PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Segurança de mercado acusado de matar homem negro pode ir a júri popular

Companheira da vítima relata viver um período difícil desde o crime, ocorrido em agosto de 2025; supermercado se exime da responsabilidade e nega motivação racial
O artista independente Felipe Moraes, assassinado na última terça-feira (26).

O artista independente Felipe Moraes.

— Reprodução/Redes Sociais

18 de março de 2026

Um homem amável e bem-quisto. É assim que Evelyn Maria da Silva descreve o companheiro, Felipe Moraes de Oliveira, morto aos 29 anos por um segurança do supermercado J.L.L, no Jardim Estádio, em Santo André, região metropolitana de São Paulo, no dia 26 de agosto de 2025.

Segundo a denúncia do Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), ao qual a Alma Preta obteve acesso, o segurança Milton Miranda Filho atirou em Felipe após uma discussão com ele, que havia tentado entrar no estabelecimento acompanhado de seu cachorro. A vítima ainda tentou buscar socorro em uma farmácia ao lado, mas não resistiu aos ferimentos.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

O segurança foi preso em outubro e a expectativa de Evelyn e da defesa da família da vítima é que ele seja levado à júri popular e também seja responsabilizado com o supermercado.

Assassinato teve motivação racial, aponta denúncia

A advogada Luana Franca Amorim informou que dois processos simultâneos tramitam no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJSP): uma ação penal contra o segurança e uma de responsabilização civil contra o Supermercado J.L.L LTDA.

“O caso demonstra nitidamente que houve um homicídio com motivo torpe, com o uso de uma ferramenta completamente desnecessária para o momento, que culminou na morte dele”, diz a defesa da família da vítima, em entrevista.

Na denúncia, o MPSP reforça a motivação racial e compreende o episódio como fruto do racismo institucional e estrutural, resultando em impactos para toda a comunidade negra. 

No momento, Milton aguarda o resultado da audiência de pronúncia, em que a juíza decidirá se o caso seguirá para o julgamento pela Corte ou pelo Tribunal do Júri. 

O Ministério Público solicita que o caso seja julgado a partir do Protocolo de Justiça Racial do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), documento utilizado como guia de combate ao racismo no judiciário brasileiro. Para o órgão, a conduta do acusado revelou desprezo pela vida humana e viés discriminatório.

No depoimento à Polícia Civil do Estado de São Paulo, Milton declara ter esquecido o local onde deixou a arma do crime.

“Não é normal que, em supermercados, o cliente termine morto pelos seguranças por não saberem como lidar com o seu racismo”, afirma Amorim.

Leia mais: Mercado popular em SP acumula processos por agressão cometida por seguranças contra negros

Defesa do supermercado deslegitima a vítima

Em petição, o supermercado J.L.L LTDA acusou Evelyn de não ser companheira legítima da vítima, questionou a autenticidade da ação e pediu seu indeferimento. A defesa do estabelecimento ainda desqualificou os documentos apresentados, negando ter relação com qualquer ato ilícito. A tese de motivação racial também é negada pelo supermercado.

“Inicialmente, cumpre ressaltar que a autora é parte ilegítima para figurar na presente demanda, sendo certo que no vertente caso almeja direitos individuais sem sequer comprovar nenhum dos requisitos autorizadores para tanto”, diz a abertura da petição da defesa. 

De acordo com o documento, o supermercado se exime da responsabilidade sob a justificativa de que houve uma discussão antes do assassinato, sem motivo conhecido. A defesa indica que o disparo do segurança ocorreu em decorrência da atitude da própria vítima. 

“Caso se entenda pela ocorrência de dano – hipótese remota –, este decorreu de culpa exclusiva de terceiro e/ou dos próprios envolvidos ante a provável desavença anterior, circunstância que afasta integralmente qualquer pretensão indenizatória”.

A advogada que representa a família da vítima recorda que, à época, o estabelecimento não prestou nenhum apoio à Evelyn. O contato entre as partes foi realizado exclusivamente pelas vias judiciais.

Leia mais: Lesão corporal é o crime mais cometido por seguranças privados em São Paulo

Felipe era apaixonado pela vida

Artista visual, músico, percussionista, capoeirista e candomblecista, Felipe é descrito pela companheira como uma pessoa que gostava muito de viver.  “Ele era uma pessoa com tanto brilho, com tanta vontade de viver, uma pessoa incrível. Ele conseguia criar laços com as pessoas e era extremamente apaixonado pela vida”, recorda Evelyn.

Emocionada, ela relata estar vivendo um período difícil desde a morte do companheiro e buscado conforto com sua família de santo. 

“É muito difícil. Eu tenho tido esse lugar de acolhimento com os meus irmãos de santo, sobretudo, e a gente sempre retoma situações que a gente viveu com o Felipe. É uma tristeza que não tem nem como você colocar em palavras, é o banzo mesmo, sabe?”, desabafa.

Segundo o laudo médico anexado ao processo, Evelyn enfrenta um quadro clínico compatível com o luto traumático, com sintomas de ansiedade, crises de pânico, prejuízo de sono e outros impactos na saúde.

O apoio dos amigos, familiares e daqueles que se comoveram com o caso tem sido fundamental para sua recuperação. No perfil no Instagram intitulado “Justiça para Felipe Moraes”, eles defendem que a vítima não representava nenhum tipo de ameaça.

“Eu nem tenho palavras para agradecer tanta pessoa maravilhosa, acho que só a espiritualidade mesmo para explicar. Isso está sendo fundamental, todo esse apoio, principalmente no início. Foi esse apoio que me levou para frente também”, conclui Evelyn.

A Alma Preta tentou contato com as defesas de Milton Miranda Filho e do Supermercado J.L.L, mas não obteve retorno de nenhuma delas até o momento. O espaço segue aberto para manifestações. 

Edição: Nataly Simões

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Verônica Serpa

    Formada em Jornalismo pela UNESP e caiçara do litoral norte de SP. Acredito na comunicação como forma de emancipação para populações tradicionais e marginalizadas. Apaixonada por fotografia, gastronomia e hip-hop.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano