O Brasil se manteve, em 2025, como o país que mais assassina pessoas travestis e transexuais no mundo pelo 18º ano consecutivo. É o que aponta a 9ª edição do Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), divulgada nesta segunda-feira (26).
O relatório registrou 80 assassinatos de pessoas trans no período, uma queda de 34% em relação aos 122 casos de 2024. A pesquisa, no entanto, adverte que a redução numérica não indica mudança estrutural no cenário de violência nem ampliação de garantias de direitos fundamentais para essa população, mas é resultado de um processo complexo de subnotificação, dificuldades de monitoramento e um apagamento dessa realidade pelo Estado.
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A análise da ANTRA identifica que a aparente diminuição dos casos está ligada a fatores que ocultam a violência, e não à sua efetiva redução. Entre eles estão a resistência da cobertura da grande mídia, com 49% dos casos publicados apenas em veículos regionais de baixo alcance; a censura e limitação de conteúdos sobre o tema nas redes sociais; os ataques sistemáticos à produção de dados independentes; e o medo generalizado que reduz a circulação pública da população trans, levando ao isolamento e a menos registros de conflitos.
O documento caracteriza essa dinâmica como uma “estratégia estatal e institucional que sustenta a ilusão de redução da violência”.
“O perfil das vítimas permanece o mesmo, os padrões de crueldade se mantêm, a violência estrutural […] e o medo generalizado seguem operando”, afirma o relatório. O Brasil continua a liderar os rankings globais de assassinatos de pessoas trans, concentrando sozinho 30% dos casos reportados mundialmente pela ONG Transgender Europe (TGEU).
Perfil das vítimas: jovens, negras, travestis e mulheres trans
O dossiê traça um perfil das vítimas ao longo dos nove anos de pesquisa (2017-2025). Em 2025, 97% dos assassinatos (77 casos) foram contra travestis e mulheres trans. Os corpos transfemininos são os que aparecem com mais recorrência entre as vítimas de violência letal.
O recorte racial é um outro dado predominante. Das vítimas cuja raça foi identificada (57 casos), 70% eram pessoas trans negras (pretas e pardas). Em todo o período de pesquisa e publicação de todas as edições do dossiê da ANTRA, a média de pessoas trans negras assassinadas entre 2017 e 2025 permanece em 77%. O relatório afirma que “a população trans negra é o alvo preferencial do racismo transfóbico“.
A juventude é a mais atingida. Em 2025, 77% das vítimas tinham menos de 35 anos, e a faixa etária de 18 a 29 anos concentrou 54% dos assassinatos. A média de idade das vítimas no ano foi de 30 anos. A pesquisa também registrou uma tentativa de homicídio contra uma adolescente trans de 13 anos, que foi agredida e queimada no Espírito Santo.
Em contraste com a queda nos registros de assassinatos consumados, as tentativas de homicídio (homicídio tentado) aumentaram 32% em 2025, com 75 casos registrados contra travestis e mulheres trans. O perfil das vítimas sobreviventes segue o mesmo das que foram mortas.
Cenário de hostilidade e resistência
O documento contextualiza a violência em um cenário de avanço global de agendas políticas antitrans, citando medidas restritivas nos Estados Unidos e no Reino Unido, que tiveram reflexos no Brasil. Critica a omissão do Estado brasileiro, a aprovação de leis contra os direitos trans e a atuação de grupos organizados que promovem perseguição e boicotes a empresas que empregam pessoas trans.
O dossiê também destaca frentes de resistência e conquistas, como a consolidação de cotas para pessoas trans em universidades e concursos públicos e a histórica homenagem à travesti Xica Manicongo no carnaval da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti, em parceria com a ANTRA.