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Ainda [não] estamos aqui: universidades seguem barrando negros de alcançarem a docência 

São instituições que se orgulham de terem adotado cotas para o ingresso discente, mas que seguem resistindo a democratizar o acesso à docência, à pesquisa e à produção do saber
Prédio da Faculdade de Direito da USP, em São Paulo.

Prédio da Faculdade de Direito da USP, em São Paulo.

— Cecília Bastos/USP Imagens

1 de novembro de 2025

A história da professora Érica Bispo é um espelho doloroso do que o Brasil insiste em negar. Os corpos pretos seguem sendo sistematicamente excluídos dos espaços de prestígio e poder, inclusive e talvez sobretudo dentro das universidades públicas.

Érica, doutora e pós-doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi aprovada em primeiro lugar em um concurso para professora de Literaturas Africanas e Portuguesas na Universidade de São Paulo (USP). Dois anos depois, viu sua conquista ser anulada pelo Conselho Universitário, que acolheu denúncias de “proximidade” com membros da banca baseadas em fotos de eventos acadêmicos —  o tipo de convivência corriqueira em qualquer campo científico.

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Qualquer pessoa minimamente familiarizada com o espaço acadêmico sabe que ele é uma redoma. Todos se conhecem, se encontram em congressos, simpósios, bancas e publicações. Portanto, é inevitável que existam relações de convivência, sobretudo em áreas de conhecimento específicas, como a de Literaturas Africanas. A ironia cruel é que, justamente nessa disciplina, candidatas brancas tenham se articulado com a institucionalidade para barrar a ascensão de uma docente negra

A decisão da USP não é neutra nem técnica, é discriminatória. Ela revela o quanto a política institucional muitas vezes com a roupagem de formalidade acadêmica serve para manter privilégios e reproduzir a exclusão racial. Segundo o Anuário Geral da USP, entre mais de 5 mil professores, apenas 136 se declaram pretos, pardos ou indígenas. Em 2025 isso representa apenas 3,96% do corpo docente da maior universidade do país. 

E a USP não está sozinha. A ausência de professores negros se repete em praticamente todas as universidades públicas brasileiras, inclusive na Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), onde a presença de docentes negros também é ínfima. São instituições que se orgulham de terem adotado cotas para o ingresso discente, mas que seguem resistindo a democratizar o acesso à docência, à pesquisa e à produção do saber. 

A anulação do concurso de Érica Bispo é mais do que um erro administrativo. É um sintoma de um racismo institucional que se disfarça de zelo técnico, mas que serve no fundo para manter as estruturas de poder exatamente como estão. É o sistema dizendo com suas normas e com seus silêncios que há lugares onde pessoas negras ainda não devem estar.

Se queremos uma universidade realmente pública e plural, precisamos de uma agenda antirracista de inclusão docente, com políticas afirmativas permanentes, que incluam para além das cotas para o ingresso, incentivos específicos para garantir a permanência de professores negros nas salas de aula, nas bancas e nos conselhos universitários.

Até que isso aconteça, continuaremos repetindo como denúncia e como promessa o que o título deste texto afirma. Ainda [não] estamos aqui.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Andreia de Jesus
    Andreia de Jesus é advogada, educadora popular, mãe solo, deputada estadual pelo PT e vice-presidenta da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

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