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Exposição em SP destaca atuação artística, religiosa e intelectual do Mestre Didi

No Itaú Cultural, em São Paulo, a mostra percorre cinco décadas da produção do artista-sacerdote de Salvador
Registro do artista-sacerdote Mestre Didi presente na exposição sobre seu legado no Itaú Cultural, em São Paulo.

Registro do artista-sacerdote Mestre Didi presente na exposição sobre seu legado no Itaú Cultural, em São Paulo.

— Divulgação/Itaú Cultural

4 de abril de 2026

O Itaú Cultural, em São Paulo, abre no dia 7 de abril a exposição “Mestre Didi – invenção e ancestralidade na arte afro-brasileira”, primeira grande mostra individual do artista no Brasil em mais de 15 anos. A mostra reúne 170 peças expostas, 50 delas são esculturas do mestre. 

Batizado como Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Mestre Didi nasceu em Salvador em 1917. Morreu na mesma cidade em 2013, passados 96 anos é conhecido nacional e internacionalmente como artista-sacerdote.

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Na abertura da exposição, o terreiro Ilê Asipá apresenta Oro Ojés, cerimônia tradicional realizada em todas as festividades do espaço fundado pelo próprio Didi, em Salvador. Na performance, os Ojés, sacerdotes da casa, entoam cantigas sagradas permitindo uma vivência da tradição. A mostra encerra em 5 de julho.

Didi não está só: às suas 50 obras escultóricas expostas somam-se livros, fotos, produções carnavalescas, esboços, anotações e cartas do acervo documental da Sociedade de Estudos da Cultura Negra no Brasil (SECNEB), fundada por ele e que está aos cuidados do Museu Afro Brasil Emanoel Araújo, além de materiais audiovisuais produzidos pela equipe do Itaú Cultural.

A mostra joga foco no diálogo traçado em sua obra com outros modernistas afro-brasileiros e artistas das gerações seguintes que beberam de sua fonte. São 16 – sete deles comissionados, como Nádia Taquary, Goya Lopes e cinco artistas do Ilê Asipá, onde Mestre Didi exerceu sacerdócio como Alapini.

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Uma versão desta exposição, chamada “Mestre Didi: spiritual form”, foi vista no Museo del Barrio, em Nova York, nos EUA, em 2025, com 30 esculturas de Mestre Didi e obras de artistas contemporâneos. A edição brasileira tem curadoria de Ayrson Heráclito e Rodrigo Moura, assistência curatorial de Tiago Sant’Ana e expografia assinada por Francine Moura. 

Ao reunir esculturas, arquivos e produções modernas e contemporâneas, a exposição atualiza o debate sobre a inserção de Mestre Didi no circuito da arte, destacando sua atuação como artista, pesquisador e sacerdote, e suas relações entre forma, rito e linguagem no contexto da arte brasileira.

“A obra de Mestre Didi parte de um conhecimento ancestral ligado à produção de importantes implementos litúrgicos, como o Ibiri e o Xaxará, relacionados ao culto dos orixás”, conta Moura em depoimento que pode ser visto na mostra.

“Ao inserir esses trabalhos no circuito da arte, a partir dos anos de 1960, ele passa a criar recombinações, introduzir novas simbologias, ampliar escalas e incorporar materiais, complexificando de maneira impressionante esse fazer”, explica, concluindo que a narrativa curatorial da mostra acompanha esses desenvolvimentos menos desvendados.

No mesmo audiovisual, Heráclito fala sobre os materiais utilizados por Didi em sua obra, como as folhas de dendezeiro, couro e os búzios. “São elementos de informação para a criação, mas além de um significado simbólico, esses materiais carregam um significado energético”, observa.

O ambiente expográfico organiza o percurso em ilhas assentadas sobre bases de terra, elemento associado ao universo simbólico religioso de Didi. Assim, aproxima instrumentos rituais das estratégias formais da escultura, propondo pontos de observação que cruzam dimensões materiais, históricas e linguísticas. 

Mestre Didi recebu o título de doutor honoris causa da Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1999. Foto: Divulgação/Itaú Cultural

Das formas sagradas ao conhecimento e coletividade nos caminhos de Mestre Didi

No prédio do Itaú Cultural, na Avenida Paulista, a exposição sobre o artista-sacerdote é dividida em nove núcleos temáticos: Formas sagradas, Orixás, Cetros, Modernismos afro-brasileiros, Novas direções, Bichos, Rituais, Legado e olórin tí a bí ní ilé Àsípà e Ajô: conhecimento e coletividade nos caminhos de Mestre Didi.

Formas sagradas

Muitos artistas são influenciados pelas formas sagradas do Candomblé e de seus muitos orixás, ou divindades, formas essas que constituem a base da linguagem escultórica de Mestre Didi.

Nos terreiros, os praticantes invocam os orixás usando objetos rituais imbuídos de simbolismo. Didi começou a produzir esses implementos ainda adolescente, com sua confirmação como sumo sacerdote, ou assogbá, do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá.

Dois dos formatos mais prevalentes na obra de Didi são os do xaxará e do ibiri. Ambos são feitos de feixes de nervuras de folhas de dendezeiro. O xaxará é usado como uma vassoura de mão por Obaluaê, divindade tanto da cura quanto da doença, para varrer elementos indesejados.

A forma em laço no topo do ibiri, por sua vez, evoca o útero de Nanã, deusa-mãe primordial associada à terra e às suas águas férteis.

No início da década de 1960, Didi passou a reconceber esses objetos, criando obras de arte que se afastavam das convenções rituais. A combinação do xaxará e do ibiri, vista em algumas das esculturas aqui reunidas, contempla a ligação entre o feminino e o masculino, a fertilidade e a mortalidade.

Orixás

No panteão dos orixás, cada divindade possui um símbolo identificador. Esses símbolos formam um rico léxico geométrico, compartilhado pelas religiões de origem iorubá do Atlântico Negro.

O corpus escultórico de Didi recombina essas formas em novas configurações, feitas com base nos atributos e nas mitologias dos orixás, intitulando essa obras em língua iorubá.

O cetro Opa Oba Ile Ati Ejo Meji – Cetro do Panteão da Terra (anos 1980) combina o ibiri de Nanã e o xaxará de Obaluaê com duas serpentes arqueadas, símbolos do gênero dual de Oxumaré e de sua capacidade de atravessar o céu e a terra. A representação unificada dessas três divindades invoca uma concepção holística da vida, da mortalidade e do divino.

Em outros momentos, Didi invoca os filhos de santo, os seguidores dos orixás, como na obra antropomórfica Iyawo Sango: Ose Ati Eye Meji – Sacerdotisa de Xangô com duplo machado e pássaros (2011), ou na mais esquemática Omo Oba Aye – Filho do Rei da Terra (anos 1980).

Cetros

Cetros são apetrechos habituais na prática do Candomblé. Normalmente produzidos com ferro, eles são reimaginados na obra de Mestre Didi, que adotava as nervuras de folhas de dendezeiro como base para a confecção das peças.

Enquanto seus primeiros trabalhos mantinham a escala menor e os formatos mais simples exigidos para o uso cerimonial, no fim da década de 1960 Didi passou a produzir cetros maiores e mais complexos, mais adequados à contemplação estética.

Títulos expressivos também enfatizam o rico simbolismo das esculturas-cetro. Obras como Iwin Igi N’la – Majestoso Ancestral da Árvore (anos 1980), cujos braços de ráfia significam tanto galhos quanto membros antropomórficos, evocam a conexão entre árvores e figuras ancestrais.

Esses desvios em relação às convenções responderam, em parte, às oportunidades de exposição das criações de Didi no Brasil e no exterior. No fim dos anos 1980 e durante a década de 1990, o sacerdote-artista instalou vários cetros de grande escala em espaços públicos urbanos, contrapondo-se à marginalização das histórias afro-brasileiras e subvertendo as frequentes narrativas imperialistas dos monumentos públicos.

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Modernismos afro-brasileiros

Artistas afro-brasileiros abraçaram legados culturais africanos na elaboração de novas linguagens visuais durante a segunda metade do século XX. Juntos, eles desafiaram a ideia de que a abstração é uma invenção do Modernismo europeu.

Com trajetórias paralelas à de Mestre Didi, muitos desses artistas participaram da cena cultural emergente de Salvador. Nas décadas de 1960 e 1970, o fervor social e intelectual da capital baiana foi além das artes visuais, estendendo-se para a literatura, a música, o teatro e as ciências sociais.

Diante da disseminação de preocupações quanto à melhor forma de alcançar uma modernidade distintamente brasileira, os artistas aqui apresentados adotaram diversas abordagens das estéticas negras da diáspora, recalibrando noções de identidade e autenticidade. Eles experimentaram diferentes graus de marginalização racial e de classe.

Alguns tiveram acesso à formação acadêmica, outros foram autodidatas. Enquanto alguns abraçaram estratégias formais associadas à pintura popular e à escultura devocional, outros se inseriram em tendências dominantes, como o Construtivismo e o Concretismo.

Novas direções

O uso inventivo de materiais naturais por Mestre Didi incluiu o emprego de estratégias formais, que enfatizam o valor conceitual da nervura das folhas de dendezeiro, do couro e dos búzios. Ráfias e cabaças transformam xaxarás em figuras humanoides dinâmicas, uma lembrança potente de que a fibra das folhas, como todos os materiais usados pelo artista, está imbuída de energia viva.

Em uma rara escultura figurativa de Didi, Guardião (década de 1970), um feixe de nervuras de folhas de dendezeiro sustenta uma cabeça e um torso de barro; já em Ohun-Áso (2007), cordões pendentes dessas mesmas fibras evocam trepadeiras e bromélias.

O artista empregou a folha de dendezeiro tanto como material de suporte quanto como motivo central em várias obras. Ope Awo Ibo – Palma Misteriosa do Mato (2011) apresenta ramos torcidos e sementes que brotam do manto central, evocando ciclos de regeneração.

A partir da década de 1970, Didi também usou as fibras dessas folhas, bem como peles de animais, para criar joias marcantes, aproximando sua obra do próprio corpo humano. Por extensão, esses ornamentos vestíveis evocam a estética da libertação negra, que se tornava cada vez mais presente na moda e na autorrepresentação das populações negras urbanas brasileiras.

Bichos

Animais como pássaros e serpentes aparecem com frequência na obra de Mestre Didi. Eles estão intimamente ligados aos orixás, alguns dos quais diretamente associados a espaços naturais por meio de um agrupamento cosmológico, ou panteão – como o panteão da Terra, o panteão da floresta e dos caçadores e o panteão da água.

Além dos animais, Didi explorou diferentes representações zoomórficas, moldando as fibras das folhas de dendezeiro em tentáculos ramificados ou antenas sondadoras, por exemplo, a fim de criar um bestiário dinâmico de formas.

Rituais

Ao longo de suas décadas de carreira, a fotógrafa Arlete Soares acumulou profundo conhecimento sobre o Candomblé e produziu um corpo de trabalho que carrega a influência de seu mentor, o fotógrafo e etnógrafo francês Pierre Verger, ao mesmo tempo que manifesta sensibilidade distinta.

Muitas das imagens aqui incluídas representam dois aspectos diferentes da prática do Candomblé: o culto matriarcal aos orixás e a veneração masculina aos egunguns, os espíritos dos ancestrais. A série Festa de Oxóssi documenta sacerdotisas reunidas no terreiro São Jorge Filho da Gomeia, em Salvador, vestidas de branco e adornadas com folhas, bandeirolas de papel e símbolos da divindade caçadora.

Junto com Mestre Didi, os escritores Jorge Amado e Zélia Gattai participaram da cerimônia registrada. Em contraste, uma imagem do terreiro Ilê Axé Opô Aganjú retrata a veneração aos egunguns, com seus trajes ornados e em camadas, que invocam os espíritos divinos dos ancestrais.

Essas vestimentas ricamente ornamentadas também são vistas na série Voduns, que Soares fotografou no Benin, na África durante um intercâmbio cultural Benin-Bahia, que ocorreu em 1986 e celebrou as conexões contínuas entre o Candomblé e as demais religiões de origem iorubá.

Legado e olórin tí a bí ní ilé Àsípà

Muitos artistas são influenciados pelos ensinamentos estéticos afro-brasileiros difundidos na obra de Mestre Didi. Fundada por ele em 1980, em Salvador, a Sociedade Cultural e Religiosa Ilê Axipá gerou criadores que atuam de acordo

com a noção de odara – conceito estético nagô segundo o qual não há distinção entre arte e sagrado, nem hierarquia entre objeto artístico e objeto utilitário.

Este núcleo da mostra – presente em diferentes pontos do espaço expositivo e em contato direto com os demais núcleos – reúne trabalhos que demonstram esse legado, como os de Goya Lopes, Nádia Taquary, Jorge dos Anjos e Ayrson Heráclito; esse último, por sua vez, convidou os dançarinos Negrizú e Inaicyra Falcão, filha de Didi, para integrarem o núcleo com seus trabalhos.

A seleção traz ainda cinco olórin tí a bí ní ilé Àsípà (artistas nascidos no Axipá): Antonio Oloxedê, neto de Didi; Ojé Maxodi; André Otun Laran; Edvaldo Bolaji e Kleyson Otun Elebogi – cujas obras constroem pontes dinâmicas entre saberes ancestrais e a contemporaneidade.

Ajô: conhecimento e coletividade nos caminhos de Mestre Didi

Na cultura iorubá, a noção de ajô está intimamente ligada a uma prática matricial de ajuda mútua. Um dos grandes responsáveis pela salvaguarda e divulgação dessa cultura no Brasil, Mestre Didi entendia que a coletividade é um dos caminhos para a transformação social e a busca por equidade.

Esta seção da mostra traz materiais que apontam para as redes construídas por Didi em seus diferentes campos de atuação – nas artes, na produção de conhecimento, no ativismo, na intelectualidade –, indicando a importância de sua trajetória para a inserção do Brasil no debate global sobre as culturas negras na contemporaneidade.

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