Um estudo com imagens de satélite mostrou que a desigualdade social em São Paulo se manifesta também na temperatura das diferentes regiões. Durante o verão de 2024/2025, a favela de Paraisópolis, na Zona Sul, registrou temperaturas de superfície de até 45ºC. No mesmo período, o Morumbi, bairro vizinho e de alta renda, ficou em torno de 30ºC. A diferença chegou a 15ºC entre territórios separados por poucos quilômetros.
O levantamento foi feito por pesquisadores do Centro de Estudos da Favela (Cefavela), da Universidade Federal do ABC (UFABC). Eles analisaram 19 imagens termais de um satélite de observação da Terra, referentes ao período entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025. A capital paulista enfrentou sucessivas ondas de calor nesse intervalo.
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O contraste térmico não se restringe a Paraisópolis e Morumbi. Em Heliópolis, outra das maiores favelas da capital, as temperaturas de superfície ultrapassaram 44°C nos dias mais quentes.
Na região do Capão Redondo, também na Zona Sul, quatro das dez favelas com maiores registros de calor da cidade apresentaram marcas próximas ou superiores a 47°C. Entre elas estão Jardim Capelinha/Nuno Rolando, Jardim Basílio Teles e Parque Santo Antônio.
Recordes de calor e população afetada
No verão de 2024/2025, a maior temperatura oficial registrada por uma estação meteorológica em São Paulo ocorreu em fevereiro, com 34ºC. Esse patamar foi superado no domingo (28) do verão atual, quando a cidade registrou 37,2ºC, um novo recorde histórico, a maior temperatura desde 1961.
De acordo com o Censo Demográfico mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), São Paulo tem aproximadamente 11,5 milhões de habitantes. Mais de 1,7 milhão vivem em 1.359 favelas, que ocupam cerca de 4% da área do município, mas concentram mais de 15% da população.
Os pesquisadores destacam que o calor não é apenas um fenômeno meteorológico, mas também um resultado das escolhas de planejamento do território. Eles apontam que soluções baseadas na natureza, como corredores verdes, parques, árvores, telhados verdes e sistemas de drenagem sustentável, podem funcionar como um “ar-condicionado natural” para as cidades.
O estudo conclui que incluir o calor como dimensão da inadequação habitacional significa reconhecer que a exclusão urbana também se mede em graus Celsius.
Impacto do calor na mortalidade e na educação
Um estudo do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com base em dados do Sistema Único de Saúde (SUS), analisou mortes por doenças associadas ao forte calor no Brasil entre 2000 e 2018. Mais de 48 mil mortes foram provocadas por essas condições no período.
As taxas de mortalidade relacionadas a ondas de calor foram maiores entre pessoas do sexo feminino, idosas, negras, pardas ou com níveis educacionais mais baixos.
Em novembro de 2025, o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) divulgou um alerta global sobre o impacto das mudanças climáticas na educação. Dados do órgão mostram que o desempenho escolar diminui à medida que a temperatura sobe. Em 2024, as altas temperaturas foram o principal motivo para o fechamento de escolas, o que afetou mais de 118 milhões de estudantes apenas em abril.