A Comunidade Cruz da Esperança, tradicional espaço da cultura negra paulista no bairro Casa Verde, na Zona Norte, enfrenta riscos de desapropriação pela prefeitura de São Paulo, em um projeto que prevê a concessão para a iniciativa privada.
Conhecido como reduto do samba e do futebol, o local abriga o Samba do Cruz e o Grêmio Esportivo Recreativo (GRE) Cruz da Esperança, fundado em 1958. Por anos, gerações de famílias negras o utilizaram como um ambiente de acolhimento, cultura popular, esporte e inclusão social.
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Em decorrência da presença histórica da população negra no século XX, resultado dos processos de deslocamento e expulsão dos centros urbanos, a região, que engloba o bairro da Casa Verde, chegou a ser apelidada como Pequena África paulistana. Lá, a capoeira e as religiões de matriz africana também fincaram suas raízes.
No entanto, apesar da relevância sociocultural, a gestão municipal pretende construir o Parque Municipal Campo de Marte, gerido pela concessionária Campo de Marte SPE S/A. O contrato da Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, ao qual a Alma Preta teve acesso, é no valor de R$ 614,4 mil.
Segundo documentos, a área da praça de esportes do Cruz da Esperança, confiscada pela União após a Revolução de 1932, foi concedida pelo Aeroporto Campo de Marte em 12 de junho de 1979, então responsável, com arrendamento específico para a construção do centro esportivo.
Em entrevista à reportagem, Fabio Henrique Januário Faldão, dirigente do GRE, relata que a posse do território passou da União para a prefeitura após uma intensa disputa judicial. Desde então, ele relata que a comunidade sofre pressão para deixar o local.
“Eles querem nos tirar já faz mais de 40 anos, mas agora parece que está se concretizando. Porque agora a concessionária, junto com a prefeitura, liberou o projeto”, explica.
O complexo esportivo possui seis campos de futebol. Neles ocorrem as partidas de futebol de várzea aos finais de semana, esporte amador com fortes relações com as periferias da cidade. Além do Cruz, a sede conta com outros times: SADE, Baruel, Aliança Pitangueira e VUP.
De acordo com Faldão, o planejamento da concessão permite apenas o uso dos campos de futebol em horário restrito, passando a administração para a empresa responsável.
“A gente existe desde 1958, ou seja, a gente tem mais de 60 anos de história. Não dá para abrir mão da nossa história por causa de um horário num campo de um parque público”.
A limitação no horário ainda pode atingir o clássico Samba da Cruz, que, todos os finais de semana, atrai centenas de amantes do gênero para celebrar a cultura negra. A proposta, informou o dirigente, proíbe a realização do evento. O acordo não foi aceito pela agremiação, que decidiu deixar a Associação dos Clubes Mantenedores da Área de Esportes e Lazer do Campo de Marte.
“Não vai existir mais samba. Eles não querem samba, não querem nada. É só o horário no campo cru, dentro do parque público. Foi isso que a associação e os clubes conseguiram lá. Nós não assinamos e saímos da associação. Porque nós não vamos abrir mão da nossa história. Nós temos muita história”, complementa.
Associação não vê saída, destaca dirigente
Otacílio Ribeiro, integrante da associação, também ouvido pela Alma Preta, conta que a associação só aceitou as condições impostas para não perder o acesso aos campos de futebol, pois não foi proposto nenhum plano alternativo.
Ele ressalta que toda a intervenção na área, inclusive a preservação da Mata Atlântica presente no local, é resultado de ações da comunidade, sem nenhum uso de verbas públicas.
“Não tem para onde a gente correr. Concordando com o que está agora, nós temos aquela área lá. Construímos tudo ali, não tem um centavo de dinheiro público. Nós plantamos todas aquelas árvores. Não é que a gente concorda, mas não temos opção”, complementa.
Ribeiro relata que a liberação para o uso dos campos é temporária, até a destruição deles. A empresa propõe que sejam implementados novos campos após a demolição e a construção do parque, no prazo de um ano e meio.
“De um modo ou de outro, vão acabar com todos os campos. Vai saber quanto tempo vai demorar pra levantar esses. Em um ano, vão acabar com três, que vão ficar no parque para eles”.
Mobilização pede a permanência do Cruz da Esperança
Em resposta, a comunidade Cruz da Esperança iniciou um abaixo-assinado solicitando à Prefeitura de São Paulo a garantia de permanência da comunidade em seu território histórico, assegurando a continuidade das atividades culturais.
O GRE ainda requer o reconhecimento do Grêmio como patrimônio imaterial de SP, com a abertura de procedimento administrativo para avaliação do registro cultural.
A solicitação é endereçada também às secretarias municipais de Cultura, do Verde e do Meio Ambiente e ao Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental (Conpresp) da cidade.
A campanha ganhou apoio da sociedade, artistas e parlamentares. A mobilização motivou um projeto de lei que concede o reconhecimento de patrimônio imaterial ao clube, apresentado pela vereadora Amanda Paschoal (PSOL).