O estado de São Paulo celebra, neste dia 9 de julho, os 94 anos da Revolução Constitucionalista de 1932, movimento que marcou a guerra civil paulista contra forças militares comandadas por Getúlio Vargas.
O conflito ocorreu em resposta ao regime ditatorial instaurado por Vargas após o golpe de Estado que o levou ao poder, em outubro de 1930. Depois de suspender as eleições e romper com a estrutura política vigente, que beneficiava as elites de São Paulo e Minas Gerais, o presidente nomeou um interventor de outro estado para comandar São Paulo.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
Com a revolta da elite paulista, o governo passou a ser pressionado a descentralizar o poder e criar uma nova constituição, pautada em princípios liberais. A tensão seguiu até que a morte de quatro estudantes resistentes à ditadura, Miragaia, Marcondes, Dráusio e Camargo, se tornasse o estopim para o combate.
Leia mais: Apagados pela história, negros foram importantes combatentes na guerra civil de 1932
A narrativa oficial, no entanto, costuma invisibilizar a participação da população negra no conflito. Sem o apoio esperado de Rio Grande do Sul e Minas Gerais, a mobilização de homens e mulheres negras tornou-se fundamental para o esforço de guerra paulista.
Especialistas afirmam que um quarto do contingente de soldados era composto por pessoas negras. Em entrevista à Alma Preta, publicada em 2024, o historiador e pesquisador da Universidade Federal de Sergipe (UFS), Petrônio Rodrigues, apontou que, apesar de não haver consenso sobre o tamanho real das forças constitucionalistas, estima-se que houve a participação de 40 mil pessoas negras.
Na Legião Negra — batalhões compostos por soldados negros, conhecidos como “Pérolas Negras” —, um nome se destaca como um importante papel na linha de frente de batalha: Maria José Bezerra, também conhecida como Maria Soldado.
Nascida em Limeira, no interior de São Paulo, em 1895, Maria José era filha de pessoas escravizadas e é considerada uma precursora da enfermagem moderna no país, além de heroína da Revolução Constitucionalista.
Antes de servir no conflito, trabalhava como cozinheira. No entanto, um ataque à casa onde trabalhava fez com que se juntasse à Legião Negra.
Maria Soldado alistou-se para cuidar dos feridos como enfermeira, mas, ao longo da revolução, dividiu com proeza as trincheiras ao lado dos homens na luta armada do setor Sul, nos municípios de Buri, Ligiana e Itararé.
Sua atuação na área da saúde ocorreu em um contexto marcado pela difusão de teorias eugenistas defendidas por setores da elite brasileira. Apesar disso, Maria Soldado foi retratada pela imprensa paulista como uma combatente corajosa, sendo descrita pelo jornal Gazeta como “nobre”.
A soldado retornou à vida de trabalhadora doméstica ao final da Revolução, mantendo-se presente nas manifestações estudantis contra a ditadura. Ao final de sua vida, vendia doces e salgados no Hospital das Clínicas de São Paulo.
Apesar de sua relevância para a história da enfermagem e da Revolução Constitucionalista, sua trajetória permaneceu invisibilizada por décadas. Maria Soldado morreu em Limeira, em 11 de fevereiro de 1958, sem receber amplo reconhecimento por sua contribuição.
Leia mais: História apagada: 9 de julho e a participação negra nas trincheiras paulistas
Em 1957, foi condecorada com o Jubileu de Prata do movimento constitucionalista e escolhida como “Mulher Símbolo de 32”, uma das mais altas honrarias dos ex-combatentes. Como heroína, seus restos mortais estão no Obelisco e Monumento Mausoléu ao Soldado Constitucionalista de 32, no Parque Ibirapuera.
Apesar do apagamento nas narrativas oficiais, a trajetória de Maria Soldado evidencia sua contribuição para o movimento constitucionalista e para a consolidação da enfermagem brasileira.
Resgatar a trajetória de Maria Soldado significa ampliar a compreensão sobre a Revolução Constitucionalista e reconhecer a participação da população negra em um episódio frequentemente narrado a partir da perspectiva das elites paulistas.
Sua história evidencia que mulheres negras também ocuparam posições de protagonismo na guerra, embora tenham permanecido por décadas à margem da memória oficial.