Ao som dos atabaques, do caxixi, do agogô, do xequerê e de tantos outros instrumentos percussivos a magia baixa, as pessoas entram em transe, corpos balançam, outros giram incansavelmente. O balé das saias rodadas imita os corpos que, em lágrimas, evocam os espíritos que moram noutro tempo e espaço. Orixás, entidades e tantas outras forças do mundo invisível assumem o protagonismo da festa onde suas memórias, histórias e mitos são cantados feito reza e rezados feito canto. Por fim, é nesse cenário que o Carnaval se afirma como terreiro a céu aberto.
É possível reler todas as palavras até aqui descritas e, ao final, substituir “carnaval” por “terreiro”. Isso porque a construção do rito da maior festa a céu aberto do mundo se organiza a partir da mesma lógica que estrutura as giras dentro dos terreiros.
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Por incrível que pareça, o Carnaval é uma celebração profundamente cristã, que nasce na Idade Média, quando a Igreja Católica institui a Quaresma como um período de jejum, mortificação e, justamente, de “despedida da carne”. Historicamente, essa prática de penitência é criada para contrastar com os chamados excessos do Carnaval. Assim, estabelece-se um tempo em que a carne é simbolicamente liberada, permitindo que a folia seja vivida sem restrições, antes do recolhimento. Enquanto o Carnaval passa a ser compreendido como um período de liberdade e excesso, o período católico da Quaresma representa momento de disciplina e autolimitação em que o fiel busca o equilíbrio espiritual através do sacrifício e da renovação da fé.
No Brasil, além de se tornar a maior festa popular do país, o Carnaval assume novos contornos, traduzindo-se na maior festividade a céu aberto do mundo. Essas características estão profundamente enraizadas nas canjiras de terreiro que, com seus ritos, antecedem qualquer enredo que venha a se manifestar na avenida. É no terreiro que se formam os curimbeiros que tocam nos desfiles, que circulam as histórias orai posteriormente cantadas nas avenidas e que se constroem as personalidades que, por vezes, extrapolam os limites do axé, evidenciando que, para o povo de terreiro, o sagrado e o profano dançam de braços dados feito mestre-sala e porta-bandeira.
Não à toa, a mesma Pombagira que baixa no terreiro, neste ano também desfilou no cortejo da escola de samba Em Cima da Hora, integrante da Série Ouro do Carnaval do Rio de Janeiro. Seu Zé Pelintra, por sua vez, já é veterano na avenida, desde a inspiração do personagem Zé Carioca, em uma das visitas de Walt Disney ao Brasil, até sua marcante presença no samba-enredo Ópera de Malandros, da Salgueiro, em 2016, quando o malandro mais consagrado dos terreiros não perde a oportunidade de gingar em meio aos foliões. O mesmo se observa com os pretos e pretas-velhas que figuram em carros alegóricos de escolas como Estácio, Unidos da Tijuca e Vila Isabel, transitando entre alegorias e corpos na avenida.
A partir dessa dinâmica de atravessamentos, ainda que não se cante explicitamente o terreiro, sua influência cultural e, sobretudo, musical está sempre presente. Seja pelo toque dos tambores que traduzem a rítmica dos atabaques da macumba nas avenidas, seja pelos corpos que riscam passos e gingas que ganham vida nos territórios da afroespiritualidade, o Carnaval se afirma como vitrine do terreiro. É o momento em que não se abrem brechas para o racismo religioso e em que a maior festa do mundo canta o ânimo de ser do baticum.
É justamente nesse lugar de visibilidade e afirmação que o samba anuncia aquilo que nasce de dentro dos terreiros, assim como atravessa as avenidas e se transforma em ponto cantado no congá da Umbanda. Eis a troca que ilumina segredos e caminhos, descreve encantos e revela parte da poesia que, até então, permanecia reservada aos iniciados no mistério. É dessa forma que o terreiro passa a ser cantado através de letras como “Macumba é macumba, canjerê, mojubá. Macumba é macumba, firma ponto no congá…”, refrão da Estácio de Sá neste ano, ou ainda “Atabaque ecoou, liberdade que retumba, isso aqui vai virar macumba!”, refrão do samba-enredo deste ano da Beija-Flor de Nilópolis.
Através dessa pedagogia circular, a festa em que se espanta a fome por meio da alegria faz com que as mesmas bocas que amaldiçoam e apedrejam os terreiros passem a cantar suas belezas em alto e bom som pelos quatro cantos do Brasil afora. Se, por um lado, o país assiste ao assombro do crescimento dos números de racismo religioso, por outro, torna-se cada vez mais difícil, ainda que se tente, dissociar o terreiro do Carnaval, ou o Carnaval do terreiro. Da mesma forma que não é possível pensar o Brasil sem o samba, não se concebe a identidade do povo brasileiro sem a macumba. Como cantou a Unidos de Vila Isabel neste ano: “Macumba é samba e samba é macumba”. Quem diz o contrário não entendeu nada.
Saravá!