O Instituto Consulado da Mulher, em co-realização com a ENGIE Brasil e apoio do Instituto Be.Labs, lançou em março a segunda edição da pesquisa “Nanoempreendedora em Foco: Identidade e o Paradoxo da Autonomia”.
O estudo mergulha na realidade de 120 mil nanoempreendedoras, grupo formado por trabalhadoras informais que possuem receita bruta anual inferior a R$ 40,5 mil, valor que corresponde a metade do teto anual dos microempreendedores individuais (MEIs).
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De acordo com a pesquisa, 71% das nanoempreendedoras no Brasil são mulheres negras, que enfrentam uma corrida de obstáculos onde a linha de chegada é, muitas vezes, apenas a subsistência.
“O Brasil é um país movido por esses lares e por essas mulheres”, afirmou Priscila Gusson, gerente sênior de ESG da Whirlpool, criadora e mantenedora principal do Instituto Consulado da Mulhe.
O recorte de raça é fundamental para entender o que a pesquisa chama de stick floor (chão pegajoso). Diferente do “teto de vidro” que limita as executivas, o chão pegajoso é a força que prende a mulher na base da pirâmide.
“Qualquer coisinha pode puxar de volta: um filho doente, a economia que piora ou uma dor física. É preciso muita força para se soltar desse piso”, explicou a pesquisadora Carol Zaine, uma das palestrantes do evento de lançamento da pesquisa.
O trabalho do cuidado
Para 75% das entrevistadas pela pesquisa, o empreendedorismo não foi uma escolha de carreira inspirada por inovação, mas uma imposição da necessidade. O estudo aponta a consolidação desse negócio como pilar familiar: 49% das mulheres têm no empreendimento a principal fonte de sustento da casa.
Em um cenário onde 83% das famílias vivem com até três salários mínimos, o “fazer” manual, que ocupa 70% da amostra entre alimentação, costura e artesanato, é o que garante o prato na mesa.
O “Paradoxo da Autonomia”, que dá nome ao estudo, revela-se na gestão do tempo. A pesquisa mostra que 60% das mulheres não cogitam voltar ao regime CLT, mas não por uma liberdade idílica.
O estudo revela também que a escolha pelo trabalho doméstico é uma estratégia de sobrevivência diante da falta de redes de apoio: 85% possuem filhos e 52% cuidam de crianças em idade escolar. Sem creches ou escolas em tempo integral, o nanoempreendedorismo é a única forma de conciliar o sustento com a maternidade universal do grupo.
Contudo, essa autonomia cobra um preço alto. Cerca de 56% das mulheres afirmam trabalhar hoje mais do que se tivessem carteira assinada. Enquanto a média nacional de trabalho de cuidado não remunerado é de 21,3 horas semanais, estas nanoempreendedoras dedicam 35 horas semanais apenas às tarefas domésticas.
É o que os economistas chamam de “produção conjunta”: a mulher produz para fora enquanto cuida de dentro. A sexta-feira surge como o ápice dessa exaustão, sendo o dia de maior carga horária para atender encomendas de bolos e doces para o final de semana.

Esgotamento físico e mental
Durante o evento de lançamento da pesquisa, a psicóloga Maria José refletiu sobre o conceito de saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS). “Saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social. Se saúde for isso, eu não sei vocês, mas eu diria que eu não estou em condição de saúde nesse momento”, provocou.
Os números validam o cansaço: 59% das nanoempreendedoras enfrentam problemas de saúde mental, como ansiedade e estresse crônico, durante a gestão do negócio. No campo físico, a situação é igualmente crítica: 46% das mulheres empreendem convivendo com limitações físicas ou dores crônicas.
“Ficar muito tempo de pé e o movimento repetitivo geram dores em 61% delas, afetando coluna, pescoço e braços”, detalhou Zaine. Para quem trabalha com as mãos, a dor não é apenas um sintoma, é um risco direto à continuidade do negócio.
Neste isolamento do “empreender em casa”, a religiosidade assume um papel que vai além do espiritual. Para 92% das mulheres, a fé é a âncora para enfrentar as dificuldades.
A igreja aparece como o principal nó de sua rede de “saúde social”: é o único lugar onde essas trabalhadoras socializam, encontram apoio emocional e, estrategicamente, divulgam os seus serviços. Para 53% delas, o templo é também o seu mercado de vendas.
Leia mais: Organização de mulheres negras aponta lacunas raciais em Plano Nacional de Cuidados
A economista Ana Fava destacou que a invisibilidade é a maior inimiga das políticas públicas. Quase metade (44%) das mulheres não é formalizada, muitas vezes por medo do fisco ou pela complexidade de sistemas que exigem reconhecimento facial e certificados digitais que elas não dominam.
A profissional alertou para a falta de segurança social: “Como essa mulher se recupera de uma lesão se o sustento depende exclusivamente do seu fazer diário?”. Sem amparo previdenciário, a nanoempreendedora vive no limite da vulnerabilidade.
Oportunidades fazem a diferença
Apesar do cenário desafiador, o estudo comprova que o investimento focado nestas mulheres gera resultados tangíveis.
Programas como o “Empreende no Zap” e o “Efeito Furacão” mostram que 70% das participantes aumentaram a renda após a formação. Mais do que lucro, há um ganho de identidade.
Uma das frases mais marcantes colhidas na pesquisa resume a transformação necessária: “O ponto mais impactante foi entender que não sou incompetente, e sim sobrecarregada”.