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Ataques epiléticos e cardíacos: líder comunitário relata os impactos do maior massacre do Rio de Janeiro

Em entrevista, Raull Santiago relata o medo vivido por moradores da Penha e do Alemão durante a operação que matou ao menos 100 pessoas na Zona Norte do Rio
Um veículo blindado da Polícia Militar é visto através da janela de um carro incendiado que fazia parte de uma barricada montada durante operação na favela Vila Cruzeiro, no complexo da Penha, no Rio de Janeiro, Brasil, em 28 de outubro de 2025.

Um veículo blindado da Polícia Militar é visto através da janela de um carro incendiado que fazia parte de uma barricada montada durante operação na favela Vila Cruzeiro, no complexo da Penha, no Rio de Janeiro, Brasil, em 28 de outubro de 2025.

— Mauro Pimentel/AFP

29 de outubro de 2025

Na madrugada desta quarta-feira (29), moradores do Complexo da Penha e do Alemão recuperaram mais de 60 corpos, mortos durante o massacre mais letal da história do estado do Rio de Janeiro. Até o momento, a ação soma ao menos 100 mortos, número que ainda pode aumentar. 

Os corpos começaram a ser retirados em uma área de mata, no alto da Serra da Misericórdia, e em outras regiões. Apesar do aumento, a contagem oficial de 64 mortes confirmadas pelo governo do Rio ainda não foi atualizada. 

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Segundo a Polícia Civil, a operação deflagrada na terça-feira (28) contou com 2,5 mil policiais civis e militares do Comando de Operações Especiais, de unidades operacionais da PM e agentes de todas as delegacias especializadas. O comunicado do órgão informa que pelo menos 81 pessoas foram presas. 

Além da letalidade, moradores denunciaram abordagens violentas, prisões, invasão e destruição de residências. Em um dos relatos, uma mulher filma uma grande mancha de sangue no chão da sala e uma parede derrubada.

Em entrevista à Alma Preta, o líder comunitário e  diretor do Instituto Papo Reto, Raull Santiago, critica a política bélica do governador Cláudio Castro (PL), que, segundo ele, não surte efeitos reais e deixa marcas profundas na população periférica.

“Mais uma vez a gente vê a favela sangrando, mais uma vez a gente faz contagens cada vez maiores de corpos caídos, executados, entre moradores, entre pessoas talvez envolvidas com o mundo da ilegalidade, entre policiais, então a gente tem ali um governo que dá entrevista pública, falando de sucesso, de vitória, diante de algo que executou dezenas de pessoas, nada disso faz sentido”, explica.

Santiago, que também é fundador do instituto, conta que, durante o massacre, diversos moradores e moradoras entraram em contato pedindo ajuda. Em um dos casos, uma mãe pedia auxílio para o filho, que sofreu um ataque de epilepsia em decorrência do pânico. Também houve casos de pessoas idosas sofrendo infartos.

“A gente tem movimento das mães de crianças PCDs e autistas pedindo socorro diante do que isso desperta nas crianças. Fora a totalidade das crianças que ficaram sem aula, das pessoas que não foram para os seus trabalhos, da quantidade de coisas perdidas na rotina comum de quem é pobre e luta para conseguir o básico e ainda tem a vida atravessada dessa forma, né?”, relata.

O líder comunitário destaca que, para a gestão de Castro, o massacre foi considerado um sucesso. Para ele, a utilização dos complexos para as operações são usadas como estratégia para passar a falsa sensação de tranquilidade à população.

“Esse dado mostra o quão caótica, desgovernada e sem estratégia é a política de segurança do estado do Rio de Janeiro. O mais doloroso disso tudo é que nesse modus operandi e no período que a gente se encontra, é impossível ligar isso à realidade de que no ano que vem é eleição e que já há um movimento tentando chamar a atenção de candidatos e candidatas nessa disputa”, avalia.

Na terça-feira, a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, do Ministério Público Federal (MPF), e a Defensoria Pública da União (DPU) oficiaram o governador solicitando informações detalhadas sobre a forma que o direito à segurança pública foi promovido na operação.

As entidades pedem que Castro explique as finalidades da ação, os custos envolvidos e a comprovação da inexistência de outro meio menos danoso para combater o crime organizado.

O MPF também pediu informações sobre o cumprimento das exigências do Supremo Tribunal Federal (STF) descritas na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como “ADPF das Favelas”.

População pobre paga a escalada de violência com suas vidas, diz parlamentar

Em nota à imprensa, a deputada estadual Dani Balbi (PCdoB-RJ) ressalta que o massacre penaliza as populações pobres, negras e periféricas e representa uma política de extermínio sistemática das periferias.

“Sob a tutela do governador Cláudio Castro prevalece o espetáculo da morte: a cada operação, um fuzil, um corpo, um silêncio cúmplice. A letalidade protege a narrativa de que “algo está sendo feito”, enquanto falha gravemente em garantir vida, direitos, educação, saúde, emprego – que são os verdadeiros fundamentos da segurança humana”, declara. 

A parlamentar solicita a prestação de contas do governo do estado, incluindo a identificação dos mortos e sobreviventes, quais foram os superiores responsáveis por autorizar a ação e qual foi a participação de cada corporação policial.

“Mais do que investigar, é preciso desmantelar o pacto de violência institucional que abraça a retórica da “guerra ao tráfico” sem tocar nas verdadeiras causas da criminalidade – a extrema pobreza, a desigualdade histórica, a negação de futuro para a juventude periférica”, complementa.

Entidades denunciam massacre à ONU

Após o massacre, na noite da terça-feira, organizações da sociedade civil e do movimento negro se reuniram para apresentar uma denúncia formal à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). 

O documento alerta para o descumprimento de medidas determinadas pela CIDH, como a criação de políticas públicas para redução da letalidade policial e o controle externo da atividade das forças de segurança.

A denúncia é assinada pelo Instituto Marielle Franco, pelaCoalizão Negra por Direitos, pelo Centro Pela Justiça e o Direito Internacional, pela Justiça Global, pelo Fórum Popular de Segurança Pública e pela Rede Nacional de Mães e Familiares de Vítimas do Terrorismo do Estado. 

Em nota, a Coalizão Negra por Direitos apontou que, além das mortes, há relatos de desaparecidos, feridos e dezenas de prisões. A entidade reconhece a ação como a maior chacina do estado e declara que ela representa uma expressão da política genocida e racista da segurança pública no Brasil. 

“A operação não é uma estratégia de combate ao crime e garantia da segurança da população fluminense, mas sim um massacre estatal em territórios de maioria negra e pobre”, diz trecho do comunicado.

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  • Verônica Serpa

    Formada em Jornalismo pela UNESP e caiçara do litoral norte de SP. Acredito na comunicação como forma de emancipação para populações tradicionais e marginalizadas. Apaixonada por fotografia, gastronomia e hip-hop.

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