PUBLICIDADE

Negros têm 3,5 vezes mais risco de morrer em ações policiais, aponta Anuário de Segurança Pública

Estudo revela recorde de mortes decorrentes de intervenções policiais e mostra que a população negra permanece como a principal vítima da letalidade do Estado
Imagem mostra silhuetas de corpos desenhadas ao chão.

Imagem mostra silhuetas de corpos desenhadas ao chão.

— Fernando Frazão/Agência Brasil

24 de julho de 2026

Em um cenário de redução das Mortes Violentas Intencionais (MVI) no Brasil, a letalidade policial seguiu trajetória oposta e atingiu o maior patamar da série histórica. Em 2025, 6.602 pessoas morreram em decorrência de intervenções de policiais civis e militares, alta de 5,4% em relação ao ano anterior. O número representa 16,2% de todas as mortes violentas registradas no país, o equivalente a uma em cada seis vítimas. 

Ao mesmo tempo, a desigualdade racial nesse tipo de ocorrência aumentou. No mesmo período, pessoas negras tiveram risco 3,5 vezes maior de morrer em ações policiais do que pessoas brancas. Os dados constam no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, publicado na quinta-feira (23) pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). 

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

O levantamento mostra que a taxa de mortes decorrentes de intervenções policiais entre pessoas negras chegou a 3,5 por 100 mil habitantes em 2025, enquanto entre pessoas brancas permaneceu em 1,0 por 100 mil. 

Em relação ao ano anterior, a taxa entre negros cresceu, enquanto a observada entre brancos permaneceu estável, o que ampliou a distância entre os dois grupos.

Sobre o perfil das vítimas, o relatório aponta que homens representam 97% das pessoas mortas em intervenções policiais. A concentração também ocorre entre jovens, 46% das vítimas tinham entre 20 e 29 anos. 

Os dados reforçam um padrão que se mantém ao longo da série histórica. Segundo Leonardo de Carvalho Silva, autor do capítulo sobre letalidade policial do Anuário, há “a manutenção de um perfil que vem sendo apontado por este Anuário há anos”.

Leia mais: Seis em cada 10 policiais mortos no Brasil são negros, revela Anuário de Segurança Pública

Letalidade policial cresce mesmo com queda de mortes violentas

O crescimento da letalidade policial relatada pelo Anuário ocorreu em um contexto no qual o país registrou queda das MVI. Segundo o documento, em 2025, o Brasil contabilizou 40.775 vítimas de homicídio doloso, latrocínio, lesão corporal seguida de morte e mortes decorrentes de intervenção policial, contra 44.220 no ano anterior. 

Apesar dessa redução, o número de pessoas mortas por agentes do Estado aumentou e alcançou o maior volume desde o início da série histórica, em 2016. Entre 2016 e 2025, o total de mortes decorrentes de intervenções policiais cresceu 55,7%.

Na prática, isso significa que a participação da letalidade policial nas mortes violentas do país nunca foi tão elevada. Em 2014, quando o conceito de Mortes Violentas Intencionais passou a ser adotado pelo FBSP, a participação das mortes causadas por policiais era inferior à registrada atualmente. Em 2025, ela alcançou 16,2%, a maior proporção da série.

O relatório relaciona esse cenário à Operação Contenção,  realizada em outubro no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro. A ação terminou com 122 mortes, das quais 117 eram civis e cinco policiais e é considerada pelo FBSP a operação policial mais letal já registrada no país, superando o Massacre do Carandiru, de 1992.

Segundo o Anuário, os dados revelam que as mortes provocadas por policiais permanecem como uma realidade estrutural da segurança pública brasileira, mesmo em um cenário de redução da violência letal em outras categorias. O relatório destaca que a persistência desse crescimento impõe desafios ao controle do uso da força pelo Estado e ao monitoramento das ações policiais.

Leia mais: Baixada Fluminense registra mais de 5 mil operações policiais em 5 anos; Duque de Caxias lidera em mortes

Estados apresentam cenários distintos

Embora o aumento da letalidade policial tenha ocorrido em nível nacional, os dados mostram diferenças entre os estados.

Em números absolutos, a Bahia registrou 1.570 mortes decorrentes de intervenção policial em 2025, seguida por São Paulo, com 835, e Rio de Janeiro, com 798. Quando o indicador considera a população, o Amapá apresentou a maior taxa do país, com 17,1 mortes por 100 mil habitantes pelo sétimo ano consecutivo. Bahia, Sergipe e Pará também aparecem entre os estados com as maiores taxas.

O relatório aponta ainda crescimento expressivo em estados como Rondônia, Maranhão, Alagoas e Rio Grande do Norte. Em Rondônia, por exemplo, o número de mortes decorrentes de intervenções policiais passou de oito para 47 casos entre 2024 e 2025, aumento de 485,6%.

Outro indicador evidencia a participação da polícia na violência letal de cada estado. Em Sergipe, 38% de todas as Mortes Violentas Intencionais decorreram de intervenções policiais em 2025. No Amapá, esse percentual chegou a 40,2%. Bahia registrou 28,7%; Goiás, 29,6%; Paraná, 26,1%; Pará, 25,5%; São Paulo, 23,1%; e Rio de Janeiro, 20,5%.

Controle do uso da força em ações policiais

Além dos números, o Anuário dedica parte do capítulo à discussão sobre mecanismos de controle da atividade policial. O documento afirma que o crescimento da letalidade e os casos de infiltração do crime organizado em instituições públicas representam desafios simultâneos para a política de segurança.

Na avaliação do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o enfraquecimento dos mecanismos de controle interno e externo favorece tanto o uso inadequado da força quanto a atuação de organizações criminosas dentro das estruturas estatais. 

O documento defende instrumentos de supervisão, transparência e produção de provas, como as câmeras corporais, para ampliar a responsabilização de agentes que atuem fora dos limites legais e proteger policiais que ajam de acordo com os protocolos.

Leia mais: Jovens negros propõem políticas para reduzir letalidade policial

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano