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Dona Ivone Lara: 102 anos da dama do samba

Sambistas e artistas negras resgatam a trajetória da cantora, que também contribuiu para a psiquiatria no Brasil

Colagem: Dora Lia | Foto: Wilton Montenegro

Foto: Colagem: Dora Lia | Foto: Wilton Montenegro

12 de abril de 2023

“Me deixa caminhar a minha vida livremente. O que desejo é pouco pois não duro eternamente”. O trecho da canção ‘Minha Verdade’, do disco ‘Samba, Minha Verdade, Samba, Minha Raiz’, traduz a essência de uma das grandes sambistas e compositoras do país, Dona Ivone Lara, que nesta quinta-feira completaria 102 anos.

Mulher preta, cantora, letrista e enfermeira por mais de 30 anos, Yvonne Lara da Costa, grafia original do seu nome, enfrentou as barreiras impostas pelo racismo e machismo para realizar o sonho de ser sambista. Antes de ter o seu nome conhecido, Ivone Lara passou anos no anonimato e suas composições eram apresentadas nas escolas de samba pelos primos por conta da discriminação.

Foi só aos 44 anos que Dona Ivone ganhou o seu reconhecimento ao se tornar a primeira mulher a integrar a ala de compositores da escola de samba Império Serrano, em 1965. Naquele ano, a escola foi vice-campeã do carnaval carioca com o samba-enredo ‘Os Cinco Bailes Tradicionais da História do Rio’, composição dela com Silas de Oliveira e Bacalhau.

A partir dali, a cantora segue o sonho de ser artista e, em 1978, lança o primeiro disco ‘Samba, Minha Verdade, Samba, Minha Raiz’. Nos anos seguintes, lançou sucessos que marcaram a música brasileira, como ‘Sonho Meu’, ‘Um sorriso negro’ e ‘Acreditar’.

PRIMEIRO DISCO DONA IVONE 1978Capa do álbum “Samba, minha verdade, samba, minha raiz” (1978) | Foto: Ricardo de Vicq

Assim como Dona Ivone Lara, a cantora e pesquisadora Adriana Moreira também nasceu rodeada pelo samba. Criada em uma família musical, a cantora passou a infância e adolescência na agremiação da Escola de Samba Camisa Verde e Branco, na Barra Funda (SP). A relação dela com Dona Ivone começou enquanto pesquisava a obra do mestre baiano Oscar da Penha, mais conhecido como Batatinha, amigo de Dona Ivone. A partir dali, viraram amigas e dividiram os palcos, quando Adriana trabalhava como backing vocal.

site ADRIANA MOREIRA Credito Joyce AguiarAdriana Moreira | Foto: Joyce Aguiar

Adriana conta sobre a relação de afeto que tinha com a artista e destaca o legado dela para as sambistas negras do país. “Dona Ivone vem depois de Tia Ciata e de tantas outras mulheres e derruba essa barreira. Ela adentrou todo esse universo, que infelizmente ainda é muito masculino, com muita classe mas com muita potência. Para nós, mulheres pretas, isso é um legado e a gente tem que seguir isso e adentrar os nossos espaços”, diz a cantora.

Além das rodas de samba

Antes de se dedicar exclusivamente ao samba, Ivone Lara trabalhou como enfermeira e assistente social. Por volta de 1947, ela se especializou em Terapia Ocupacional e durante anos trabalhou em hospitais psiquiátricos. Além disso, esteve à frente na defesa pela reforma psiquiátrica no Brasil, atuou no Serviço Nacional de Doenças Mentais junto com a doutora Nise da Silveira e foi uma das responsáveis pela implementação da terapia musical no país.

A relação de Dona Ivone com a saúde e com o samba é um dos pontos que atravessou a cantora baiana Laura Rigaud. Após cursar cinco semestres na faculdade de Psicologia, ela percebeu que precisava de algo mais e que a música era a parte mais importante da sua vida. A partir dali, decidiu largar o curso, se demitiu e passou a investir na sua carreira musical.

site laura rigaud samba de pretasLaura Rigaud | Foto: Divulgação/Acervo Pessoal

Vocalista do Samba de Pretas, grupo formado por mulheres negras, Laura Rigaud analisa que o maior aprendizado que teve diante da trajetória da Dona Ivone Lara foi não ter desistido dos seus sonhos.

“O maior ensinamento que ela deixou mesmo depois de 30 anos se dedicando à enfermagem, à assistência social, e na luta relacionada à psiquiatria no Brasil, foi não ter desistido do sonho dela e não ter deixado isso de lado por conta da idade ou do fato de não ter tantas mulheres no samba naquela época”, destaca.

“Quando eu estou em cima do palco vai passando um filme na minha cabeça da minha trajetória. É nesse momento que eu estou levando o que foi escrito por ela para a minha história”, comenta Laura Rigaud.

Um sorriso negro

Em 2018, ano do falecimento de Dona Ivone Lara, a história da primeira-dama do samba foi para os palcos de teatro. O musical ‘Dona Ivone Lara – Um Sorriso Negro’ divide a trajetória da artista em três fases e mostra como se deu a sua relação com a música diante dos preconceitos.

Com direção de Elísio Lopes, o espetáculo contou com a participação das atrizes Di Ribeiro, Heloísa Jorge e Fernanda Jacob, que representaram diferentes épocas da vida da Dona Ivone Lara.

Durante a preparação para o musical, a atriz Fernanda Jacob conta que buscou construir a sua interpretação da cantora também a partir da vivência de mulheres pretas da sua família, visto a semelhança das suas trajetórias.

“Eu pensei em não fazer uma caricatura da dona Ivone. Eu queria que elas também se sentissem representadas, porque quando eu fui descobrir a história dela, eu vi que não estava tão distante da história da minha mãe e da minha tia”, relembra a atriz.

site fernanda jacob credito Thais MallonFernanda Jacob | Foto: Thais Mallon

Para o processo de pesquisa, Fernanda Jacob teve acesso a familiares e acervos pessoais da Dona Ivone, como roupas de apresentações, o caderno de composições da artista e até uma de suas perucas. A atriz relata que uma das curiosidades que descobriu foi a vaidade da sambista.

“Eu acho que Dona Ivone passou por um período da vida dela, que é o início da carreira, se escondendo muito. Então, por ela ter a oportunidade de ser a protagonista da própria história, fazia com que ela tivesse uma vontade de se apresentar da melhor maneira possível pro público”, explica Jacob.

2 dona ivone lara arquivo pessoalDona Ivone Lara durante os anos 1970 | Foto: Arquivo pessoal

Fernanda Jacob analisa a importância de valorizar a história e a arte de mulheres negras, historicamente invisibilizadas pelo racismo e machismo. “Fazer Dona Ivone Lara me mostrou o quanto eu posso quebrar essas barreiras, o quanto eu posso dar um chute nessa porta como ela fez, sem perder a minha doçura também, sem deixar com que isso me mate diariamente”, afirma.

“Ela tinha essa energia de ser uma mulher preta vitoriosa e eu acho que isso está na gente. A mulher preta é revolucionária por natureza e a gente não pode esquecer isso porque a Dona Ivone sempre lembrava”, finaliza.

Homenagem

Com o título ‘Dona Ivone Lara: Axé’, o Sesc Mogi das Cruzes realiza uma programação especial e gratuita em comemoração à obra da artista. As atividades começam a partir do dia 13 de abril, data de seu aniversário, com uma série de espetáculos, exibições, intervenções, oficinas, além de shows com grandes nomes da música brasileira, como Fabiana Cozza, Ilessi, o músico Henrique Araújo e grupo regional de choro Sonho Meu, entre outros.

A cantora Adriana Moreira é uma das artistas que irá homenagear a Dona Ivone Lara com a apresentação do primeiro disco solo da sambista, o ‘Samba, Minha Verdade, Samba, Minha Raiz’, que neste ano completa 45 anos de lançamento. O show também irá contar com a participação especial da cantora e musicista Xeina Barros.

Segundo Moreira, a apresentação será feita na íntegra, com os arranjos originais do disco, lançado em 1978. “O show está muito muito dentro do roteiro, é a ordem certa do disco, os arranjos originais, os músicos fantásticos executando esse disco, a cantora que ama a dona Ivone Lara e que vai dar tudo nela com muita emoção e com as perninhas tremendo”, conta a cantora.

A programação segue até o dia 23 de abril e as atividades acontecem no Sesc Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo. Mais informações podem ser consultadas no site do Sesc.

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