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Geledés faz articulação internacional para defesa da agenda de raça e gênero na COP30

Em entrevista, a assessora internacional Letícia Leobet defende a necessidade de uma abordagem interseccional que inclua gênero, raça, território e idade nas discussões sobre o clima
Letícia Leobet, assessora internacional do Geledés Instituto da Mulher Negra

Letícia Leobet, assessora internacional do Geledés Instituto da Mulher Negra

— Ester Sena/Geledés

27 de junho de 2025

Durante a 62ª sessão dos Órgãos Subsidiários (SB62), que ocorreu em Bonn, na Alemanha, entre os dias 16 e 26 de junho, a assessora internacional do Geledés Instituto da Mulher Negra, Letícia Leobet, conversou com a Alma Preta sobre as agendas internacionais que a organização acompanha.  Dentro da pauta de gênero, a assessora contou como as conferências internacionais possuem relação mesmo que não estejam tão interligadas e como a organização faz para acompanhar e realizar as incidências

Na agenda climática, a Conferência de Bonn e a 30ª edição da Conferência das Partes (COP30) fazem parte de um processo isolado da ONU. O Geledés enxerga outras agendas das Nações Unidas como complementares, a exemplo do encontro de Financiamento para o Desenvolvimento, da Comissão do Estatuto da Mulher (CSW) e, principalmente, da Agenda de Desenvolvimento Sustentável.

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Para Letícia, a agenda de gênero teve e terá momentos importantes a nível global em 2025. “A CSW foi o primeiro encontro deste ano, que apesar de não termos tido retrocessos, não conseguimos ter avanços em relação à uma linguagem que seja significativa para as mulheres afrodescendentes”, avalia.

Já no caso da SB62, que tem um apelo específico à questão climática, a assessora explica que a agenda de gênero tem uma oportunidade de avançar  uma vez que na COP30 uma das negociações será a implementação do novo plano de ação de gênero. “Na Conferência de Bonn, participam os estados membros e os constituintes, principalmente o de gênero e de juventude. No momento, estamos revisando como foi o plano encerrado em 2024, pensando sobre o que precisa ser atualizado a partir das ações já existentes e refletindo sobre novas ações para essa perspectiva de dez anos do item de ação de gênero e clima”, explica.

Segundo Letícia, o principal desafio na agenda é a ampliação de gênero para uma abordagem mais interseccional, que caiba território, etnia, raça, idade, entre outros marcadores sociais. “É preciso pensar como a agenda de gênero se torna mais coerciva com outras agendas, como por exemplo transição justa, adaptação climática e financiamento – principalmente na parte de implementação”, pondera.

Para ela, esse vínculo entre as agendas é muito importante para organização, uma vez que há o debate conjunto entre direitos humanos e negociações climáticas. “A partir desse workshop sai um documento inicial preparado pelo secretariado e pelas facilitadoras, que vai subsidiar as discussões do plano de ação que acontecem na COP30″, explica.

Para além da pauta de crise climática, o debate de gênero acontece em um cenário global de discussões sobre a reforma da arquitetura financeira. Como materialidade desse processo a nível internacional, explicita-se a Conferência de Financiamento para o Desenvolvimento da ONU, que acontece em Sevilha, na Espanha, no final de junho. 

Para Letícia, a pauta de gênero será um dos grandes assuntos da Conferência na Espanha, principalmente em relação a como avançar em temas como a economia do cuidado. “Em Geledés, a gente tem feito um grande esforço para articular todas essas discussões. Pensamos a nossa estratégia de incidência a partir de todos eesses espaços, como a CSW, SB62, a Conferência de Desenvolvimento para o Financiamento e a própria COP30″, completa. 

Os desafios de defender os direitos das mulheres negras em debates internacionais 

O Geledés acumula mais de dez anos de incidência política a nivel internacional. De acordo com a assessora, a organização tem defendido historicamente que o Brasil precisa se responsabilizar pela agenda racial por conta do seu contingente populacional. Apesar disso, Letícia comenta que a agenda não é exclusiva do Brasil, uma vez que o racismo não é uma questão nacional, e sim, global. 

Nesse sentido, um dos esforços de Geledés é à articulação na aprovação do stakeholder group de afrodescendentes. De acordo com a assessora, o o grupo trata-se de “um mecanismo de participação da sociedade civil junto à ONU, que nos traz essa oportunidade de criar uma maior articulação entre a sociedade civil afrodescendente global. Obviamente, considerando as questões de gênero e como a gente relaciona isso com essas outras agendas. É um grande desafio, mas está colocado para nós como uma agenda de trabalho”.

COP30: Brasil e os avanços (ou não) da agenda racial 

Com a proximidade da COP30, que acontece em novembro em Belém (PA), as organizações negras continuam seu trabalho de incidência frente às manifestações e compromissos do governo brasileiro. Parte dessa estratégia considera conscientizar embaixadores em relação ao papel do país enquanto nação com histórico escravocrata e que precisa de políticas públicas para garantir a democracia. 

Na questão climática não é diferente. Para isso, Geledés atua há mais de três anos em COPs para que o Brasil se comprometa na agenda racial dentro da pauta de clima. Na avaliação de Letícia, o Brasil, em um primeiro momento, se comprometeu em vocalizar a agenda racial, mas se comprometeu muito pouco em fazer articulações estratégicas para que a mesma avançasse.

Por outro lado, um dos avanços é a participação de um representante de estado em reuniões bilaterais e no processo de averiguação dos entraves. Em Bonn, Vanessa Dolce de Faria, alta representante para temas de gênero do Itamaraty, se uniu a organizações negras brasileiras para ouvir suas demandas.

“Eu acho que um diferencial desse ano é a presença da embaixadora Vanessa Dolce Faria, que é alta representante para assuntos de gênero,  com um papel central, que é o que a gente tem reivindicado do Estado brasileiro, que é fazer reuniões bilaterais e articulações para entender quais as resistências dos países em relação a determinadas agendas, principalmente nas de raça e gênero”. 

Na oportunidade, Vanessa comentou sobre os desafios e o seu papel dentro da agenda de clima como representante da pasta de gênero. Além disso, ela citou a importância do diálogo com as organizações para avançar na pauta racial em âmbito internacional. 

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  • Elaine Silva

    Possui formação em Administração de empresas e Gestão Financeira na UNIESP e Anhembi Morumbi, é responsável pela análise, gestão, controle contábil, planejamento estratégico de negócios, desenvolvimento institucional e captação de recursos para organizações e empresas. Fundadora da Black Adnetwork, Sócia Diretora da Alma Preta Jornalismo, Cofundadora do Instituto Fala, Conselheira Titular do Conselho Nacional Pela Igualdade Racial (CNPIR), Conselheira Consultiva nas organizações Tornavoz, Alafia, Sleeping Giants e DiversaCom. Diretora financeira nas empresas: Instituto Matizes, Diver.ssa e Nós Mulheres da Periferia.

  • Victor Oliveira

    Jornalista formado pela Unesp e pós-graduando em Jornalismo Digital. Atualmente é Gerente de Projetos da Alma Preta Jornalismo.

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