Pesquisar
Close this search box.
Pesquisar
Close this search box.

Vítima da Rota na Operação Verão, jovem trabalhava como entregador de colchão

Jovem havia trabalhado pela manhã no mesmo dia em que foi executado; família nega que Davi Gonçalves portava uma arma
Duas fotos de Davi Gonçalves. Jovem negro morto pela polícia na Baixada Santista. Em uma das imagens, ele está sentado, uma bermuda clara e uma camisa vermelha. Na outra, ele está em pé e sem camisa.

Foto: Acervo da família de Davi Gonçalves

11 de março de 2024

Davi Gonçalves havia trabalhado como entregador de colchão durante a manhã e a tarde do dia 7 de fevereiro, na mesma data em que foi morto com tiros a queima roupa pelos policiais Tiago Morato Maciel e Nielson de Araujo Guedes, da Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota), batalhão da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

A incursão faz parte da Operação Verão, que desde dezembro de 2023 foi intensificada na Baixada Santista e já resultou na morte de 39 pessoas.

Segundo o Boletim de Ocorrência, a Rota invadiu a casa de Hildebrando Simão, colega de Davi, por volta das 18h45, quando os policiais localizaram e revistaram as pessoas que estavam na sala. Na sequência, foram para os quartos, onde estavam os jovens, e no primeiro cômodo encontraram Hildebrando, que recebeu entre dois e três tiros. No segundo quarto se depararam com Davi Gonçalves, que também foi baleado com dois ou três disparos.

Os policiais alegaram que os dois estavam armados e por isso efetuaram os disparos à queima roupa. Segundo o atestado de óbito, a morte foi causada por uma “hemorragia interna”, por ferimentos nas regiões do peito e abdômen causados por projéteis de arma de fogo.

Baleado por policiais da Rota, Hildebrando tem deficiência visual

Os policiais da Rota afirmam ter apreendido um fuzil no local, armamento vinculado a Hildebrando Simão no Boletim de Ocorrência. O caso do jovem chamou atenção pelo fato do rapaz ter deficiência visual e a polícia, mesmo assim, ter afirmado que ele apontou uma arma para os agentes de segurança.

A Alma Preta visitou o local do crime e ainda é possível ver os buracos de tiros de fuzil e armas de menor calibre nas paredes, bem como manchas de sangue em alguns tijolos e no antigo piso da área.

As famílias de Hildebrando e Davi negam que os dois estavam armados. De acordo com os relatos, ambos jogavam videogame e eram amigos. Davi Gonçalves costumava visitar o colega depois do expediente.

Davi trabalhava como entregador de colchões

O empregador de Davi afirmou que buscava o funcionário todo dia para o trabalho. Naquela manhã, às 8h10 os dois se encontraram para dar início ao expediente. Davi entregava na residência das pessoas colchões comprados e era descrito pelos colegas como um “cara bem humorado”, que “não reclamava” do emprego, e “um rapaz esforçado que estava tentando conquistar seus objetivos”.

No dia do ocorrido, o jovem terminou o expediente às 16h. Ele relatou ao patrão que precisava ir para casa depois do trabalho. Os familiares contam que ele chegou na residência por volta das 17h, tomou banho e foi visitar o amigo, Hildebrando.

A reportagem teve acesso às imagens do jovem carregando colchão em uma subida para entregar a compra de um cliente da companhia. O registro foi feito em novembro de 2023, segundo os colegas de profissão.

Os familiares de Davi contam que o sonho do jovem era guardar dinheiro para tirar uma carta de habilitação e comprar uma moto. “A gente está sofrendo muito. É uma dor que não tem como explicar. Eu sei que ele não vai voltar mais. A gente quer justiça, estamos sofrendo demais. Ele era um jovem trabalhador de 20 anos”, relatam.

Para eles, Davi também foi vítima por ser um jovem negro. “A maioria das pessoas têm sempre um preconceito. Eles não podiam fazer isso com nenhum dos dois”.

Um levantamento feito pela Alma Preta mostra que 78% dos mortos na Baixada Santista durante os períodos de operações policiais, como a Escudo e a Verão, são pessoas negras.

Em nota, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) afirmou que o caso é investigado pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Praia Grande e pela Polícia Militar, com acompanhamento do Ministério Público e do Poder Judiciário. A pasta diz que “os laudos periciais foram concluídos e serão encaminhados aos autos do processo após análise da autoridade responsável”.

Segundo a SSP-SP, os “policiais apuravam uma denúncia de tráfico de drogas e dois homens reagiram apontando armas em direção aos PMs, que intervieram. O Samu foi acionado e os suspeitos conduzidos ao hospital, onde passaram por atendimento, mas não resistiram aos ferimentos. Além das armas dos suspeitos, no local também foi apreendido um fuzil calibre .556”.

  • Pedro Borges

    Pedro Borges é cofundador, editor-chefe da Alma Preta. Formado pela UNESP, Pedro Borges compôs a equipe do Profissão Repórter e é co-autor do livro "AI-5 50 ANOS - Ainda não terminou de acabar", vencedor do Prêmio Jabuti em 2020 na categoria Artes.

Leia Mais

Quer receber nossa newsletter?

Destaques

AudioVisual

Podcast

EP 153

EP 152

Cotidiano