Toni e seu amigo Chule filmam com o celular. Na imagem, aplicam um filtro com cores invertidas — e é justamente assim que o diretor Guillermo Galoe quer que enxerguemos aquela paisagem: através dos olhos dos meninos, carregada de distorções, invenção e desejo.
Vencedor do Prêmio SACD de Melhor Roteiro na Semana da Crítica de Cannes, “Cidade sem Sonho” nos apresenta Toni, um garoto de 15 anos que vive com a família no maior assentamento irregular da Europa, nos arredores de Madri.
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Ele tem orgulho de pertencer àquele território, e seu avô — chamado de “Pai” por todos — é sua principal referência. Logo no início, numa cena em que conserta um motor de carro, o avô revela sua força silenciosa: é um homem que carrega a sabedoria, a calma e o senso de pertencimento de toda uma comunidade.
Mas o tempo se encurta. A desapropriação e a demolição do assentamento se aproximam. O avô resiste, enquanto os pais de Toni consideram mudar-se para os apartamentos populares oferecidos pelo governo. O impasse não é apenas material — é emocional, filosófico: ficar é preservar a liberdade; sair é buscar segurança.
Toni, dividido entre essas duas forças, precisa decidir o que deixar para trás. Com seu cão galgo italiano, o amigo de infância e o celular de cores invertidas, ele tenta imaginar o futuro e negociar o presente.
A cena em que em uma das casas abandonadas ele propõe viver ali com o amigo, é belíssima. Pois mesmo se tangendo a uma fantasia, existe o genuíno desejo da realidade daquilo se concretizar. Cidade sem Sonho é um filme de textura naturalista e ao mesmo tempo sensorial. Sua narrativa cresce em ritmo e tensão conforme o inevitável se aproxima. O roteiro tem a virtude de tornar compreensíveis todas as perspectivas em jogo — e ao final nos faz perceber que o afeto é também uma forma de território, e que, às vezes, pertencer é resistir.