Com uma visão diferenciada sobre o próprio território, 20 jovens da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro, registraram, pelas lentes das câmeras, o cotidiano do Complexo de Favelas em oficinas promovidas pela ONG Luta Pela Paz. O resultado das atividades integra a exposição “Olhares Negros”, que conta com minidoors distribuídos pelas ruas do conjunto de favelas até o dia 24 de dezembro. A iniciativa busca democratizar o acesso à arte.
A população pode encontrá-las em ruas como a Principal, São Jorge, Joaquim Nabuco, do Campo, Maçaranduba e Teixeira Ribeiro, onde fica a sede da Luta Pela Paz.
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Para Samantha Oliveira, uma das artistas da mostra, a exposição contribui para mudar a imagem estigmatizada da favela. “É um lugar onde também existe a exposição de obras artísticas, existe o levante de pessoas a fim de trazer cultura e arte para comunidade e de incentivar a esperança dos jovens do território”.
Representatividade e sensibilidade na fotografia
A mostra valoriza as narrativas e as perspectivas da juventude negra por meio da fotografia, promovendo a expressão artística, o reconhecimento de identidades e o resgate da memória coletiva da comunidade e da trajetória da ONG.
“Para mim, é extremamente importante participar da exposição com um autorretrato representando outras mulheres negras e trans como eu, e fortalecendo esse vínculo que a ONG Luta Pela Paz tem com as pessoas à margem da sociedade, as quais não têm sequer uma perspectiva de viver da arte, de fazer arte, de ser reconhecida através das suas obras”, comenta Samantha Oliveira, uma das integrantes do projeto.
A jovem, de 25 anos, natural do do Maranhão, foi para o Rio por causa da transfobia que vivia e da vontade de ocupar novos espaços. Foi ainda no Nordeste que conheceu a ONG, por meio da televisão. Em sua vida, a fotografia sempre teve um lugar especial e, por isso, decidiu participar do projeto.
Mudanças e aprendizados
As fotografias foram registradas durante as atividades do projeto. Para Gustavo “Gugah”, um dos alunos, o aprendizado transformou a vida da equipe e criou uma família.
“Entrei para o projeto Olhares Negros como um Gustavo e estou saindo como outro. Esse processo de três meses mudou todos nós, tanto alunos quanto os professores. Foi muito bonito, rico de conhecimento e histórico. Quando olhamos para trás, temos orgulho de nos ver, nos sentimos emocionados. É muito lindo.”
Ao longo de mais de 36 horas de aulas, os participantes foram estimulados a desenvolver a criatividade e a ampliar visões de futuro. A aluna Duda Braga afirma ter aprendido habilidades técnicas, mas, também, sobre sensibilidade.
“Me vejo, daqui para frente, com um olhar sensível, já sabendo presenciar e fotografar com o mesmo amor que eu estou vendo aquela cena. Transformar as vivências em imagens dá medo porque, muitas vezes, o que estamos vivendo, não conseguimos fotografar. Mas, quando eu tirei a foto que está na exposição, o sentimento que ela me transmitiu – e transmite até hoje – é de paz, tranquilidade e sabedoria”, comenta.