Na madrugada desta quarta-feira (29), moradores do Complexo da Penha e do Alemão recuperaram mais de 60 corpos, mortos durante o massacre mais letal da história do estado do Rio de Janeiro. Até o momento, a ação soma ao menos 100 mortos, número que ainda pode aumentar.
Os corpos começaram a ser retirados em uma área de mata, no alto da Serra da Misericórdia, e em outras regiões. Apesar do aumento, a contagem oficial de 64 mortes confirmadas pelo governo do Rio ainda não foi atualizada.
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Segundo a Polícia Civil, a operação deflagrada na terça-feira (28) contou com 2,5 mil policiais civis e militares do Comando de Operações Especiais, de unidades operacionais da PM e agentes de todas as delegacias especializadas. O comunicado do órgão informa que pelo menos 81 pessoas foram presas.
Além da letalidade, moradores denunciaram abordagens violentas, prisões, invasão e destruição de residências. Em um dos relatos, uma mulher filma uma grande mancha de sangue no chão da sala e uma parede derrubada.
Em entrevista à Alma Preta, o líder comunitário e diretor do Instituto Papo Reto, Raull Santiago, critica a política bélica do governador Cláudio Castro (PL), que, segundo ele, não surte efeitos reais e deixa marcas profundas na população periférica.
“Mais uma vez a gente vê a favela sangrando, mais uma vez a gente faz contagens cada vez maiores de corpos caídos, executados, entre moradores, entre pessoas talvez envolvidas com o mundo da ilegalidade, entre policiais, então a gente tem ali um governo que dá entrevista pública, falando de sucesso, de vitória, diante de algo que executou dezenas de pessoas, nada disso faz sentido”, explica.
Santiago, que também é fundador do instituto, conta que, durante o massacre, diversos moradores e moradoras entraram em contato pedindo ajuda. Em um dos casos, uma mãe pedia auxílio para o filho, que sofreu um ataque de epilepsia em decorrência do pânico. Também houve casos de pessoas idosas sofrendo infartos.
“A gente tem movimento das mães de crianças PCDs e autistas pedindo socorro diante do que isso desperta nas crianças. Fora a totalidade das crianças que ficaram sem aula, das pessoas que não foram para os seus trabalhos, da quantidade de coisas perdidas na rotina comum de quem é pobre e luta para conseguir o básico e ainda tem a vida atravessada dessa forma, né?”, relata.
O líder comunitário destaca que, para a gestão de Castro, o massacre foi considerado um sucesso. Para ele, a utilização dos complexos para as operações são usadas como estratégia para passar a falsa sensação de tranquilidade à população.
“Esse dado mostra o quão caótica, desgovernada e sem estratégia é a política de segurança do estado do Rio de Janeiro. O mais doloroso disso tudo é que nesse modus operandi e no período que a gente se encontra, é impossível ligar isso à realidade de que no ano que vem é eleição e que já há um movimento tentando chamar a atenção de candidatos e candidatas nessa disputa”, avalia.
Na terça-feira, a Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão, do Ministério Público Federal (MPF), e a Defensoria Pública da União (DPU) oficiaram o governador solicitando informações detalhadas sobre a forma que o direito à segurança pública foi promovido na operação.
As entidades pedem que Castro explique as finalidades da ação, os custos envolvidos e a comprovação da inexistência de outro meio menos danoso para combater o crime organizado.
O MPF também pediu informações sobre o cumprimento das exigências do Supremo Tribunal Federal (STF) descritas na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635, conhecida como “ADPF das Favelas”.
População pobre paga a escalada de violência com suas vidas, diz parlamentar
Em nota à imprensa, a deputada estadual Dani Balbi (PCdoB-RJ) ressalta que o massacre penaliza as populações pobres, negras e periféricas e representa uma política de extermínio sistemática das periferias.
“Sob a tutela do governador Cláudio Castro prevalece o espetáculo da morte: a cada operação, um fuzil, um corpo, um silêncio cúmplice. A letalidade protege a narrativa de que “algo está sendo feito”, enquanto falha gravemente em garantir vida, direitos, educação, saúde, emprego – que são os verdadeiros fundamentos da segurança humana”, declara.
A parlamentar solicita a prestação de contas do governo do estado, incluindo a identificação dos mortos e sobreviventes, quais foram os superiores responsáveis por autorizar a ação e qual foi a participação de cada corporação policial.
“Mais do que investigar, é preciso desmantelar o pacto de violência institucional que abraça a retórica da “guerra ao tráfico” sem tocar nas verdadeiras causas da criminalidade – a extrema pobreza, a desigualdade histórica, a negação de futuro para a juventude periférica”, complementa.
Entidades denunciam massacre à ONU
Após o massacre, na noite da terça-feira, organizações da sociedade civil e do movimento negro se reuniram para apresentar uma denúncia formal à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).
O documento alerta para o descumprimento de medidas determinadas pela CIDH, como a criação de políticas públicas para redução da letalidade policial e o controle externo da atividade das forças de segurança.
A denúncia é assinada pelo Instituto Marielle Franco, pelaCoalizão Negra por Direitos, pelo Centro Pela Justiça e o Direito Internacional, pela Justiça Global, pelo Fórum Popular de Segurança Pública e pela Rede Nacional de Mães e Familiares de Vítimas do Terrorismo do Estado.
Em nota, a Coalizão Negra por Direitos apontou que, além das mortes, há relatos de desaparecidos, feridos e dezenas de prisões. A entidade reconhece a ação como a maior chacina do estado e declara que ela representa uma expressão da política genocida e racista da segurança pública no Brasil.
“A operação não é uma estratégia de combate ao crime e garantia da segurança da população fluminense, mas sim um massacre estatal em territórios de maioria negra e pobre”, diz trecho do comunicado.