O escritor, slammer e poeta Jordan concorre ao prêmio Mix Literário. O autor, nascido em Camaçari, na Bahia, e residente em São Paulo, poderá ganhar o coelho de prata pela obra “Coisa Feita – Dois Preto Apaixonado na Cama”, publicado pela Editora Reformatório. A premiação acontece neste domingo (23), às 17h, na Biblioteca Mário de Andrade, na capital paulista, durante o Festival Mix.
A obra, vencedora do Prêmio Caio Fernando Abreu de 2023, reúne poesias que percorrem diferentes períodos da história do Brasil para registrar a vivência homoafetiva entre homens negros. O livro tem 124 páginas e propõe a formulação de uma linguagem poética que Jordan define como HomoAfroErótica, dedicada a discutir corpo, erotismo e identidade como práticas de resistência e memória.
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Escrita majoritariamente em pretuguês e bajubá, a coletânea reorganiza o vocabulário e desafia a norma culta. Jordan apresenta essa escolha como afirmação política:
“A próclise está podre. A linguagem do colonizador está avexada com o silêncio iminente. Premiações como essas significam que vale a pena continuarmos falando e escrevendo a linguagem neutra (ainda que proibida), o bajubá e o pretuguês. Porque o futuro é AfroSapiens e ele já começou”, afirmou à Alma Preta.

Narrativas atravessam pós-abolição, ditadura militar e o presente
Os poemas transitam por períodos históricos distintos. No pós-abolição, a escrita revisita formas de afeto interditadas em um contexto de liberdade incompleta. A obra também aborda episódios da ditadura militar, com referências a homens detidos ou internados por sua sexualidade.
Textos ambientados no tempo atual observam tensões e permanências, enquanto projeta um futuro mais aberto à pluralidade afetiva e sexual. No lançamento, Jordan destacou à reportagem que o livro se originou de uma demanda coletiva.
“Escrever este livro foi atender pedidos. Não é apenas um depoimento meu, mas um retrato de histórias e sonhos de diversos homens pretos e gays”, explicou. “Coisa Feita” atribui ao afeto o papel de reorganizar subjetividades e criar vínculos que funcionam como um quilombo simbólico. Para Jordan, o encontro entre homens pretos amplia a autoestima e o pertencimento.
“O afeto gera identificação, reconhecimento. Ele melhora nossa autoestima, traz conforto e nos permite imaginar novas formas de existir para além da objetificação.”
O erotismo aparece como campo de reconstrução, distante da hipersexualização e da invisibilidade impostas a corpos pretos. Nos poemas, ele se torna experiência sensorial, política e histórica.
Além de poeta, Jordan atua como dramaturgo e compositor. Publicou duas peças de teatro e participa de forma ativa da cena de poesia falada em São Paulo. Nascido em Camaçari (Bahia), vive atualmente na capital paulista, onde desenvolve projetos artísticos que articulam literatura, performance e memória negra.