O Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB), em Salvador, sediou nesta semana a etapa baiana do Projeto de Sinalização e Reconhecimento dos Lugares de Memória dos Africanos Escravizados no Brasil. Coordenada pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, a ação tem parceria dos Ministérios da Igualdade Racial, da Cultura, da Educação e da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).
O projeto se baseia no Inventário Nacional dos Lugares de Memória dos Africanos Escravizados, elaborado em 2013 pela Universidade Federal Fluminense em parceria com a UNESCO. A primeira fase contempla cerca de 100 locais em todo o país, dos quais 25 estão na Bahia, estado que concentrou grande parte da história do tráfico atlântico e da escravidão.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
Durante o evento, representantes da sociedade civil e de instituições participaram de visita técnica ao Cais da Cidade Baixa, reconhecido como ponto de chegada de africanos escravizados no Brasil. Antes da proibição do tráfico atlântico, em novembro de 1831, milhares de pessoas desembarcaram no local. Mesmo após a lei, o cais continuou sendo usado no tráfico interno e transatlântico.
Moema Carvalho Lima, coordenadora-geral de Memória e Verdade da Escravidão e do Tráfico Transatlântico de Pessoas Escravizadas, explicou a metodologia e ressaltou que o envolvimento das comunidades locais é essencial para garantir o êxito do projeto.
Cultura e ancestralidade
O evento contou com uma bênção conduzida por Pai Buda, líder religioso do terreiro Roça do Ventura, que destacou a importância da preservação das tradições afro-brasileiras. “É com muita luta, mas estamos conseguindo que o povo Jeje possa preservar e difundir a tradição dos Voduns”, afirmou segundo nota oficial.
Selma dos Santos, do Centro de Memória da Bahia, ressaltou a relevância das políticas públicas estaduais voltadas à valorização da memória. Durante a visita técnica, foi apresentado o modelo de placa que será replicado em outros territórios.
A escolha do mês de agosto reforça o caráter simbólico da iniciativa. No dia 23, a UNESCO celebra o Dia Internacional da Lembrança do Tráfico de Pessoas Escravizadas e da Abolição da Escravatura, em memória da revolta ocorrida no Haiti em 1791, marco da Revolução Haitiana e dos movimentos abolicionistas nas Américas.
Representantes de órgãos como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (IPAC) e Fundação Gregório de Mattos destacaram a importância da cooperação entre instituições na preservação da memória afro-brasileira.
A diretora do MUNCAB, Cintia Maria, afirmou que museus são espaços vivos da cultura negra e da memória coletiva. A vereadora Marta Rodrigues (PT) entregou ao Ministério a placa da Ladeira dos Malês, marco histórico da resistência negra em Salvador.