Instituído pela lei 14.940, de 2024, o Dia Nacional do Funk, celebrado em 12 de julho, marca o reconhecimento oficial de um dos movimentos culturais mais expressivos do país. Nascido nas favelas do Rio de Janeiro, o funk ascendeu dos bailes para as plataformas digitais, influenciando moda, comportamento e linguagem em todo o Brasil.
Para os artistas da cena, a data consagra conquistas, mas também explicita os desafios ainda enfrentados diante do estigma e da exclusão. MC Rebecca, TZ da Coronel e FP do Trem Bala são alguns dos nomes que comemoram o avanço simbólico, mas apontam que o preconceito contra o gênero, seus artistas e fãs permanece.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
As trajetórias desses músicos revelam como o funk se consolidou como ferramenta de ascensão social, afirmação identitária e crítica à desigualdade, mesmo sendo frequentemente alvo de censura e criminalização.
“O incômodo é quando ocupamos espaços”
“A gente cresceu ouvindo que funk era coisa errada. Hoje, é o que sustenta famílias, enche estádio e muda vidas. Isso é revolução”, lembra TZ da Coronel. O artista destaca o contraste entre o sucesso do gênero e o incômodo social que isso ainda provoca. “O problema não é o carro, é quem está no volante. Quando o moleque da quebrada chega de nave, usando Lacoste ou relógio de grife, incomoda”, afirma. Para ele, o avanço dos artistas periféricos em espaços historicamente reservados às elites continua sendo visto como uma afronta.
Na mesma linha, FP do Trem Bala observa que o preconceito se adapta. Mesmo diante da popularidade das músicas, persiste a deslegitimação quando os artistas conquistam autonomia financeira e simbólica.
“As pessoas dançam o som, mas se incomodam quando nos veem em restaurantes caros ou viajando”, diz o cantor. Nascido em Ilhéus (BA), ele representa uma nova geração de artistas que leva o ritmo a palcos de projeção nacional.
Para FP, o preconceito ultrapassa o Funk e atinge, principalmente, todos os que estão envolvidos neste meio. “O problema nunca foi o gênero musical, mas quem está produzindo e consumindo”, aponta.
Protagonismo feminino e enfrentamento ao machismo
O funk também abriu espaço para que mulheres negras assumam o microfone e redefinam as narrativas do gênero. MC Rebecca se destacou ao propor um discurso em que o desejo feminino não é mais objeto, mas sujeito da música. Com hits que colocam o prazer da mulher no centro, ela foi alvo de críticas, mas segue firme.
“Fui muito atacada. Mas sei que hoje muitas mulheres se sentem mais empoderadas por causa dessas músicas”, compartilha.
Para a artista, a liberdade dos homens no funk contrasta com a vigilância constante sobre as mulheres. “Os homens falam o que querem, na altura que querem, e ninguém questiona. Quando uma mulher faz o mesmo, é chamada de tudo.”
Rebecca cresceu no Morro São João, no Rio de Janeiro, e tem usado sua carreira para tensionar padrões impostos pelo machismo e pela indústria musical. Seus hits, como “Cai de Boca“, abriram caminho para novas narrativas no gênero.