PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Os Panteras Negras voltaram?

Em texto de opinião, a pesquisadora de mídia e militante do Movimento Negro Unificado (MNU) discute o que se sabe, até agora, sobre a suposta retomada do partido que marcou a história dos EUA e das lutas antirracistas no mundo
Membros do autointitulado Partido dos Panteras Negras; no centro, Paul Birdsong, líder do grupo na Filadélfia, nos Estados Unidos

Membros do autointitulado Partido dos Panteras Negras; no centro, Paul Birdsong, líder do grupo na Filadélfia, nos Estados Unidos

— Reprodução/Redes Sociais

24 de janeiro de 2026

Como parte da escalada de violência promovida pelo Serviço de Imigração e Controle de Alfândega (ICE) dos Estados Unidos, há duas semanas uma mulher foi morta a tiros por um agente federal em Minneapolis, no estado de Minnesota. Renee Nicole Good tinha 37 anos, era uma mulher branca, mãe de três filhos, poeta premiada e observadora legal das atividades do ICE. Prontamente, o governo Trump reagiu ao caso prometendo “imunidade absoluta” ao agente federal e a diretora do Departamento de Segurança Interna, Kristi Noem, classificou Renee Good como uma “terrorista doméstica”.

Diante do caso, uma série de protestos contra o Serviço de Imigração tomaram as ruas de diferentes cidades do país. Esse é o contexto em que ganhou repercussão a retomada de um grupo conhecido na história dos EUA: o Partido dos Panteras Negras para Autodefesa.

Quer receber nossa newsletter?

Você encontrá as notícias mais relevantes sobre e para população negra. Fique por dentro do que está acontecendo!

No último dia 8, portando armas e organizados com a estética e os emblemas dos Panteras Negras, um grupo da seção da Filadélfia do movimento, incluindo o presidente nacional Paul Birdsong, participou dos protestos contra o ICE. Muitas imagens dessas ações têm repercutido amplamente nas redes sociais e ascendido o questionamento sobre a volta dos Panteras Negras.

Trata-se de uma retomada da experiência passada? O que defendem agora? Por que atuam na causa da imigração? Essas são algumas das questões que têm surgido. Acreditamos que ainda é cedo para construir uma análise profunda, mas já podemos apontar as primeiras respostas a partir das declarações de Birdsong e da cobertura da imprensa local.

Fundado nos por nomes como P. Newton e Bobby Seale, no processo de luta por direitos civis dos anos sessenta, os Panteras Negras foram originalmente um movimento de combate à violência racial e às desigualdades sociais, de orientação marxista, influenciado pela onda de revoluções e movimentos de libertação nacional das décadas de cinquenta e sessenta, como as lutas por independência que aconteciam na África, a Revolução Vietnamita e os levantes populares na América Latina.

Embora derrotado a partir do dramático assassinato de suas principais lideranças, o Partido dos Panteras Negras tornou-se uma das mais emblemáticas experiências de organização política revolucionária no “coração” do império estadunidense. Não por acaso, é a partir dessa inspiração – como se nota no nome e na estética – que o novo movimento tem se organizado atualmente.

No entanto, embora inspirado na experiência histórica, Paul Birdsong diz que o grupo não se trata exatamente de uma cópia de seus precursores, mas sim de uma releitura contemporânea de seus princípios. O movimento tem se articulado nacionalmente pelo menos desde 2020, a partir da onda de protestos que incendiou o país depois da morte de George Floyd.

Membros sobreviventes do partido original teriam treinado Birdsong e outras lideranças, que seguiram adiante com o recrutamento de novos filiados. Não se sabe ao certo a quantidade total de militantes que aderiram ao partido em todo país. De acordo com declarações dadas à imprensa, cerca de 100 pessoas compõem a sessão da Filadélfia.

A intervenção do movimento, assim como na experiência anterior, organiza-se a partir de duas frentes. A primeira é a organização de atividades comunitárias, como distribuição gratuita de alimentos, roupas e itens básicos em bairros pobres. As ações se assemelham à lógica dos “programas de sobrevivência”  dos Panteras, como o café da manhã gratuito para crianças e clínicas médicas gratuitas.

A segunda frente surge a partir da brecha legal de diversos estados norte-americanos em relação à posse e ao porte de armas de fogo. É a presença ostensiva de membros armados em protestos, ações públicas e patrulhamento comunitário. Para o grupo, a visibilidade de cidadãos negros armados e organizados inibe a ocorrência de abusos policiais e ataques de grupos supremacistas da extrema direita. Além disso, cumpre o papel de reforçar a ideia de que as comunidades marginalizadas têm direito à própria proteção quando o Estado falha.

É a partir dessa última ideia que o grupo tem se posicionado em relação à política de imigração. Eles querem o fim do ICE, além de reivindicarem a responsabilização da administração de Trump pelos assassinatos e casos de violência por parte de agentes federais. Ao serem questionados sobre o porquê de atuarem na causa, Birdsong relembra o internacionalismo e a solidariedade aos povos oprimidos como princípios do partido historicamente, que não somente lutava pela população negra estadunidense:

[…] A coisa número um é que muitas pessoas estão dizendo que não deveríamos nos levantar contra o ICE porque estamos nos levantando contra, ou melhor, defendendo pessoas que não somos nós e os Panteras Negras só defendem pessoas negras. Isso é uma mentira. Huey P. Newton disse que nós somos internacionalistas e ficamos ao lado de todas as pessoas oprimidas, não importa de que cor elas sejam. Esse é o fundador do Partido dos Panteras Negras. Ele disse isso. […] A coisa número dois: o Partido dos Panteras Negras criou algo chamado a Coalizão Arco-Íris, que é uma coalizão de hispânicos, asiáticos, brancos e negros de todo o mundo. Lutando juntos contra a opressão. De novo, os Panteras Negras ficaram ao lado dos mexicanos, ficaram ao lado dos porto-riquenhos e dos dominicanos, ficaram ao lado dos japoneses e dos vietnamitas. Nós, na verdade, os Panteras Negras, fizeram toda uma campanha para acabar com a Guerra do Vietnã. Eles ficaram ao lado do Vietnã. […] Se vocês assistirem a Huey Newton e ouvirem um discurso dele, ele diz categoricamente: nós não somos nacionalistas negros. Nós somos internacionalistas e ficamos ao lado de todas as pessoas oprimidas ao redor do globo, não importa qual seja a sua etnia.”

Nos últimos dias, a tensão em torno do tema da imigração vem se acirrando ainda mais. Como reação aos protestos, que têm acontecido em dezenas de cidades, em especial no estado de Minnesota, o Pentágono colocou em alerta 1500 soldados para intervir na região.

Diante do assassinato de Renee Good, postagens nas redes sociais que mostram a ação truculenta do Serviço de Imigração têm se alastrado e gerado comoção popular. De acordo com uma pesquisa da CNN 57%, dos estadunidenses desaprovam a maneira como o ICE tem aplicado as leis de imigração.

Além disso, redes de solidariedade entre cidadãos, visando a segurança de vizinhos indocumentados, estão se fortalecendo. Devemos acompanhar com atenção e esperança os desdobramentos dessa mobilização popular, que agora conta com os Panteras Negras “em cena” outra vez.

A editoria Quilombo reúne textos opinativos. Este é um artigo de opinião e não representa necessariamente a visão da Alma Preta sobre quaisquer temas.

Apoie jornalismo preto e livre!

O funcionamento da nossa redação e a produção de conteúdos dependem do apoio de pessoas que acreditam no nosso trabalho. Boa parte da nossa renda é da arrecadação mensal de financiamento coletivo.

Todo o dinheiro que entra é importante e nos ajuda a manter o pagamento da equipe e dos colaboradores em dia, a financiar os deslocamentos para as coberturas, a adquirir novos equipamentos e a sonhar com projetos maiores para um trabalho cada vez melhor.

O resultado final é um jornalismo preto, livre e de qualidade.

  • Malu Nogueira

    Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da ECA-USP, pesquisa a reprodução de estereótipos racistas na mídia. Coordenadora do Núcleo de Consciência Negra - USP e militante do Movimento Negro Unificado.

Leia mais

PUBLICIDADE

Destaques

Cotidiano