Existe o conceito de que o cinema é a soma de todas as artes — e, em sua potência, condensa múltiplas possibilidades de conexão com o público.
“Copinha”, documentário dirigido por Joaquim Salles, traz para a tela não apenas o que o futebol representa enquanto esporte, mas expande sua força para além dele.
Quer receber nossa newsletter?
Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!
Na sala mais enérgica em que estive até agora na 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, cada gol era celebrado, cada conquista acompanhada por gritos — e cada história, por sorrisos e lágrimas.
Ao retratar o processo do Sub-20 do Esporte Clube Macapá que pela primeira vez em sua história, irá disputar uma Copinha (uma das competições de base mais importantes do mundo), o documentário desperta algo essencial em nós, latino-americanos: a identificação.
O time do Macapá entende, a todo momento, o tamanho que tem — e faz disso munição para bater de frente com os adversários. Eles sabem da disparidade de investimento em relação aos outros clubes. E essa desigualdade se estende muito além do esporte: fala sobre uma região rica em cultura, trabalho e beleza, mas frequentemente colocada à margem do olhar nacional.
É nessa força e de cabeça erguida que somos lançados logo no início — não apenas para acompanhá-los, mas para nos sentirmos parte dessa comitiva.
A riqueza dos elementos que compõem o documentário é impressionante, e a sensação é de que nada é desperdiçado. Acompanhamos os destaques do time que, por conta da idade limite, sabem que essa é a última chance de chamar a atenção de um olheiro nacional ou internacional. Vemos o time de marketing, surpreso com o crescimento inesperado dos números e do engajamento.
E conhecemos o técnico que deixou a vida e a família em Portugal para cuidar desses jovens. É dele, aliás, boa parte dos momentos mais cômicos e emocionantes do filme — especialmente quando, em um discurso de vestiário, ele lembra aos meninos que suas dores são também suas maiores vantagens:
“Eles nunca tiveram que jogar no sol quente do Amapá. Vocês sim.
Nunca tiveram que jogar com fome. Vocês sim.”
Ao final da projeção, é quase impossível não se sentir pertencente àquela história, àquelas pessoas, àquele time. E essa é uma das maiores forças do cinema: dar visibilidade a um recorte de vida. Era isso que muitos daqueles jogadores queriam — e precisavam.
Por eles, pelo time, por uma região.
Um gol brilhante.