Policiais negros representam a maior parte das mortes registradas entre policiais civis e militares no Brasil. Em 2025, 61,8% dos agentes mortos eram negros, enquanto 38,2% eram brancos. O levantamento também mostra que a violência letal continua concentrada sobre homens em idade produtiva, com 98,2% das vítimas sendo do sexo masculino e quase dois terços tendo entre 30 e 49 anos.
Os dados fazem parte do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, publicado nesta quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
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O estudo registrou 139 Mortes Violentas Intencionais (MVI) de policiais civis e militares em 2025. Entre as vítimas, a maioria era negra, masculina e tinha entre 30 e 49 anos, perfil que também aparece de forma recorrente entre as vítimas da violência letal no país.
Embora a vitimização letal de policiais tenha diminuído ao longo da série histórica, o levantamento mostra que a desigualdade racial permanece presente dentro das corporações. Ao mesmo tempo, o Anuário identifica uma mudança no perfil dessa vitimização. Pelo nono ano consecutivo, o suicídio superou os registros de agentes mortos em confrontos e fora do serviço.
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Desigualdade racial atravessa as corporações
Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o fato de seis em cada dez policiais mortos serem negros evidencia que as desigualdades raciais presentes na sociedade brasileira também atravessam as corporações policiais.
O relatório afirma que o perfil racial dos agentes mortos acompanha a composição das vítimas da violência letal no país. Ainda que ocupem posições distintas na dinâmica da segurança pública, policiais negros também estão expostos aos efeitos de um contexto marcado pela violência e pela desigualdade.
Os dados reunidos pelo Anuário mostram que o debate sobre a proteção da vida dos policiais envolve não apenas estratégias de enfrentamento ao crime, mas também políticas voltadas à saúde mental, à prevenção do suicídio e às condições de trabalho nas corporações.
Para o Fórum, a redução das mortes de policiais depende também de ações voltadas à prevenção do suicídio, à ampliação do acesso à assistência psicossocial, ao fortalecimento de políticas de saúde ocupacional e ao enfrentamento das desigualdades que atravessam as corporações.
Leia mais: Negros seguem como maioria entre mortos pela polícia e policiais vitimados
Saúde mental expõe desafios das corporações
Além do recorte racial, o Anuário aponta que o suicídio permanece como a principal causa de morte entre policiais civis e militares no país. Pelo nono ano consecutivo, o suicídio superou as mortes em confrontos e ocorrências fora do serviço.
Em 2025, 110 agentes tiraram a própria vida. No mesmo período, 59 policiais morreram fora de serviço em decorrência de crimes violentos e 29 morreram em confrontos durante o exercício da função.
Embora o número de suicídios tenha apresentado redução de 8,3% em relação a 2024, o fenômeno permanece como a principal causa de morte entre policiais civis e militares.
Desde 2017, quando o Fórum passou a acompanhar esse indicador, as mortes violentas de policiais caíram 63,7%, enquanto os casos de suicídio cresceram 37,8%. Para os pesquisadores, a diferença entre as curvas revela uma mudança no perfil da mortalidade entre agentes e indica que o principal risco à vida dos policiais não está apenas na atividade operacional.
Para o Fórum, os dados mostram que a proteção da vida dos policiais exige ampliar o debate para além do confronto armado. O relatório associa esse cenário às condições de trabalho, à exposição permanente à violência, inclusive durante os períodos de folga, e à necessidade de fortalecer políticas de atenção à saúde mental dos profissionais.
O ambiente policial, como é relatado, ainda valoriza padrões de comportamento associados à resistência emocional e à disposição permanente para o confronto.
Nesse contexto, manifestações de sofrimento costumam ser interpretadas como sinal de fragilidade, o que dificulta a busca por ajuda e contribui para manifestações de exaustão, ansiedade, depressão, transtorno de estresse pós-traumático ou outros agravos relacionados ao trabalho tendem a ser silenciadas ou ocultadas pelos próprios profissionais.
Leia mais: Assédio, racismo e suicídio: as pressões sofridas por policiais no trabalho
Violência também afeta policiais fora do serviço
As mortes registradas pelo Anuário mostram que o risco enfrentado pelos agentes não se limita ao período de trabalho.
Dos 88 policiais vítimas de homicídio ou latrocínio em 2025, 59 estavam fora de serviço. O dado mostra que a violência contra policiais também ocorre fora do horário de serviço e reforça que a exposição ao risco não se limita ao exercício da atividade policial.
As mortes por arma de fogo responderam por 88,3% dos casos registrados em 2025. Entre as mortes violentas, o homicídio doloso concentrou 79,4% dos registros, seguido pelo latrocínio, com 19,6%.