Entre 2020 e 2025, a Baixada Fluminense registrou 5.298 operações policiais, que resultaram em 282 mortos, 652 feridos, 5.783 pessoas presas e 41 adolescentes apreendidos. Os números são do relatório lançado nesta sexta-feira (24) pela Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial (IDMJRacial), organização da sociedade civil que atua no enfrentamento à violência de Estado.
A publicação, chamada “Operações policiais na Baixada Fluminense/RJ”, aponta que, embora a tendência da série histórica relacionada a esses números seja decrescente, a presença da polícia nesses territórios não se tornou menos ostensiva e violenta.
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Analisando cada ano, o que mais teve ocorrências de operações policiais na Baixada foi 2022, com 1.486 casos, um aumento de 188% em relação ao ano anterior, que teve 515 operações (em 2020 houve 348 operações). Em 2023, o número caiu para 1.233, e a baixa se repetiu em 2024 (1.061 ações) e em 2025 (654).
O relatório destaca, ademais, o aumento exponencial de operações realizadas pela Polícia Civil. A Polícia Militar concentra a maioria dessas ações (86%), mas foi possível verificar que, em 2024, a Polícia Civil registrou número 614% maior de operações realizadas em comparação a 2020.
Das delegacias especializadas da Polícia Civil, a Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) lidera em número de operações, com 64 no total, seguida pela Delegacia de Roubos e Furtos (DRF), com 48 incursões, e pela Delegacia de Atendimento à Mulher (Deam), com 38.
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Batalhões mais letais e territórios mais invadidos
Segundo o ranking de letalidade da Polícia Militar, o 15º Batalhão da Polícia Militar (BPM), localizado em Duque de Caxias, foi responsável pelo maior número de operações na baixadas, com 1.289 ações, 71 mortes e 142 feridos em apenas cinco anos.
O 20º BPM, que atende Mesquita, Nova Iguaçu e Nilópolis, fica em segundo, com 1.034 incursões, 51 mortos e 156 feridos, e o 39º BPM, de Belford Roxo, fica em terceiro, com 569 operações, número bem menor que o segundo lugar, mas com letalidade bem próxima, tendo registrado 45 mortes e 120 feridos.
No campo territorial, Duque de Caxias lidera entre os municípios da Baixada com mais vítimas, com 66 mortos e 160 feridos, seguido por Belford Roxo (48 mortos e 127 feridos), São João de Meriti ( 41 mortos e 77 feridos) Nova Iguaçu ( 29 mortos e 85 feridos) e Japeri (28 mortos e 70 feridos). São 13 os municípios que formam a Baixada Fluminense e, entre 2020 e 2025, nada menos que 75% das mortes registradas na região ocorreram nestes cinco municípios.

O estudo salienta que, como não há acompanhamento do estado de saúde das vítimas feridas, não é possível saber se houve mais mortes, após o registro na delegacia, ou se houve sobreviventes que tiveram apoio ambulatorial e hospitalar.
Para a pesquisadora da IDMJRacial, Kharine Gil, “os números evidenciados no relatório demonstram qual é o modus operandi do Estado nos territórios favelados e periféricos”.
Para ela, que também é assistente social, mestre em Sociologia e doutoranda pelo pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), “é preciso ver além da propaganda sobre as operações policiais na segurança pública e entender o que elas trazem de fato para a população submetida a esse tipo de ação violenta e, até, saber se elas são efetivas dentro do que elas mesmas se propõem”.
Maioria das armas apreendidas é de porte médio
O relatório aponta, ainda, que, de 2020 a 2025, a apreensão de fuzis em operações policiais significou apenas 5,5% do total de confiscos. Pistolas (21%) e rádio comunicadores (19,9%) figuram como os itens mais recorrentes nas apreensões. Diante disso, o estudo questiona a proporcionalidade das operações e o nível de força dos agentes de segurança, que deixaram centenas de mortos e feridos, a partir do que é majoritariamente apreendido, armas de porte médio.
Em relação aos veículos confiscados pela Polícia, as motocicletas (60%) predominam. Carros representam 20% do total, seguido por caminhões (15%) e vans (5%). Como no caso das armas, estes dados apontam para uma desproporcionalidade no uso da força pelos agentes do Estado em comparação aos resultados concretos obtidos, visto que a maioria dos veículos apreendidos também é de pequeno porte e não há indícios de desmontes de estruturas logísticas nevrálgicas do tráfico.
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Quase 6 mil presos em 5 anos
Entre 2020 e 2025, foram efetuadas 5.783 prisões durante incursões — em 2024, registrou-se o pico de 1.516 presos. O Rio de Janeiro possui, atualmente, a terceira maior população carcerária do Brasil com 47 mil detentos e 62% das prisões foram feitas exclusivamente pela Polícia Militar, com o 20º BPM liderando como o batalhão mais ativo nessa ação.
O dossiê anotou também quantos adolescentes foram apreendidos: 41 jovens, entre 2020 e 2025, tendo essas apreensões disparado em 2025, somando 31 casos. Entre os municípios, Belford Roxo, único da Baixada que possui Unidade Socioeducativa para medida privativa de liberdade, é o que mais teve registros desse tipo nos cinco anos analisados.
É destacada também, entre as medidas do Estado para com a Baixada, a Operação Barricada Zero, que prevê a remoção de barricadas — no período estudado houve 267 operações exclusivas para esse fim.
O estudo aponta que a narrativa de enfrentamento à violência tem sido utilizada em detrimento de um projeto de avanço da militarização desses territórios, aliada à expansão da urbanização com obras públicas de pavimentação, drenagem, saneamento básico e pavimentação asfáltica que pretendem a valorização imobiliária da área e, por conseguinte, a expulsão de moradores e moradoras da região.
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