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O clima das margens: cuidado, poder e pertencimento no Brasil da COP30

Como falar de futuro sustentável se milhões de brasileiros ainda vivem sem saneamento, sem sombra e sem teto seguro?
Marisqueiras do Rio Grande do Norte.

Marisqueiras do Rio Grande do Norte.

— Reprodução/Diogo Lopes/Fundo Casa Socioambiental

26 de outubro de 2025

A a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) se aproxima e o Brasil se prepara para sediar o maior debate climático da década, que vem acompanhado de uma pergunta oriunda das margens do país para o centro: de que Brasil estamos falando quando falamos de clima? O das decisões globais ou o das decisões urgentes para quem enfrenta alagamentos constantes e desapropriação diária?

A crise climática não é neutra e no Brasil ela tem cor, gênero e CEP. Segundo a ONU, 80% das pessoas deslocadas por desastres climáticos são mulheres periféricas e racializadas. A desproporção não é acaso: é o resultado direto da sobreposição de vulnerabilidades, pois ser mulher, negra, periférica, mãe solo e trabalhadora precarizada faz com que o corpo feminino seja o primeiro território a colapsar quando a natureza responde ao modelo de exploração que o capitalismo global construiu.

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Dados recentes do governo federal mostram que 26,5 milhões de pessoas vivem em moradias inadequadas, sem drenagem, saneamento ou segurança estrutural e sua maioria está localizada nas periferias urbanas. Sendo esses territórios onde o calor mata, a chuva expulsa e o Estado não chega.

O relatório “Encruzilhada Climática”, da Oxfam Brasil, revela que apenas 15% das periferias acessam financiamento climático. Embora 73% da população periférica seja negra, apenas 12% dos R$ 185 bilhões previstos no Plano Plurianual (PPA) 2024-2027 para ações climáticas estão destinados à adaptação. Isso prova que o dinheiro que poderia proteger as comunidades vulneráveis segue a lógica do mercado e financia mitigação e compensações de carbono nas capitais, enquanto a adaptação, que salva vidas, não entra no orçamento.

Uma contradição que extrapola os limites oceânicos tupiniquins. Em declaração recente, o diplomata da Tanzânia, Richard Muyungi, resumiu: “Não há como discutir transição energética e carros elétricos na COP30 se 45% da população africana sequer tem acesso à eletricidade.” O mesmo vale para o Brasil. Como falar de futuro sustentável se milhões de brasileiros ainda vivem sem saneamento, sem sombra e sem teto seguro?

Adaptar-se às mudanças climáticas não é uma questão de escolha, trata-se de direito humano básico para o contexto e, apesar do aparente prejuízo, adaptação precisa ser um compromisso político com a vida. Programas como o Minha Casa, Minha Vida precisam incorporar critérios climáticos e de gênero, evitando novas construções em áreas de risco e priorizando mulheres e crianças nos reassentamentos.

Também é urgente reconhecer o cuidado como política pública. As cenas de violência de gênero em abrigos vulneráveis revelam o fracasso estrutural de um Estado que ainda trata a vida de mulheres negras como descartáveis. É hora de garantir abrigos exclusivos para mulheres, políticas de saúde mental climática e apoio para as lideranças comunitárias que sustentam os territórios quando tudo desmorona.

Sem romantização da resiliência, é preciso vangloriar o trabalho de linha de frente que mulheres líderes comunitárias tem realizado. Tenho estado muito próxima a elas, e ver a organização de multirões que evitam enchentes, cozinhas solidárias que enfrentam a fome e redes de vizinhança que fazem a cidade funcionar onde a infraestrutura falhou. Essas mulheres, diferente de uma elite brasileira, não fazem caridade. O que elas aplicam é tecnologia do cuidado aplicada à sobrevivência.

Ninguém, no entanto, deveria precisar ser heroína para existir. Cuidado não é dom natural, que apesar de estar inerente aos relacionamentos, quando extrapola os limites do desejo é um trabalho. As mulheres negras estão há séculos cuidando de um país que não as cuida de volta e vez ou outra dizem que não as pertence. E essa é talvez a maior injustiça climática do Brasil.

A COP30 será realizada em Belém, na Amazônia, mas o verdadeiro símbolo de futuro não estará apenas nas florestas: estará nas comunidades, nas favelas, nas periferias que também são biomas humanos. Quando o cuidado for tratado como infraestrutura e o território como protagonista, o Brasil deixará de ser um país de exploração e passará a ser um país sustentável a si mesmo.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

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  • Camila Santos

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