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Haroldo Costa deixa legado no teatro, na televisão e no samba

Falecimento de jornalista, ator e intelectual aos 95 anos marca a perda de figura histórica que atuou no Teatro Experimental do Negro (TEN) e levou a cultura brasileira a 25 países
O jornalista, ator e intelectual Haroldo Costa. Um homem negro, segurando um chapéu.

O jornalista, ator e intelectual Haroldo Costa. Um homem negro, segurando um chapéu.

— Reprodução/Redes Sociais

15 de dezembro de 2025

A morte do jornalista, ator, compositor, produtor, diretor e pesquisador Haroldo Costa, no último sábado (13), no Rio de Janeiro, encerrou uma trajetória que atravessou o teatro, o jornalismo, a televisão, a música e a história do Carnaval. Carioca do bairro de Piedade, na Zona Norte do Rio de Janeiro, ele construiu uma carreira ligada à valorização do samba, das escolas de samba e das expressões culturais negras no Brasil.

Costa atuou por décadas como analista do Carnaval e integrou, nos últimos anos, o corpo de jurados do Estandarte de Ouro, premiação concedida pelo jornal O Globo. Antes disso, participou da comissão julgadora da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), espaço no qual contribuiu para debates sobre critérios, memória e reconhecimento do samba como expressão cultural.

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A sua trajetória teve início no Teatro Experimental do Negro (TEN), grupo criado pelo militante antirracista Abdias do Nascimento. O TEN reuniu artistas e intelectuais negros em torno da afirmação cultural e do combate ao racismo no campo das artes cênicas. Nesse ambiente, Haroldo desenvolveu sua formação como ator e pesquisador.

Em 1956, foi protagonista da peça “Orfeu da Conceição”, de Vinicius de Moraes, com música de Antonio Carlos Jobim. O espetáculo marcou o início da parceria entre o poeta e o compositor e levou Haroldo Costa ao palco do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, feito que o colocou como o primeiro ator negro a protagonizar uma montagem naquele espaço. A produção contou com cenários assinados por Oscar Niemeyer e cartaz criado por Carlos Scliar.

Após a experiência no teatro, Haroldo Costa integrou o grupo que criou a companhia Brasiliana, formada por atores e dançarinos dedicados à difusão da cultura popular brasileira. Durante cinco anos, o grupo realizou uma turnê internacional que passou por 25 países da Europa e das Américas. A iniciativa apresentou danças, músicas e elementos da cultura popular brasileira em palcos estrangeiros e ampliou o alcance dessas expressões.

Essa experiência integrou a mostra “Haroldo Costa – Samba & Outras Coisas”, realizada pelo Sesi em 2011. Com a morte do artista, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro destacou, em nota, sua atuação como comunicador e produtor cultural e lembrou a exposição dedicada à sua trajetória.

Haroldo Costa junto de elenco do musical ‘Orfeu da Conceição’, que o levou ao Theatro Municipal. José Medeiros/IMS

Entre a atuação e a produção intelectual

Além do teatro, Haroldo Costa teve presença no cinema e na televisão como ator. Contracenou com artistas como Ruth de Souza, Grande Otelo e Milton Gonçalves. Em 1999, participou da minissérie “Chiquinha Gonzaga”, escrita por Lauro César Muniz, no papel de Raymundo da Conceição.

Segundo o projeto Memória Globo, um de seus últimos trabalhos na televisão ocorreu em 2012, na minissérie “Subúrbia”, de Paulo Lins e Luiz Fernando Carvalho, na qual interpretou o personagem Seu Aloysio.

No cinema, Haroldo também entrou para a história ao dirigir, em 1958, o longa-metragem “Pista de Grama” (ou o título alternativo,  “Um desconhecido bate à sua porta”), citado pelo escritor Nei Lopes como o primeiro filme de longa duração dirigido por um negro no país.

Como historiador e pesquisador, Haroldo Costa publicou 15 livros. Parte dessa produção dedicou-se à reflexão sobre identidade negra, cultura popular e samba. Entre as obras, destacam-se “Fala, crioulo – O que é ser negro no Brasil”, além dos títulos voltados à escola de samba Salgueiro, agremiação da qual era torcedor: “Salgueiro: Academia do Samba” (1984) e “Salgueiro: 50 anos de Glória” (2003). Esses livros se tornaram referência para estudos sobre escolas de samba.

Em 2023, Haroldo atuou como curador da exposição “Heitor dos Prazeres é meu nome”, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), trabalho que reafirmou sua atuação na preservação da memória cultural negra.

Carnaval, reconhecimento e homenagens

Filho de carnavalesco, Haroldo Costa construiu uma relação contínua com o Carnaval carioca. Agremiações carnavalescas como Imperatriz Leopoldinense, Estação Primeira de Mangueira e o Salgueiro manifestaram pesar por sua morte. A Liesa prestou homenagem relembrando a dedicação do jornalista ao samba e ao Carnaval.

O Ministério da Igualdade Racial (MIR) publicou nota de pesar celebrando a carreira e a intelectualidade antirracista de Haroldo Costa. O ministério afirmou que a trajetória se confunde com a história da luta antirracista e da valorização das expressões culturais afro-brasileiras. 

A deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ) disse em seus perfis nas redes sociais que Costa era “referência absoluta do samba, do carnaval e da intelectualidade negra”. O escritor Nei Lopes lembrou que Haroldo Costa foi o primeiro diretor negro de um longa-metragem brasileiro e o declarou como uma das suas maiores referências.

O velório do artista acontece nesta segunda-feira (15), no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, na Zona Portuária do Rio de Janeiro. O sepultamento está previsto para às 14h.

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  • Giovanne Ramos

    Jornalista multimídia formado pela UNESP. Atua com gestão e produção de conteúdos para redes sociais. Enxerga na comunicação um papel emancipatório quando exercida com responsabilidade, criticidade, paixão e representatividade.

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