Durante a 62ª sessão dos Órgãos Subsidiários (SB62), que ocorreu em Bonn, na Alemanha, entre os dias 16 e 26 de junho, a assessora internacional do Geledés Instituto da Mulher Negra, Letícia Leobet, conversou com a Alma Preta sobre as agendas internacionais que a organização acompanha. Dentro da pauta de gênero, a assessora contou como as conferências internacionais possuem relação mesmo que não estejam tão interligadas e como a organização faz para acompanhar e realizar as incidências.
Na agenda climática, a Conferência de Bonn e a 30ª edição da Conferência das Partes (COP30) fazem parte de um processo isolado da ONU. O Geledés enxerga outras agendas das Nações Unidas como complementares, a exemplo do encontro de Financiamento para o Desenvolvimento, da Comissão do Estatuto da Mulher (CSW) e, principalmente, da Agenda de Desenvolvimento Sustentável.
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Para Letícia, a agenda de gênero teve e terá momentos importantes a nível global em 2025. “A CSW foi o primeiro encontro deste ano, que apesar de não termos tido retrocessos, não conseguimos ter avanços em relação à uma linguagem que seja significativa para as mulheres afrodescendentes”, avalia.
Já no caso da SB62, que tem um apelo específico à questão climática, a assessora explica que a agenda de gênero tem uma oportunidade de avançar uma vez que na COP30 uma das negociações será a implementação do novo plano de ação de gênero. “Na Conferência de Bonn, participam os estados membros e os constituintes, principalmente o de gênero e de juventude. No momento, estamos revisando como foi o plano encerrado em 2024, pensando sobre o que precisa ser atualizado a partir das ações já existentes e refletindo sobre novas ações para essa perspectiva de dez anos do item de ação de gênero e clima”, explica.
Segundo Letícia, o principal desafio na agenda é a ampliação de gênero para uma abordagem mais interseccional, que caiba território, etnia, raça, idade, entre outros marcadores sociais. “É preciso pensar como a agenda de gênero se torna mais coerciva com outras agendas, como por exemplo transição justa, adaptação climática e financiamento – principalmente na parte de implementação”, pondera.
Para ela, esse vínculo entre as agendas é muito importante para organização, uma vez que há o debate conjunto entre direitos humanos e negociações climáticas. “A partir desse workshop sai um documento inicial preparado pelo secretariado e pelas facilitadoras, que vai subsidiar as discussões do plano de ação que acontecem na COP30″, explica.
Para além da pauta de crise climática, o debate de gênero acontece em um cenário global de discussões sobre a reforma da arquitetura financeira. Como materialidade desse processo a nível internacional, explicita-se a Conferência de Financiamento para o Desenvolvimento da ONU, que acontece em Sevilha, na Espanha, no final de junho.
Para Letícia, a pauta de gênero será um dos grandes assuntos da Conferência na Espanha, principalmente em relação a como avançar em temas como a economia do cuidado. “Em Geledés, a gente tem feito um grande esforço para articular todas essas discussões. Pensamos a nossa estratégia de incidência a partir de todos eesses espaços, como a CSW, SB62, a Conferência de Desenvolvimento para o Financiamento e a própria COP30″, completa.
Os desafios de defender os direitos das mulheres negras em debates internacionais
O Geledés acumula mais de dez anos de incidência política a nivel internacional. De acordo com a assessora, a organização tem defendido historicamente que o Brasil precisa se responsabilizar pela agenda racial por conta do seu contingente populacional. Apesar disso, Letícia comenta que a agenda não é exclusiva do Brasil, uma vez que o racismo não é uma questão nacional, e sim, global.
Nesse sentido, um dos esforços de Geledés é à articulação na aprovação do stakeholder group de afrodescendentes. De acordo com a assessora, o o grupo trata-se de “um mecanismo de participação da sociedade civil junto à ONU, que nos traz essa oportunidade de criar uma maior articulação entre a sociedade civil afrodescendente global. Obviamente, considerando as questões de gênero e como a gente relaciona isso com essas outras agendas. É um grande desafio, mas está colocado para nós como uma agenda de trabalho”.
COP30: Brasil e os avanços (ou não) da agenda racial
Com a proximidade da COP30, que acontece em novembro em Belém (PA), as organizações negras continuam seu trabalho de incidência frente às manifestações e compromissos do governo brasileiro. Parte dessa estratégia considera conscientizar embaixadores em relação ao papel do país enquanto nação com histórico escravocrata e que precisa de políticas públicas para garantir a democracia.
Na questão climática não é diferente. Para isso, Geledés atua há mais de três anos em COPs para que o Brasil se comprometa na agenda racial dentro da pauta de clima. Na avaliação de Letícia, o Brasil, em um primeiro momento, se comprometeu em vocalizar a agenda racial, mas se comprometeu muito pouco em fazer articulações estratégicas para que a mesma avançasse.
Por outro lado, um dos avanços é a participação de um representante de estado em reuniões bilaterais e no processo de averiguação dos entraves. Em Bonn, Vanessa Dolce de Faria, alta representante para temas de gênero do Itamaraty, se uniu a organizações negras brasileiras para ouvir suas demandas.
“Eu acho que um diferencial desse ano é a presença da embaixadora Vanessa Dolce Faria, que é alta representante para assuntos de gênero, com um papel central, que é o que a gente tem reivindicado do Estado brasileiro, que é fazer reuniões bilaterais e articulações para entender quais as resistências dos países em relação a determinadas agendas, principalmente nas de raça e gênero”.
Na oportunidade, Vanessa comentou sobre os desafios e o seu papel dentro da agenda de clima como representante da pasta de gênero. Além disso, ela citou a importância do diálogo com as organizações para avançar na pauta racial em âmbito internacional.