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Brasil segue como o país que mata mais trans e travestis em 2025; maioria das vítimas são negras

Dossiê da ANTRA aponta 80 mortes violentas, entre elas 70% pessoas trans negras, mas alerta que queda em relação à 2024 reflete subnotificação e apagamento estatal, não diminuição real da violência
A imagem mostra uma mulher segurando a bandeira da comunidade trans.

A imagem mostra uma mulher segurando a bandeira da comunidade trans.

— Fernando Frazão / Agência Brasil

26 de janeiro de 2026

O Brasil se manteve, em 2025, como o país que mais assassina pessoas travestis e transexuais no mundo pelo 18º ano consecutivo. É o que aponta a 9ª edição do Dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), divulgada nesta segunda-feira (26). 

O relatório registrou 80 assassinatos de pessoas trans no período, uma queda de 34% em relação aos 122 casos de 2024. A pesquisa, no entanto, adverte que a redução numérica não indica mudança estrutural no cenário de violência nem ampliação de garantias de direitos fundamentais para essa população, mas é resultado de um processo complexo de subnotificação, dificuldades de monitoramento e um apagamento dessa realidade pelo Estado.

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A análise da ANTRA identifica que a aparente diminuição dos casos está ligada a fatores que ocultam a violência, e não à sua efetiva redução. Entre eles estão a resistência da cobertura da grande mídia, com 49% dos casos publicados apenas em veículos regionais de baixo alcance; a censura e limitação de conteúdos sobre o tema nas redes sociais; os ataques sistemáticos à produção de dados independentes; e o medo generalizado que reduz a circulação pública da população trans, levando ao isolamento e a menos registros de conflitos. 

O documento caracteriza essa dinâmica como uma “estratégia estatal e institucional que sustenta a ilusão de redução da violência”.

“O perfil das vítimas permanece o mesmo, os padrões de crueldade se mantêm, a violência estrutural […] e o medo generalizado seguem operando”, afirma o relatório. O Brasil continua a liderar os rankings globais de assassinatos de pessoas trans, concentrando sozinho 30% dos casos reportados mundialmente pela ONG Transgender Europe (TGEU).

Perfil das vítimas: jovens, negras, travestis e mulheres trans

O dossiê traça um perfil das vítimas ao longo dos nove anos de pesquisa (2017-2025). Em 2025, 97% dos assassinatos (77 casos) foram contra travestis e mulheres trans. Os corpos transfemininos são os que aparecem com mais recorrência entre as vítimas de violência letal.

O recorte racial é um outro dado predominante. Das vítimas cuja raça foi identificada (57 casos), 70% eram pessoas trans negras (pretas e pardas). Em todo o período de pesquisa e publicação de todas as edições do dossiê da ANTRA, a média de pessoas trans negras assassinadas entre 2017 e 2025 permanece em 77%. O relatório afirma que “a população trans negra é o alvo preferencial do racismo transfóbico“.

A juventude é a mais atingida. Em 2025, 77% das vítimas tinham menos de 35 anos, e a faixa etária de 18 a 29 anos concentrou 54% dos assassinatos. A média de idade das vítimas no ano foi de 30 anos. A pesquisa também registrou uma tentativa de homicídio contra uma adolescente trans de 13 anos, que foi agredida e queimada no Espírito Santo.

Em contraste com a queda nos registros de assassinatos consumados, as tentativas de homicídio (homicídio tentado) aumentaram 32% em 2025, com 75 casos registrados contra travestis e mulheres trans. O perfil das vítimas sobreviventes segue o mesmo das que foram mortas.

Cenário de hostilidade e resistência

O documento contextualiza a violência em um cenário de avanço global de agendas políticas antitrans, citando medidas restritivas nos Estados Unidos e no Reino Unido, que tiveram reflexos no Brasil. Critica a omissão do Estado brasileiro, a aprovação de leis contra os direitos trans e a atuação de grupos organizados que promovem perseguição e boicotes a empresas que empregam pessoas trans.


O dossiê também destaca frentes de resistência e conquistas, como a consolidação de cotas para pessoas trans em universidades e concursos públicos e a histórica homenagem à travesti Xica Manicongo no carnaval da Escola de Samba Paraíso do Tuiuti, em parceria com a ANTRA.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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