O samba é um dos traços mais marcantes da identidade brasileira. Presente nas esquinas cariocas, nos bares paulistanos e na trilha de amores e desamores Brasil afora, ele é mais do que ritmo musical: é identidade, respiro cotidiano e hino de resistência da classe trabalhadora.
Sua história se entrelaça com a resistência da cultura negra e, como no processo abolicionista, tem na linha de frente mulheres que encabeçaram movimentos. Um exemplo é Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata, que no Rio de Janeiro foi guardiã de sambistas em um tempo em que o samba era criminalizado. Mãe de santo respeitada, usou sua influência política e social para transformar sua casa em ponto de encontro. Foi ali, em meio a tambores, rezas e cozinhas, que o samba ganhou corpo e fundamento.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
De lá para cá, o samba sempre foi atravessado por disputas e demarcações. Homens e mulheres compartilham o valor comunitário que o ritmo carrega. Seja nas escolas, nas rodas, nos blocos de rua ou nos desfiles, a presença das mulheres nunca foi exceção. Embora o imaginário oficial tenha as limitado ao papel de passistas, enquanto os homens ficavam com o comando de toda a operação. Essa narrativa, criada e reforçada pelo centro, não dá conta da realidade: mulheres sempre organizaram, cantaram e tocaram.
Hoje, vemos um cenário em transformação. Mulheres conduzem rodas de samba, blocos afirmam o Orgulho LGBTQIAPN+, enredos falam de diversidade e as baterias deixam de ser espaços exclusivos dos homens. O que parecia transgressão é, na verdade, continuidade da vida acontecendo.
É nesse contexto que, em 31 de agosto de 2025, o Bloco Vez e Voz realizou o batismo de sua bateria feminina, denominada Laroyê e tem como mestra Fábis Pedroso. A data não foi casual: em pleno mês do Orgulho Lésbico, a consagração se tornou um marco. A nova bateria nasce sob a guarda ancestral de Nega Duda, sambadeira do Recôncavo Baiano, e a força de Juju Bonita, mulher trans coroada rainha, zeladoras de santo. Ao contrário do que o olhar mainstream poderia interpretar como reparação ou concessão, no Vez e Voz trata-se de um movimento natural: mulheres que desejaram tocar, desenvolveram habilidade e ocuparam o espaço.
Fundado em 2022, o bloco nasceu com a missão de visibilizar vozes silenciadas nos espaços oficiais da cultura popular. Em três anos, já se consolidou como referência em diversidade e representatividade. Seu fundador, Éric Tomas, é também intérprete de Leci Brandão — mulher negra, lésbica, referência no samba e hoje deputada estadual em São Paulo. Essa ligação não é detalhe: ela conecta o presente do Vez e Voz à longa tradição de mulheres que sustentam o samba tanto na música quanto na política.
A consagração da bateria feminina do Vez e Voz não é só marco histórico. É prova de que o samba está em constante movimento: honra raízes e abre espaço para novas narrativas.
Se antes falávamos apenas de mulheres cis, hoje falamos de mulheres em toda sua pluralidade – cis, trans, lésbicas, negras, periféricas. São elas que sustentam o ritmo, garantem a festa e projetam o futuro.
O samba, nascido da vivência das periferias e outrora considerado contravenção, hoje ecoa nos quatro cantos do Brasil. Mas não pode perder a essência que o originou: acolher quem vem das margens.