) informou, em nota, que o caso  será encaminhado ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), à Defensoria Pública da União, ao Ministério Público Federal, à Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, ao Ministério das Relações Exteriores e a organizações internacionais de direitos humanos.

No comunicado, a ASF confirma o que foi dito pela empresa aérea, de   que os advogados de direitos humanos presentes no aeroporto para prestar assistência jurídica aos passageiros foram impedidos de acessá-los.

“ASF Brasil reconhece a competência soberana do Estado brasileiro para exercer controle migratório. Não é disso que se trata. O que esta nota documenta é a opção por uma modalidade de exercício desse controle que priva seres humanos de qualquer regime jurídico de proteção, mantendo-os suspensos em um limbo deliberadamente criado para que nenhum direito possa ser exercido”, diz a nota.

A entidade disse ainda que, entre os imigrantes, há pessoas com condições médicas preexistentes, como portadores de asma, além de crianças com visto de reunião familiar expedido por autoridade consular brasileira.

A organização acrescentou que a conduta da Polícia Federal, conforme descrita, pode configurar, dependendo da apuração dos fatos, restrição ilegal de liberdade, abuso de autoridade e violação de tratados internacionais, com possíveis repercussões funcionais, administrativas e penais.

Crise no Haiti e violência de grupos armados

O Haiti enfrenta há anos uma grave crise econômica, política e de segurança, com uma escalada da violência de gangues que se intensificou com o domínio de grupos armados em diversas regiões do país. Desde 2016, o país não realiza eleições presidenciais e não possui um parlamento em funcionamento.

Após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, em julho de 2021, a situação de segurança pública se agravou. Em 2024, foi formado um novo governo de transição para tentar restaurar a estabilidade, atualmente liderado por um Conselho Presidencial de Transição.

O Alto Comissariado das Nações Unidas (ONU) alertou que mais de 5,6 mil pessoas foram mortas no Haiti em 2024 em decorrência da violência de grupos armados. A escalada da violência também comprometeu a segurança alimentar, provocando uma das crises alimentares mais graves do mundo.

Com informações do G1.

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  • Thayná Santana

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