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Mulheres negras sofrem negligência médica e têm maior risco de infarto

Episódio especial do podcast Papo Preto discute negligência no atendimento cardiovascular de mulheres negras, com participação de especialistas e relatos de pacientes
Ilustração de uma mulher negra em tons de cinza com um olho em destaque, sobre fundo bege com folhagens.

Ilustração de uma mulher negra em tons de cinza com um olho em destaque, sobre fundo bege com folhagens.

— Lucas Silva/Alma Preta

26 de novembro de 2025

A saúde cardiovascular das mulheres negras e a forma como a medicina historicamente ignora a dor dessa população é o tema do novo episódio do Papo Preto, podcast da Alma Preta, lançado nesta quarta-feira (26) e disponível nas principais plataformas de streaming, incluindo o Spotify.

Desta vez, quem assume a apresentação é a gerente criativa, Carol Moreno, em um episódio que faz parte de uma série de conteúdos desenvolvidos pela agência, sobre a Marcha das Mulheres de 2025, que tem como tema central “Reparação e Bem-viver”. 

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As convidadas são Janaina Magalhães, da área de atendimento hospitalar; Cristina Maria Campos, professora alfabetizadora aposentada; Dayse Fortes, cabeleireira e visagista; Gláucia Moraes, cardiologista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); e Raíssa Okoro, médica em residência de Medicina da Família e Comunidade.

O episódio traz dados recentes da Rede D’Or que acendem um alerta, embora os infartos sejam mais frequentes entre homens, são as mulheres que mais morrem. Em 2025, uma em cada nove mulheres atendidas após um ataque cardíaco não resistiu.

Para a cardiologista Gláucia Moraes, da UFRJ, isso revela uma falha histórica da medicina. “Um terço das mulheres morre por doença cardiovascular, cinco vezes mais do que todos os cânceres”, afirma. 

A especialista explica que a combinação entre sintomas atípicos e a dificuldade de reconhecimento por parte dos profissionais faz com que muitas pacientes cheguem tarde demais ao tratamento.

Os relatos das convidadas reforçam como esse atraso costuma ser ainda maior quando se trata de mulheres negras. Janaína Magalhães conta que precisou insistir para ser atendida mesmo com sinais evidentes de infarto. 

Segundo Magalhães, ao chegar à UPA, um segurança apontou uma cadeira de rodas sem oferecer ajuda, enquanto funcionários demonstravam desconfiança sobre a gravidade da situação. “Eu estava mal e parecia que ninguém acreditava”, lembra. O cateterismo só foi feito no dia seguinte, após a confirmação do infarto.

A médica Raíssa Okoro explica que esse tipo de negligência não é exceção. A especialista diz que a ideia de que mulheres negras suportam mais dor continua influenciando condutas dentro dos serviços de saúde. “Presumir que uma mulher negra aguenta mais dor é uma violência”, afirma. 

Para Okoro, a formação médica brasileira, pouco diversa e centrada em referenciais brancos, contribui para que profissionais não reconheçam pacientes negras como prioritárias ou sequer como pessoas que precisam ser ouvidas.

A história da professora Cristina Maria Campos evidencia como o racismo atravessa diagnósticos. Mesmo com dores fortes no peito e baixo desempenho em exames, ela ouviu de um médico — que a acompanhava havia anos — que “não era nada”. 

Campos conta que uma profissional chegou a justificar achados suspeitos com a frase de que “pessoas negras têm coração maior”, um mito racista que já foi usado historicamente para naturalizar doenças e desumanizar pacientes. O diagnóstico de insuficiência cardíaca só veio quando ela buscou outra avaliação.

Dayse Fortes também enfrentou resistência para ser ouvida. Durante a gestação de gêmeos, ela dizia ao obstetra que não conseguia subir nem dez degraus. As queixas foram tratadas como “cansaço normal de gravidez”, mesmo com seu histórico familiar e sinais de sobrecarga. Anos depois, descobriu que havia desenvolvido miocardite. “Se tivessem investigado, eu não teria passado pelo risco que passei”, afirma.

Fatores sociais agravam o cenário, já muitas dessas mulheres acumulam jornadas extensas, sustentam famílias e têm menos acesso à prevenção. Ao mesmo tempo, encontram um sistema de saúde que questiona suas queixas e relativiza suas dores.

Para romper esse ciclo, as convidadas destacam a importância de aumentar a presença de profissionais negros na saúde. Janaína diz acreditar que teria sido tratada de forma mais cuidadosa se houvesse um médico ou enfermeiro negro na equipe que a atendeu. Raíssa reforça que a mudança precisa ser estrutural. “Já passou da hora de transformar a forma como cuidamos da população negra.”

Ficha técnica 

O episódio foi dirigido e apresentado por Carol Moreno, comunicóloga com experiência consolidada em projetos audiovisuais de impacto social e premiada em festivais como Cannes 2025 e no Clube de Criação, com atuação voltada à criação de campanhas, séries e conteúdos que conectam jornalismo, cultura e representatividade negra. 

O roteiro e reportagem ficaram a cargo de Aline Oliveira, jornalista e roteirista, mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), com experiência em veículos como AzMina, Alma Preta Jornalismo, Audible, Rolling Stone Brasil, Folha de S. Paulo, Valor Econômico e Marie Claire, além de coordenação de conteúdos digitais e estratégias de branded content. 

A direção musical, montagem e mixagem foram realizadas por Sabrina Teixeira Novaes, pedagoga com formação técnica em audiovisual, atuante como sonoplasta e captadora de som direto, com experiência em podcasts, documentários, longas e peças publicitárias para plataformas e marcas como Canal OFF, Globoplay, Salon Line, Heineken, Baw, Trident e Dux.

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  • A Alma Preta é uma agência de notícias e comunicação especializada na temática étnico-racial no Brasil.

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