O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de um ataque militar à Venezuela, no sábado (3), e a declaração de sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, desencadearam reações em governos, organismos internacionais e movimentos políticos. Parte da comunidade internacional apontou violação do direito internacional e da soberania venezuelana.
No Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que os bombardeios e a captura de um chefe de Estado ultrapassam limites aceitáveis e criam um precedente perigoso para a América Latina. Ao mesmo tempo, parlamentares e governadores brasileiros manifestaram apoio à ação norte-americana, o que ampliou o debate sobre soberania, legalidade e alinhamento externo.
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Em entrevista à Alma Preta, o historiador e comunicador popular Jones Manoel analisa a ofensiva dos Estados Unidos, questiona a narrativa de defesa da democracia, aponta os interesses estratégicos em jogo e critica declarações de autoridades brasileiras que, segundo ele, legitimam intervenções estrangeiras e ataques à ordem constitucional. Confira abaixo os principais trechos da entrevista.
Alma Preta — Você afirma que houve uma agressão imperialista clássica dos Estados Unidos contra a Venezuela. Quais elementos permitem caracterizar essa ação como uma invasão?
Jones Manoel — O que ocorreu na Venezuela não se via na América do Sul havia cerca de quarenta anos. Trata-se de uma ação militar direta, com forças armadas dos Estados Unidos operando de forma aberta em território estrangeiro, sem intermediários locais, com o objetivo explícito de mudança de regime. Houve bombardeios, mortes de civis e o sequestro de um chefe de Estado, retirado à força do próprio país.
Durante anos, discutiu-se a chamada guerra híbrida, que combina sanções econômicas, pressão diplomática, operações de inteligência e desestabilização política interna. O que vimos agora foi diferente. Os Estados Unidos atuaram diretamente, com protagonismo militar, rompendo qualquer mediação local. Isso recoloca na cena internacional um modelo de intervenção que marcou o século XX, não apenas na América Latina, mas também na África e na Ásia.
Alma Preta — Por que o discurso de democracia e liberdade não se sustenta como justificativa para a ação dos EUA?
Jones Manoel — Do ponto de vista histórico, os Estados Unidos jamais demonstraram compromisso consistente com democracia ou liberdade fora de suas fronteiras. No século XIX, o país puniu o Haiti após a Revolução Haitiana, mesmo sendo o primeiro país das Américas a abolir a escravidão. Também anexou territórios do México por meio de guerra e restabeleceu a escravidão nessas regiões.
No século XX, os Estados Unidos patrocinaram golpes de Estado na América Latina, como na Guatemala, em 1954, para proteger interesses da United Fruit; no Brasil, em 1964, interrompendo reformas estruturais; e no Chile, em 1973, derrubando um presidente eleito para garantir o controle das riquezas minerais. Esses processos resultaram em ditaduras e repressão.
No cenário atual, o discurso democrático tampouco se sustenta. Os Estados Unidos mantêm alianças estratégicas com regimes autoritários, como a Arábia Saudita, e com Israel, responsável por ações que resultaram em dezenas de milhares de mortes de civis palestinos. Isso demonstra que a política externa norte-americana não se orienta por valores democráticos, mas por interesses estratégicos.
Alma Preta — Circulam vídeos que mostram suposta comemoração popular da invasão. O que esses registros indicam sobre a reação da população venezuelana?
Jones Manoel — Todo país possui múltiplos espectros políticos. Na Venezuela, existem setores que comemoraram a prisão de Maduro, assim como há grupos que apoiaram a invasão. Isso não é surpresa. No Brasil, também existem grupos que defendem narrativas desconectadas da realidade. A existência desses setores não define a correlação de forças.
O que os fatos indicam é que, hoje, a força política com maior capacidade de mobilização, capilaridade social e organização segue sendo o chavismo. Há manifestações contrárias à ação dos Estados Unidos e à prisão de Maduro em várias regiões do país. A oposição, por sua vez, não conseguiu organizar atos significativos ao longo de 2025.
Essa leitura não é um juízo de valor. Trata-se de um juízo de realidade. Reconhecer base social não equivale a defender o governo. Significa apenas descrever o cenário político concreto.
Alma Preta — Qual o papel das reservas de petróleo e minerais na decisão dos EUA de avançar militarmente?
Jones Manoel — A questão não é simplesmente tomar o petróleo venezuelano para venda imediata. Os Estados Unidos não enfrentam escassez de petróleo que justifique uma operação desse tipo. O que está em jogo é o controle geoestratégico da América Latina.
A lógica é garantir que petróleo, ouro, terras raras e minerais críticos da região permaneçam sob controle norte-americano e de suas empresas. Isso envolve expulsar a China do ponto de vista econômico e enfraquecer a presença da Rússia nos âmbitos diplomático e militar. O ataque à Venezuela se insere diretamente nessa disputa entre Estados Unidos e China pelo controle das cadeias globais de suprimento.
Alma Preta — De que forma o Brasil entra nesse contexto?
Jones Manoel — Ao contrário do que declarou o próprio presidente Lula, Brasil e Estados Unidos não mantêm uma relação de amizade de 200 anos. O pressuposto da dominação imperialista dos Estados Unidos no mundo é a ideia de que a América Latina constitui sua reserva estratégica, ou, nas palavras do próprio governo Trump, o seu ‘quintal’.
Isso significa que nenhum país relevante da região pode desenvolver projetos autônomos de soberania econômica, tecnológica, militar ou de integração regional sem enfrentar reação. O ataque à Venezuela funciona como um aviso direto ao Brasil. A mensagem é clara: quem manda no subcontinente sul-americano são os Estados Unidos, e nenhum ator regional deve ousar questionar essa hegemonia.
Diante disso, cabe à classe trabalhadora e às organizações populares de esquerda, socialistas e comunistas formular, apresentar e difundir um projeto real de soberania. Para esse campo político, esse projeto se expressa na Revolução Brasileira, capaz de criar as condições concretas para o exercício efetivo da soberania nacional e para a integração latino-americana como horizonte da vida política do país.
No entanto, esse projeto não está colocado no presente. O Brasil segue ameaçado. É importante lembrar que, neste momento, o país mantém uma política de entrega de terras sob pressão dos Estados Unidos, inclusive diante de ameaças relacionadas às reservas brasileiras de terras raras.
Alma Preta — Qual o perigo de autoridades brasileiras apoiarem esse tipo de ação?
Jones Manoel — É inaceitável que figuras como Nikolas Ferreira (PL), Tarcísio de Freitas (Republicanos), Ratinho Júnior (PSD), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (União Brasil) e, em Pernambuco, deputados reacionários como Coronel Feitosa (PL), Clarice de Tércio (PP) e Júnior de Tércio (PP) façam uma defesa aberta de que uma potência estrangeira ataque o Brasil. Isso é simplesmente odioso.
Essa postura precisa ser respondida da forma mais dura possível. Não há como tratar com diplomacia ou decoro parlamentar indivíduos que defendem a agressão de uma potência estrangeira contra o próprio país. Enquanto comunicador popular e militante, meu papel é denunciar, debater e esclarecer.
Se um governador dos Estados Unidos defendesse que a China invadisse o próprio país, ele seria cassado, preso e severamente punido. O mesmo ocorreria na China: uma liderança do Partido Comunista Chinês que defendesse uma invasão estadunidense perderia todos os cargos e seria presa.
Não podemos naturalizar as declarações de Tarcísio de Freitas e Nikolas Ferreira. Para além da pedagogia política necessária para dialogar com uma população muitas vezes enganada pelas mentiras da extrema-direita, é preciso agir com firmeza e dizer de forma clara e direta: Tarcísio de Freitas e Nikolas Ferreira são criminosos e inimigos do Brasil.
Alma Preta — Qual o desfecho possível para a crise?
Jones Manoel — É impossível afirmar qual será o desfecho da situação venezuelana, pois ainda existem muitas informações desconhecidas. A operação de sequestro de Nicolás Maduro, por exemplo, foi extremamente estranha. Não se sabe se houve colaboração interna, tampouco qual será a política adotada pela vice-presidente empossada ou qual será a sua postura diante do novo cenário.
O que é absolutamente claro para nós é que a solução para a Venezuela será decidida pelos próprios venezuelanos. Não cabe aos Estados Unidos, à União Europeia ou a qualquer outro país determinar os rumos políticos da Venezuela. Quem decide os rumos da Venezuela é o povo venezuelano.
É curioso que se construa um discurso supostamente preocupado com o futuro democrático da Venezuela enquanto o mundo capitalista assiste de forma hipócrita e cínica a um genocídio contra o povo palestino, sem que Israel sofra qualquer tipo de sanção. Benjamin Netanyahu, um criminoso de guerra, segue impune, sem ser preso e sem sequer perder o cargo de primeiro-ministro.
Portanto, quem deve decidir os rumos da Venezuela são os venezuelanos. O princípio da autodeterminação dos povos é inegociável — inegociável para os marxistas e para todos aqueles que compreendem que, ao naturalizar a violação desse princípio, abre-se caminho para que o que aconteceu na Venezuela possa ocorrer em qualquer país do mundo, a qualquer momento.